13º Fórum do Biogás: o mercado começa a sair da promessa e entra na disputa por demanda, infraestrutura e competitividade

O 13º Fórum do Biogás, realizado em 11 e 12 de agosto, no São Paulo Expo, terminou com uma mensagem bem diferente daquela dos primeiros anos do mercado brasileiro: o problema já não é apenas demonstrar que o Brasil tem potencial para produzir biogás e biometano. A questão agora é criar demanda, infraestrutura, previsibilidade regulatória e competitividade suficientes para transformar esse potencial em mercado.

A edição – organizada pela ABiogás Associação Brasileira do Biogás e do Biometano – reuniu representantes da cadeia de produção, distribuição e consumo, além de governo, reguladores, empresas de gás, transporte, saneamento, agronegócio e tecnologia. A programação incluiu discussões sobre o mandato de biometano da Lei do Combustível do Futuro, infraestrutura e logística, abertura do mercado de gás, CGOB, transporte pesado, fertilizantes, digestato, mobilidade urbana, descentralização e novas aplicações.

Plano de Desenvolvimento tenta transformar potencial em estratégia de expansão

Um dos anúncios mais relevantes do 13º Fórum do Biogás foi a apresentação do Plano de Desenvolvimento do Biogás e do Biometano, concebido pela ABiogás como uma agenda para orientar a expansão da cadeia e transformar o potencial brasileiro em projetos, investimentos, infraestrutura e demanda.

A apresentação ocorreu em um momento significativo: segundo dados da ANP divulgados durante o Fórum, a produção brasileira de biometano saltou aproximadamente 75%, de 606,6 mil m³/dia em 2024 para 1,06 milhão de m³/dia em 2025, enquanto o país já contabilizava 21 plantas autorizadas para comercialização, com capacidade instalada de aproximadamente 1,33 milhão de Nm³/dia, além de 48 empreendimentos em processo de autorização E a ABiogás projeta que a capacidade nacional possa chegar a 3,37 milhões de Nm³/dia em 2028.

CGOB: de atributo ambiental a instrumento econômico do mercado

No encerramento, a ABiogás lançou o Guia Prático do CGOB – Certificado de Garantia de Origem do Biometano, com a proposta de reduzir a assimetria de informações e orientar produtores, distribuidoras e demais agentes sobre emissão, negociação e aposentadoria dos certificados.

O CGOB é importante porque permite separar o atributo ambiental da molécula física: cada certificado corresponde a 100 m³ de biometano com origem renovável comprovada, tem validade associada a uma certificação de origem de até quatro anos e pode ser negociado separadamente do gás físico. Para sua emissão, produtores e importadores autorizados pela ANP precisam contratar um Agente Certificador de Origem (ACO) independente e credenciado, responsável por verificar a matéria-prima, o processo produtivo e a conformidade da unidade.

O mecanismo passa a dar uma dimensão econômica à origem renovável do gás e pode criar uma nova camada de valor para o biometano, inclusive para consumidores que precisam comprovar redução de emissões. Mais do que um manual operacional, o Guia aparece quando o setor começa a construir uma infraestrutura de rastreabilidade ambiental da molécula, uma questão que aproxima o biometano de temas como medição, certificação, gestão de dados e integridade das informações. E isso é importante porque a meta de descarbonização do mercado de gás natural, com a primeira meta nacional fixada em 0,5%, começa a ser aplicada a partir de 2026, criando um primeiro mercado regulado para o atributo ambiental do biometano.

CGOB não é simplesmente “certificado verde”

Destaque-se a rastreabilidade de toda a cadeia, desde a medição da molécula física e a comprovação da origem da matéria-prima, passando pelo processo de produção e pela certificação, até a emissão, negociação e aposentadoria do CGOB. Ou seja, quanto mais o mercado crescer, maior será a importância de sistemas capazes de garantir a integridade e a rastreabilidade desses dados. O biometano começa, assim, a exigir uma infraestrutura digital e metrológica tão importante quanto a infraestrutura física de produção e distribuição.

No Fórum, a superintendente da ANP, Amanda Gondim, havia previsto que as primeiras emissões do CGOB começariam “no próximo mês” — ou seja, em setembro. A previsão se confirmou dentro do prazo: em 1º de setembro de 2026, a ANP publicou dois informes técnicos que operacionalizam a certificação: o Informe Técnico nº 4/CGOB (procedimentos de auditoria na usina para certificação, monitoramento e renovação) e o Informe Técnico nº 5/CGOB (documentação exigida para abrir o processo de certificação junto à ANP). Com isso, os sete Agentes Certificadores de Origem (ACO) já credenciados pela ANP passam a poder iniciar formalmente os processos de certificação de produtores e importadores de biometano. A ANP também já credenciou três escrituradores e duas entidades registradoras de CGOB, com uma terceira em avaliação. Em outras palavras: o “primeiro passo” que a EPE e a ANP descreviam no Fórum como diálogo institucional já virou infraestrutura regulatória operacional em menos de um mês.

O dado talvez mais importante: há biometano para atender a demanda até 2036

O superintendente adjunto de Petróleo e Gás Natural da EPE, Marcelo Alfradique, afirmou à Eixos que o Brasil dispõe de potencial produtivo suficiente para atender à expansão esperada da demanda por biometano até 2036.

A declaração foi baseada na recém-publicada Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis – Ano Base 2025, lançada pela EPE no primeiro dia do Fórum. A publicação destaca a expansão do biometano por meio de novas plantas em operação e construção e relaciona esse crescimento a iniciativas regulatórias e de descarbonização.

O dado muda a natureza do debate. Se o potencial de produção é suficiente para atender à expansão da demanda projetada, o gargalo passa a estar menos na disponibilidade física de matéria-prima e mais na capacidade de transformar potencial em projetos economicamente viáveis, conectar as plantas ao mercado e criar consumidores dispostos a contratar a molécula.

Mandato: produtores querem previsibilidade — e uma curva muito mais agressiva

O debate mais sensível do Fórum foi provavelmente o mandato de biometano criado pela Lei do Combustível do Futuro.

Segundo Manuela Kayath, presidente do Conselho de Administração da MDC Energia e vice-presidente do Conselho da ABiogás, o setor defende um calendário plurianual para aumentar a participação obrigatória do biometano. A proposta é elevar a meta dos atuais 0,5% para 1,5% já em 2027, podendo chegar a 5% a 7% em cinco anos. A justificativa é essencialmente financeira: segundo a executiva, o processo de decisão de investimento de uma planta de biometano não é de 12 meses, mas de três a quatro anos, incluindo definição de local e autorizações — daí a necessidade de uma “rampa” conhecida com antecedência. O pleito vem sendo levado à Mesa de Monitoramento do Mercado de Biometano, coordenada pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

A discussão expõe a tensão: de um lado, o mandato cria demanda e reduz o risco de mercado; de outro, uma obrigação excessivamente rígida pode deslocar a discussão de competitividade para simplesmente cumprimento regulatório. Essa segunda preocupação apareceu explicitamente no Fórum.

“Não basta ter mandato”: o biometano precisa competir por preço

Pedro Turqueto, CEO da Copa Energia, foi direto ao defender que o setor não pode depender exclusivamente do mandato. Para ele, o biometano precisa reduzir custos e conseguir competir com as demais moléculas energéticas. O mandato pode funcionar como mecanismo de partida para estimular investimentos, mas não pode ser a única sustentação do mercado

Essa talvez seja uma das questões mais importantes deixadas pelo evento. O Brasil pode criar demanda compulsória, mas isso não resolve o problema de custo de produção somado a upgrading, compressão, conexão, transporte, distribuição, tributação e custo do capital. É essa conta que determinará se o biometano conseguirá competir no mercado aberto.

São Paulo começa a construir uma infraestrutura real de biometano

Um dos números mais concretos apresentados durante o Fórum veio da Comgás. A distribuidora paulista já havia conectado duas plantas de biometano à sua rede – a usina Costa Pinto, em Piracicaba, e o aterro sanitário de Paulínia – e prevê novas conexões nos 12 meses seguintes, elevando o volume potencial de biometano injetado para aproximadamente 800 mil m³/dia.

Henrique Sonja, diretor de Suprimentos de Gás da Comgás, associou essa expansão ao ambiente criado pelo mandato do Combustível do Futuro e citou como avanço regulatório relevante a criação, pela Arsesp, da Tusd-Verde, tarifa de distribuição específica para produtores de biometano, que permite financiar parte da conexão quando o modelo regulatório padrão da distribuidora não é compatível com o projeto.

Esse movimento é importante porque demonstra uma passagem do discurso para a infraestrutura física. O biometano começa a ser tratado como molécula capaz de entrar na infraestrutura convencional de gás, e não somente como combustível produzido e consumido localmente. Isso amplia enormemente o mercado potencial.

Transporte pesado: 70 caminhões já estão rodando com biometano na Copersucar

Outro dado concreto veio da Copersucar. A empresa informou à Eixos, por meio de seu diretor de Estratégia, Daniel do Valle, que já converteu 70 caminhões, pertencentes a sete transportadoras, para utilização de biometano. A frota total que participa do projeto supera 500 caminhões, e a empresa pretende ampliar progressivamente o uso do combustível entre seus prestadores de transporte.

O projeto foi batizado de BioRota e tem uma função que vai além da substituição de combustível: demonstrar, em condições reais, a viabilidade operacional e econômica do biometano no transporte de açúcar e etanol.

O dado é relevante porque coloca o biometano diante de uma aplicação concreta: substituição de diesel em veículos pesados de alta utilização. E aparece outro elemento importante: a Copersucar considera que a emissão dos CGOBs será um marco para monetizar o atributo ambiental da molécula, especialmente a partir de 2026 e 2027 – expectativa que, como mostra a atualização acima, já começou a se concretizar.

Transporte público pode ser uma âncora de investimentos

A discussão sobre mobilidade não ficou restrita aos caminhões. José Roberto Faveret, do escritório Faveret Tepedino Londres Fraga, defendeu durante o Fórum que o transporte público pode ser uma das formas mais eficientes de criar demanda previsível para o biometano.

A lógica é territorial: a produção do combustível é potencialmente descentralizada e a demanda por transporte público também está espalhada pelo país. O problema, segundo Faveret, está nos contratos de concessão. Seria necessário criar mecanismos que permitam compensar economicamente empresas de transporte que substituam frotas a diesel por veículos a biometano.

A questão desloca o debate de “qual combustível é mais limpo?” para “quem paga pela transição?”

Em São Paulo, o transporte urbano pode ser ainda maior que a indústria

Milton Pilão, CEO da Orizon, apresentou uma avaliação ainda mais contundente: a substituição do diesel nas frotas urbanas poderia criar um mercado de biometano duas vezes maior que o potencial estimado para a indústria.

Segundo o executivo, a experiência de São Paulo com a incorporação progressiva do biometano às frotas de transporte público e veículos de coleta pode servir como referência para outros mercados. O obstáculo continua sendo a infraestrutura e a regulação necessárias para ampliar essa experiência nacionalmente.

Isso ajuda a explicar por que mobilidade apareceu tantas vezes na programação do Fórum. Não é apenas uma questão ambiental. É uma possível âncora de demanda para financiar plantas de produção.

Gás Verde quer passar de 200 mil para 650 mil m³/dia

Do lado da oferta, a Gás Verde apresentou uma das metas mais expressivas. O CEO Marcel Jorand informou que a empresa produz atualmente cerca de 200 mil m³/dia de biometano, espera fechar 2026 em aproximadamente 240 mil m³/dia e pretende chegar a 650 mil m³/dia em 2028, distribuídos por dez plantas.

O transporte pesado aparece como uma das demandas mais aquecidas para sustentar essa expansão, embora a indústria ainda seja o principal destino da produção atual. É um exemplo concreto da mudança de escala do setor: empresas começam a discutir não apenas projetos individuais, mas portfólios de plantas e centenas de milhares de metros cúbicos por dia.

O movimento da distribuidora paulista ganha relevância quando colocado ao lado da expansão projetada pelos produtores. Se a Comgás prevê chegar a cerca de 800 mil m³/dia de biometano injetado com novas conexões e a Gás Verde pretende alcançar 650 mil m³/dia de produção até 2028, fica evidente que o desafio passa a ser coordenar oferta, infraestrutura e demanda.

Não se trata simplesmente de produzir mais. É preciso que a planta esteja próxima ou conectada a uma infraestrutura adequada; que a molécula atenda às especificações; que haja consumidor; que o preço seja competitivo; e que o atributo ambiental possa ser certificado e monetizado.

Fertilizantes: talvez a pauta mais interessante que emergiu do Fórum

Uma das novidades da edição foi a transformação do digestato em pauta econômica: o CIBiogás defendeu a valorização do digestato, subproduto da biodigestão rico em nutrientes, como uma nova fronteira tecnológica e comercial.

Felipe Marques, presidente do CIBiogás, destacou que a recuperação de nutrientes pode reduzir a dependência brasileira de fertilizantes nitrogenados e fosfatados importados e fechar o ciclo da economia circular. Segundo ele, as plantas de biogás atualmente produzem digestato, mas ainda são poucas as rotas comerciais de recuperação de nutrientes em escala.

Cícero Bley, CEO da Bley Energias, foi além e defendeu que o potencial de produção de fertilizantes a partir do digestato foi historicamente negligenciado e deveria ser considerado na regulamentação do Profert.

A questão ganha dimensão geopolítica: a dependência brasileira de fertilizantes importados torna qualquer rota doméstica de recuperação de nitrogênio, fósforo e potássio estrategicamente relevante. Ou seja: o negócio do biogás pode começar a deixar de ser apenas gás. Pode envolver gás, fertilizante, carbono, eletricidade e combustível.

Rastreabilidade tecnológica do CGOB

Giovane Rosa, CEO da Gás Orgânico, chamou atenção para outra dimensão do CGOB: a necessidade de tecnologias de rastreabilidade, inclusive blockchain, diante da dimensão territorial brasileira e da necessidade de comprovar a origem do biogás e dos certificados.

Aqui aparece uma pauta tecnológica muito interessante para automação e instrumentação: quem garante que a molécula produzida é a molécula certificada? A resposta envolve medição, dados, sistemas de informação, rastreabilidade, certificação, integração entre plantas e agentes de mercado e segurança das informações – exatamente o tipo de infraestrutura que os Informes Técnicos nº 4 e 5/CGOB da ANP, publicados em 1º de setembro, começam a formalizar.

O biometano também pode chegar ao transporte marítimo

Alessandro Gardemann, CEO da Geo Bio Gas & Carbon, apresentou uma possibilidade ainda menos explorada: transformar biometano em bioGNL para o transporte marítimo. A tese é que o mercado marítimo já possui infraestrutura e experiência com GNL, criando uma possível ponte tecnológica para combustíveis renováveis. Gardemann avalia que cerca de 80% dos navios que utilizam combustíveis alternativos usam GNL, o que poderia abrir espaço para o bioGNL.

Ainda é uma rota de desenvolvimento, mas tecnicamente chama atenção porque poderia levar o biometano para um mercado energético de maior escala e, simultaneamente, valorizar seu atributo ambiental.

O paradoxo brasileiro: potencial enorme, regulação ainda insuficiente

Ildo Sauer, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, colocou o dedo em um dos principais gargalos: a regulação ainda precisa avançar significativamente para liberar todo o potencial do biometano. Segundo ele, o Brasil já avançou em aplicações como mobilidade urbana e fertilizantes, mas ainda existe espaço importante para flexibilizar regras e permitir novas configurações de negócios.

Essa crítica é pertinente quando colocada ao lado da avaliação da EPE de que existe potencial produtivo suficiente para atender à expansão da demanda até 2036. Em outras palavras: o problema brasileiro pode não ser falta de biogás. Pode ser a dificuldade de transformar potencial em mercado.

E existe uma questão de preço

Talvez a frase mais importante do Fórum, do ponto de vista econômico, tenha vindo justamente de um empresário do setor: o biometano precisa conseguir “brigar de igual para igual” com as demais moléculas.

O mandato pode criar o mercado inicial. A certificação pode adicionar valor ambiental. A infraestrutura pode ampliar o raio de comercialização. O transporte pode criar demanda. O digestato pode gerar uma segunda receita. Mas, no fim, o projeto precisa fechar a conta. Isso significa que a próxima fase do setor deverá ser marcada por escala, eficiência operacional, redução de Capex e Opex, integração logística e diversificação das receitas.

O que realmente mudou no 13º Fórum

Os debates permitem identificar pelo menos cinco movimentos:

1. O biometano começa a ganhar escala industrial. Gás Verde projeta 650 mil m³/dia em 2028; Comgás prevê chegar a 800 mil m³/dia de injeção com novas conexões.

2. A demanda está se diversificando. Indústria, transporte pesado, transporte público, geração elétrica, fertilizantes e potencialmente transporte marítimo começam a disputar espaço.

3. O mandato deixou de ser apenas uma discussão regulatória e virou variável de investimento. Produtores querem uma curva plurianual; consumidores e empresas alertam para a necessidade de competitividade.

4. O atributo ambiental passa a ter valor econômico próprio — e essa infraestrutura já saiu do papel. A entrada dos CGOBs cria condições para rastrear e monetizar a dimensão ambiental do biometano, e a regulamentação operacional já estava em vigor três semanas depois do Fórum.

5. O modelo de negócio começa a se ampliar. Digestato, fertilizantes, CO₂, eletricidade, bioGNL e novos serviços de energia aparecem como possibilidades de diversificação da receita.

A questão que fica

O 13º Fórum do Biogás mostrou um setor muito mais maduro do que aquele que simplesmente defendia o potencial brasileiro de produção de biogás. Agora existe oferta em expansão, projetos de conexão, consumidores convertendo frotas, distribuidora planejando centenas de milhares de metros cúbicos por dia, produtores buscando escala e reguladores estruturando o mercado de certificados.

Mas existe também uma pergunta mais difícil: o Brasil conseguirá transformar seu enorme potencial de resíduos em uma molécula efetivamente competitiva, sem depender permanentemente de mandato, subsídio ou obrigação regulatória? Essa será provavelmente a verdadeira prova de maturidade do mercado nos próximos anos.

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