Realizada entre 27 de abril e 1º de maio, em Ribeirão Preto (SP), a Agrishow 2026, maior vitrine de tecnologia agrícola da América Latina, evidenciou a transição de um modelo mecanizado para um ecossistema intensivo em dados, inteligência artificial e automação avançada. Com mais de 800 expositores distribuídos em uma área de cerca de 520 mil m² e público de quase 200 mil visitantes, a feira reforçou seu papel como plataforma de convergência entre indústria, tecnologia digital e produção agrícola em larga escala.
O eixo central da edição de 2026 foi a digitalização do campo, caracterizada pela integração entre máquinas agrícolas, sensores, plataformas de software e sistemas de análise avançada de dados com o tema A força de nossas raízes. “A Agrishow permite que o público tenha contato direto com soluções que impactam a produtividade, a gestão e a competitividade no campo, além de abrir portas para parcerias comerciais e trocas técnicas com outros mercados”, afirmou João Carlos Marchesan, presidente da feira.
Soluções baseadas em agricultura de precisão demonstraram maturidade operacional, combinando GPS, sensores embarcados, drones e modelos analíticos para permitir aplicação variável de insumos, monitoramento contínuo e tomada de decisão em tempo real. Esse conjunto tecnológico tem permitido ganhos simultâneos de produtividade e eficiência, reduzindo custos e impactos ambientais ao otimizar o uso de fertilizantes, água e defensivos.
A inteligência artificial e o machine learning emergiram como elementos estruturantes desse novo paradigma: sistemas preditivos apresentados na feira utilizam modelos de aprendizado de máquina para antecipar riscos climáticos, pragas e falhas operacionais, enquanto plataformas digitais de lavoura criam “gêmeos digitais” capazes de simular cenários produtivos e orientar decisões estratégicas antes da execução no campo. Segundo a organização do evento, essas tecnologias incluem análise geoespacial avançada, monitoramento por satélite de alta resolução e sistemas automatizados de rastreabilidade, ampliando a transparência e a eficiência das cadeias produtivas.
A evolução da automação agrícola destacou máquinas conectadas, sistemas autônomos e interfaces inteligentes. Equipamentos que passaram a incorporar interação por voz, algoritmos embarcados e capacidades de autoajuste operacional, reduzindo a dependência de intervenção humana direta e aumentando a precisão das operações. Na prática, isso representa a migração da automação mecânica para uma automação cognitiva, na qual máquinas não apenas executam tarefas, mas aprendem com dados históricos e operacionais para melhorar continuamente seu desempenho.
A participação internacional reforçou geopolítica tecnológica do agro e mostrou que a China lidera avanços, com mais de 50 empresas chinesas presentes no “pavilhão chinês” que se consolidou como um hub de negócios, reunindo fabricantes de componentes e peças para máquinas agrícolas, sistemas de irrigação, sensores, câmeras e eletrônica embarcada e equipamentos com integração digital.
Embora menos concentrados em pavilhões dedicados, outros países também se destacaram por meio de empresas e tecnologias. Empresas de origem finlandesa, alemã e italiana mostraram desenvolvimento de sistemas embarcados e automação como tecnologias de interface homem-máquina e tratores inteligentes com interação por voz. Dos EUA, se destacam com plataformas digitais agrícolas e integração máquina-software-dados (big data agrícola) e ainda empresas de Israel marcam presença com sua já famosa expertise em irrigação inteligente, gestão hídrica baseada em dados e soluções IoT e eficiência de recursos.
A convergência entre hardware e software também se manifestou na oferta de soluções integradas, combinando plataformas digitais, conectividade e automação em um único ecossistema. Empresas apresentaram sistemas capazes de coletar, processar e transformar dados em decisões operacionais quase em tempo real, impactando diretamente indicadores como consumo de combustível, tempo de operação e produtividade por hectare. Essa integração reforça a tendência de que o valor no agronegócio está migrando do ativo físico isolado para a capacidade de orquestração de dados e processos.
No campo da robótica e das agtechs, a feira evidenciou a crescente adoção de soluções autônomas, como robôs agrícolas e plataformas multiagentes, capazes de executar tarefas de monitoramento e manejo com base em inteligência distribuída. Esse movimento encurta o ciclo entre coleta de dados, análise e ação, reduzindo desperdícios e aumentando a resiliência das operações frente a variáveis como clima e solo. Do ponto de vista econômico, trata-se de uma mudança relevante na alocação de capital, com maior peso para tecnologias digitais e menor dependência exclusiva de escala produtiva tradicional.
A conectividade apareceu como infraestrutura crítica para esse novo modelo. A interoperabilidade entre máquinas, sistemas e plataformas digitais foi amplamente destacada, evidenciando que a eficiência operacional depende cada vez mais da integração de dados ao longo de toda a cadeia produtiva. Nesse contexto, iniciativas como hubs de inovação e espaços dedicados a startups reforçaram o papel das agtechs na aceleração da transformação digital do setor.
Além disso, a edição de 2026 indicou uma democratização progressiva dessas tecnologias, com soluções adaptadas à agricultura familiar e a produtores de menor escala. Equipamentos compactos, plataformas simplificadas e modelos de custo mais acessíveis demonstram que a digitalização do agro tende a se expandir para além dos grandes players, ampliando o alcance da inovação tecnológica no campo.
Na Agrishow 2026, o tema financiamento deixou de ser apenas suporte comercial e passou a funcionar como infraestrutura crítica para viabilizar a adoção de tecnologias digitais, IA e automação, especialmente entre médios produtores e agricultura familiar. O conjunto de linhas de crédito, programas públicos e promoções privadas observados na feira atua diretamente na democratização progressiva dessas tecnologias, ao reduzir barreiras de entrada – custo inicial, risco financeiro e acesso a capital. Várias iniciativas sustentam esse processo, como o programa governamental “Move Agricultura” (R$ 10 bilhões), o principal anúncio estrutural da feira foi o programa federal de financiamento para máquinas e tecnologias agrícolas, com taxas de juros no patamar de um dígito. Esse programa não financia apenas “máquinas”, mas máquinas digitalizadas, ou seja, ativos com sensores embarcados, telemetria, integração com plataformas digitais. É um financiamento indireto de infraestrutura de dados no campo.
Também merece destaque aqui o financiamento embarcado pelos próprios fabricantes no modelo finance-as-a-service no agro. O sistema bancário (Banco do Brasil e outros) sempre atua fortemente na Agrishow: o Banco do Brasil realizou mais de R$ 3 bilhões em propostas durante a feira nas linhas Moderfrota para modernização de máquinas; Pronamp voltado para médios produtores; e Pronaf Mais Alimentos focado na agricultura familiar.
Plataformas digitais integradas a crédito como o Broto também do Banco do Brasil, reforçam marketplaces digitais para o segmento agrícola, integrando crédito, seguros e fornecedores.
Financiamento vs. Tecnologias Digitais no Agro (Agrishow 2026)
| Linha / Instrumento | Agente | Tecnologias viabilizadas (TI/TO) | Camada tecnológica | Público-alvo | Mecanismo de democratização |
| Move Agricultura (R$ 10 bi) | Governo Federal / Finep / bancos | Máquinas conectadas, telemetria, sensores embarcados, automação | TO + Edge + Dados | Médio e grande produtor | Reduz CAPEX de entrada para equipamentos já digitalizados |
| Moderfrota | Banco do Brasil e sistema financeiro | Tratores e colheitadeiras com IA embarcada, agricultura de precisão | TO + Edge | Médio e grande produtor | Atualiza parque de máquinas com tecnologia digital nativa |
| Pronamp | Banco do Brasil | Sistemas de gestão agrícola, conectividade, monitoramento remoto | TI + TO | Médio produtor | Amplia acesso a soluções digitais fora do agronegócio de larga escala |
| Pronaf Mais Alimentos | Banco do Brasil | Irrigação inteligente, pequenos equipamentos automatizados, apps agrícolas | Edge + TI | Agricultura familiar | Inclusão digital com crédito subsidiado |
| ABC Agro (baixo carbono) | Governo / bancos | Sensoriamento, analytics ambiental, rastreabilidade digital | Dados + TI | Produtores diversos | Vincula tecnologia à sustentabilidade e acesso a crédito |
| Crédito via plataformas digitais (Broto) | Banco do Brasil | Marketplace + analytics + integração com fornecedores | TI + Dados | Pequenos e médios | Integra crédito ao fluxo digital de compra (data-driven lending) |
| Embedded finance (NetaFinance) | Netafim + DLL | Irrigação inteligente, IoT, automação hídrica | TO + IoT | Produtores diversos | Crédito acoplado ao equipamento (menos burocracia) |
| Financiamento privado (fabricantes) | John Deere, Case IH, New Holland Agriculture | Plataformas digitais proprietárias, telemetria, IA embarcada | TO + TI + Dados | Médio e grande | Pacotes integrados (máquina + software + financiamento) |
| Cooperativas de crédito (Sicredi, etc.) | Sicredi | Conectividade rural, automação leve, gestão agrícola | TI + Edge | Pequenos e médios | Capilaridade regional e acesso facilitado |
| Programas com renegociação/prorrogação | Bancos públicos e privados | Modernização gradual (upgrade tecnológico) | Todas | Produtores endividados | Libera capacidade de investimento em tecnologia |
A feira encerrou com cerca de R$ 11,4 bilhões em intenções de compra, sinalizando que a demanda por tecnologias digitais, automação e inteligência aplicada continua aquecida e deve sustentar o ciclo de investimentos no agronegócio brasileiro. Mais do que um evento de exposição de máquinas, a Agrishow 2026 consolidou-se como um indicador estratégico: um agro cada vez mais orientado por dados, algoritmos e sistemas inteligentes, no qual a competitividade dependerá da capacidade de integrar tecnologia, informação e execução operacional em tempo real.

