ABS avalia tecnologia para acelerar instalação de eólicas flutuantes

A corrida tecnológica da eólica offshore flutuante começa a deslocar o foco da simples concepção de plataformas para um problema mais operacional: como instalar, desconectar, movimentar e eventualmente reparar uma turbina flutuante sem transformar cada intervenção offshore em uma operação de alto risco e alto custo. Um exemplo dessa mudança é o Squid™, sistema desenvolvido pela britânica Encomara, que recebeu em junho de 2026 um Product Design Assessment (PDA) da American Bureau of Shipping (ABS). A avaliação representa um estágio mais avançado de verificação técnica em relação ao Approval in Principle (AIP) concedido à tecnologia em novembro de 2025.

O Squid foi desenvolvido para atuar como uma interface de conexão rápida para sistemas de amarração e cabos elétricos de turbinas eólicas flutuantes. Segundo a ABS, a solução foi concebida para aumentar a segurança e a eficiência durante a instalação e a operação das Floating Offshore Wind Turbines (FOWT). O aspecto tecnicamente mais interessante é a origem do conceito: a Encomara adaptou para a eólica offshore a arquitetura de Disconnectable Turret Buoy (DTB), tecnologia já utilizada há décadas em sistemas de produção offshore de petróleo e gás.

Na prática, a lógica é aproveitar componentes e procedimentos já conhecidos na indústria offshore para criar uma capacidade de desconexão controlada da unidade flutuante. O Squid foi projetado para proteger as linhas de amarração e os cabos inter-array durante a instalação da turbina e também em períodos em que a unidade precise permanecer fora de sua posição operacional. A possibilidade de desconexão também pode ser utilizada em determinadas operações de reparo durante a vida útil do ativo.

Essa característica é particularmente relevante para a eólica flutuante porque o conceito muda a lógica tradicional da manutenção. Em uma fundação fixa, a turbina permanece fisicamente conectada ao fundo do mar e o acesso às instalações depende de embarcações e condições meteorológicas. Em uma unidade flutuante, existe potencial para desconectar o sistema, rebocar a unidade para uma área mais adequada à intervenção e depois reconectá-la, desde que o projeto, os procedimentos e as condições de segurança permitam essa operação. A tecnologia, portanto, pode atuar diretamente sobre um dos componentes do custo de ciclo de vida de uma FOWT: o tempo e a complexidade das operações offshore.

O PDA da ABS não deve, entretanto, ser confundido com uma autorização automática para utilização comercial em qualquer projeto. A avaliação significa que o projeto do Squid foi submetido a uma análise detalhada frente a requisitos de classe e da indústria aplicáveis à eólica offshore flutuante. A própria Encomara informou que ainda realizaria novos testes molhados (wet testing) em escala real no porto de Ardersier, na Escócia, como etapa adicional de sua qualificação tecnológica e de preparação para adoção comercial.

O caso também ilustra uma tendência importante para a transição energética offshore: a transferência tecnológica do petróleo e gás para as renováveis não está limitada a materiais ou equipamentos. Conceitos desenvolvidos para FPSOs, sistemas de produção flutuante, amarração, risers e operações de desconexão podem ser adaptados às novas arquiteturas de geração de energia. A própria ABS destaca que algumas das soluções mais práticas para a eólica flutuante poderão surgir justamente da adaptação de tecnologias já comprovadas no offshore convencional às características específicas de risco das turbinas eólicas flutuantes.

A importância dessa abordagem aumenta à medida que as turbinas crescem. Quanto maior a máquina, maior tende a ser o impacto econômico de uma intervenção offshore, assim como os requisitos de embarcações, logística, condições meteorológicas e disponibilidade de equipamentos especializados. Uma tecnologia que reduza o número ou a complexidade das operações realizadas diretamente no mar pode ter efeito sobre CAPEX, OPEX, disponibilidade da turbina, planejamento de manutenção e risco operacional.

O Squid se insere, assim, em uma tendência mais ampla de amadurecimento tecnológico da eólica flutuante. A própria ABS vem avaliando diferentes arquiteturas de plataformas, sistemas de fundação e tecnologias de instalação. Em 2025, por exemplo, a entidade concedeu avaliações a conceitos de plataformas flutuantes de diferentes fabricantes, incluindo sistemas semissubmersíveis destinados a turbinas de 15 MW.

E o que isso tem a ver com o Brasil?

Muito. O Brasil possui uma das maiores fronteiras potenciais para eólica offshore e, particularmente, para soluções flutuantes em regiões de maior profundidade. Mas existe uma diferença fundamental entre potencial técnico e projeto executável. Para transformar vento offshore em geração comercial serão necessárias não apenas turbinas e fundações, mas uma cadeia completa envolvendo portos, embarcações, cabos submarinos, sistemas de amarração, logística, manutenção, monitoramento, transmissão e infraestrutura industrial.

A própria ABEEólica vem colocando infraestrutura portuária, inovação, seleção de áreas, licenciamento e conexão à rede entre os temas centrais para a implantação da eólica offshore brasileira. Em maio de 2026, a entidade destacou que, após a definição das diretrizes para regulamentação do marco legal pelo CNPE, o setor aguardava celeridade para chegar às primeiras concessões de áreas.

É justamente aí que o exemplo Encomara ganha valor para o debate brasileiro: a competitividade offshore não será determinada apenas pelo custo do MWh produzido. Será também resultado da capacidade de instalar e retirar equipamentos, fazer manutenção, desconectar sistemas, utilizar infraestrutura portuária e minimizar o tempo de exposição de pessoas e embarcações às condições marítimas.

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