Biometano avança no transporte pesado, mas expansão depende de infraestrutura, regulação e escala

O principal consenso do CIBiogás Conecta Transporte Pesado foi que a descarbonização do transporte rodoviário pesado deixou de ser apenas uma meta ambiental para se tornar uma estratégia industrial e energética. O evento aconteceu na sede do Grupo Ultra, em São Paulo, e reuniu representantes da cadeia produtiva do biometano, fabricantes de equipamentos, distribuidoras de gás, empresas de transporte, produtores de combustível renovável e especialistas para discutir o estágio atual da tecnologia, o ambiente regulatório e os desafios para transformar o biometano em um combustível competitivo para caminhões, ônibus e veículos de grande porte.

O momento é particularmente favorável para o setor já que, nos últimos anos, o Brasil passou a estruturar um conjunto de políticas públicas voltadas aos combustíveis de baixo carbono, enquanto a indústria ampliou significativamente os investimentos em plantas de produção de biometano, infraestrutura logística e desenvolvimento de veículos movidos a gás.

Durante a abertura do evento, o CIBiogás destacou que São Paulo deverá consolidar sua liderança nacional na produção de biometano. A projeção apresentada indica que a capacidade instalada pode chegar a 1 milhão de m3/d, sustentada principalmente pela expansão de projetos associados aos setores sucroenergético, de resíduos sólidos urbanos e de saneamento. A expectativa é de continuidade desse crescimento nos anos seguintes, acompanhando a entrada em operação de novas plantas e a ampliação da demanda industrial e veicular.

O cenário apresentado está alinhado ao Panorama do Biogás 2025, elaborado pelo próprio CIBiogás, segundo o qual São Paulo já responde pela maior produção nacional de biogás e concentra uma parcela crescente da produção de biometano, resultado da combinação entre elevada disponibilidade de resíduos, infraestrutura de distribuição de gás natural e forte presença da agroindústria.

Tecnologia já disponível

Uma das discussões do encontro mostrou que o gargalo para a expansão do biometano deixou de ser tecnológico; os fabricantes já oferecem caminhões, ônibus e motores dedicados ao gás natural e ao biometano com desempenho equivalente ao dos veículos movidos a diesel para diversas aplicações de transporte regional e urbano. Nos últimos anos, empresas como Scania, Iveco, Volvo, Cummins e FPT Industrial ampliaram seus portfólios de motores a gás para o segmento pesado, enquanto fornecedores de sistemas de abastecimento, compressores, estações de compressão e armazenamento desenvolveram soluções específicas para operações logísticas de alta demanda.

Outro aspecto destacado foi que o biometano pode ser utilizado sem alterações significativas na infraestrutura já existente para gás natural veicular (GNV), permitindo o aproveitamento de redes de distribuição, postos de abastecimento e equipamentos atualmente em operação. Essa característica reduz investimentos iniciais e acelera a adoção do combustível em frotas comerciais.

A CNT – Confederação Nacional dos Transportes é a favor da pluralidade de fontes energéticas e monitora a descarbonização dos transportes no país.

O transporte pesado é a principal fronteira de crescimento

Embora o biometano já seja empregado em aplicações industriais e na geração de energia elétrica, o transporte pesado passou a ser considerado o principal mercado de expansão, o ponto chave para alavancar o setor.

Caminhões, ônibus, veículos de coleta de resíduos e operações logísticas de longa distância continuam altamente dependentes do diesel, responsável por parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes então, a substituição gradual desse combustível por biometano oferece vantagens ambientais relevantes, reduzindo as emissões líquidas de carbono ao aproveitar resíduos agrícolas, urbanos e do saneamento para produzir um combustível renovável de alta qualidade.

Além da redução das emissões de CO₂, a utilização do biometano também contribui para diminuir material particulado, óxidos de enxofre e parte das emissões de óxidos de nitrogênio, melhorando a qualidade do ar em centros urbanos.

Ambiente regulatório evolui

Outro tema discutido foi o avanço do marco regulatório brasileiro para combustíveis renováveis. A aprovação da Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, estabeleceu diretrizes para ampliar a participação de combustíveis de baixa intensidade de carbono na matriz energética nacional, criando instrumentos que favorecem o crescimento do mercado de biometano.

A legislação reconhece o combustível como componente estratégico da transição energética brasileira e cria mecanismos para ampliar sua produção, comercialização e utilização em diferentes segmentos econômicos.

Paralelamente, estados como São Paulo vêm adotando medidas específicas para estimular novos investimentos. Entre elas está a chamada TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição) Verde – modelo regulatório instituído pela ARSESP que viabiliza a interconexão de plantas de biometano à rede de distribuição, que possui condições diferenciadas para conexão de plantas produtoras de biometano às redes de distribuição de gás canalizado.

Na avaliação dos participantes do evento, essas iniciativas representam um passo importante para reduzir barreiras econômicas e acelerar a integração entre produtores de biometano e concessionárias estaduais de gás.

Produção cresce, mas oferta ainda precisa acompanhar a demanda

Apesar do cenário otimista, os especialistas ressaltaram que a expansão do transporte pesado movido a biometano dependerá não apenas do crescimento da oferta do combustível, mas também de políticas públicas. Eles demonstraram que o apoio do Governos ao segmento foi fundamental tanto na Europa quanto nos EUA.

Segundo dados apresentados pelo CIBiogás, o Brasil possui mais de 1.800 plantas de biogás em operação. Entretanto, apenas parte dessa produção é convertida em biometano de padrão comercial. Até o início de 2026, 19 plantas estavam autorizadas a produzir biometano, enquanto outras 41 encontravam-se em processo de autorização, indicando um pipeline expressivo de novos empreendimentos.

O setor considera que a ampliação dessa capacidade será essencial para garantir abastecimento contínuo às futuras frotas de caminhões e ônibus movidos a gás renovável.

Infraestrutura permanece como principal desafio

Se a tecnologia está disponível e o ambiente regulatório evolui, a infraestrutura continua sendo um dos maiores obstáculos para a expansão do mercado.

A Compagás contou como vem aumentando seus corredores verdes, corroborando o fato de que o país ainda possui número reduzido de corredores de abastecimento para veículos pesados movidos a gás, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Além disso, muitos produtores de biometano encontram dificuldades para conectar suas plantas às redes de distribuição ou para estruturar contratos de longo prazo capazes de garantir segurança aos investimentos.

Outro desafio discutido envolve a logística de transporte do combustível em regiões onde ainda não existe gasoduto disponível, exigindo soluções baseadas em gás comprimido (CBG) ou gás liquefeito (LBG). Aqui, a Transjordano mostrou o trabalho que vem desenvolvendo na criação de um corredor verde na Rodovia Anhanguera, elaborado com investimentos do Fundo Clima do BNDES+Finame, através da Garagelog.

Economia circular fortalece competitividade

Além do aspecto energético, o evento reforçou o papel do biometano como vetor de economia circular.

Entra com peso aqui o setor sucroenergético, representado no evento pela Coperçúcar e pela Cocal.

Ao transformar resíduos da agroindústria, aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto em combustível renovável, o processo reduz emissões de metano, gera receita adicional para produtores rurais e operadores de resíduos, diminui impactos ambientais e amplia a segurança energética nacional.

Essa integração entre saneamento, agronegócio, indústria e transporte vem sendo apontada como uma das principais vantagens competitivas brasileiras na transição para uma economia de baixo carbono.

A inclusão do biogás/biometano e do biodiesel foi analisada na prática: o diesel, por exemplo, já reina no setor sucroenergético e é preciso otimizar a infraestrutura existente.

Perspectivas

A avaliação entre os participantes foi de que o mercado brasileiro de biometano entrou em uma nova fase de desenvolvimento. A combinação entre políticas públicas, aumento da produção, amadurecimento tecnológico e crescente interesse das empresas de transporte cria condições para uma expansão consistente ao longo da próxima década.

Ainda assim, o ritmo dessa transformação dependerá da capacidade de ampliar rapidamente a infraestrutura de abastecimento, acelerar o licenciamento de novas plantas, consolidar modelos de contratação de longo prazo e garantir estabilidade regulatória para investidores.

Se essas condições forem atendidas, o biometano poderá deixar de ocupar um nicho de mercado para tornar-se um dos principais combustíveis renováveis destinados ao transporte pesado brasileiro, contribuindo simultaneamente para a descarbonização da logística, o aproveitamento de resíduos e o fortalecimento da segurança energética do país.

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