O governo alemão apresentou em 23 de setembro, em Nova York, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, uma Roadmap for Transitioning Away from Fossil Fuels, que estabelece como objetivo a retirada dos combustíveis fósseis da economia alemã até 2045, em paralelo à meta de neutralidade climática. O documento foi previamente aprovado pelo gabinete federal e transforma em roteiro setorial uma meta que, até agora, estava expressa principalmente em termos de neutralidade de emissões. A Alemanha é o terceiro país europeu, depois de França e Países Baixos, a apresentar um plano nacional desse tipo.
O ponto de partida ainda é distante do objetivo: em 2024, petróleo, gás natural e carvão respondiam por 65% do consumo energético alemão. O petróleo representava 36%, o gás 24% e o carvão 5%. Segundo o Ministério Federal do Meio Ambiente, 98% do petróleo e 95% do gás consumidos eram importados, além da totalidade da hulha, com uma despesa de importação de combustíveis fósseis de €76 bilhões em 2024. O novo roteiro, portanto, combina política climática com uma estratégia de redução da exposição a mercados internacionais de energia.
A infraestrutura elétrica será o eixo da transformação. As fontes renováveis já respondem por aproximadamente 55% do consumo bruto de eletricidade alemão, e a meta é superar 80% até 2030. O plano mantém o encerramento das usinas a carvão até, no máximo, 2038 e prevê expansão das redes elétricas. Usinas a gás continuarão desempenhando papel de capacidade despachável durante a transição, mas deverão ser tecnicamente capazes de migrar para hidrogênio verde, permitindo que o parque de geração seja livre de combustíveis fósseis em 2045. O mecanismo de comércio de emissões da União Europeia também deverá reduzir progressivamente as permissões disponíveis para geração fóssil.
A eletrificação se estende aos demais setores. Em agosto de 2026, cerca de um terço dos novos automóveis registrados na Alemanha já era totalmente elétrico, enquanto bombas de calor e sistemas de aquecimento distrital avançam sobre o mercado anteriormente dominado por gás e óleo. Em 2025, pela primeira vez, foram vendidas mais bombas de calor do que sistemas de aquecimento a gás no país, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Na indústria, a estratégia combina eletrificação e modernização dos processos com incentivos aos investimentos de descarbonização, preços de carbono do EU ETS e mecanismos como o CBAM, o ajuste de carbono na fronteira da União Europeia.
Para a indústria de automação e energia, o aspecto mais relevante está justamente nessa mudança de infraestrutura: a substituição de moléculas fósseis por eletricidade exige redes, geração renovável, armazenamento, flexibilidade, controle de demanda, automação e processos industriais capazes de operar com diferentes vetores energéticos. O roteiro alemão prevê, por exemplo, que novas usinas a gás sejam preparadas para conversão a hidrogênio. Isso desloca a discussão da simples substituição de equipamentos para a arquitetura de sistemas energéticos capazes de operar durante décadas em uma matriz progressivamente eletrificada. A iniciativa também ganha dimensão internacional. O governo alemão apresentou o roteiro como contribuição a um movimento iniciado na COP28, em Dubai, quando os países concordaram em acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis. A própria Alemanha informa que participou, em abril de 2026, de uma conferência internacional em Santa Marta, na Colômbia, com 57 países discutindo mecanismos para a transição de carvão, petróleo e gás. O governo brasileiro, que presidiu a COP30, também deverá apresentar em outubro um roteiro internacional para a transição para longe dos combustíveis fósseis, segundo o Ministério alemão.

