Brasil no centro da discussão internacional sobre a automação aberta

A discussão sobre o futuro dos sistemas de controle distribuído ganhou um capítulo importante no Brasil com a realização, no Cenpes – Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello, no Rio de Janeiro, de reuniões de grupos de trabalho do Open Process Automation Forum (OPAF). O encontro foi uma atividade do ecossistema do The Open Group, organização responsável pelo desenvolvimento do padrão Open Process Automation – O-PAS e teve o caráter de reunião de trabalho do fórum.

A escolha do Cenpes é significativa porque a Petrobras vem acompanhando o desenvolvimento da automação aberta e possui, ao mesmo tempo, uma das maiores e mais complexas bases de sistemas de controle do setor de petróleo e gás. O interesse da Petrobras pelo O-PAS deve ser analisado dentro de uma transformação mais ampla da automação industrial.

O O-PAS parte da premissa de criar uma arquitetura na qual componentes de diferentes fornecedores possam interoperar por meio de interfaces e modelos padronizados, permitindo ao usuário maior liberdade para selecionar tecnologias ao longo do ciclo de vida de uma planta.

O encontro no CENPES também ganha importância pelo momento de maturidade do O-PAS; o padrão não é mais apenas uma proposta conceitual. O Open Process Automation Forum reúne operadores, fabricantes de automação, empresas de tecnologia e instituições de pesquisa em torno da definição de uma arquitetura aberta para automação de processos. A evolução do padrão vem sendo acompanhada por testes de interoperabilidade e iniciativas de demonstração, enquanto diferentes fornecedores trabalham na adequação de seus produtos às especificações do O-PAS. O desafio agora é transformar interoperabilidade demonstrada em capacidade industrial repetível e economicamente justificável.

Para a indústria brasileira, essa discussão pode ter consequências que ultrapassam o petróleo. Se uma arquitetura aberta se consolidar, empresas fornecedoras poderão competir não necessariamente pelo fornecimento de todo o sistema de controle, mas por componentes ou funções específicas da arquitetura. Isso pode abrir espaço para fornecedores de controladores, I/O, software, instrumentação, segurança, comunicação e aplicações digitais, desde que consigam atender aos requisitos de interoperabilidade, desempenho e segurança estabelecidos pelo padrão.

O impacto potencial é especialmente interessante para setores como o sucroenergético, mineração, química, papel e celulose e novas instalações de energia. Plantas de biometano, hidrogênio, combustíveis sustentáveis e outras tecnologias associadas à transição energética, por exemplo, estão sendo projetadas em um momento no qual arquiteturas digitais abertas já fazem parte da discussão de engenharia. Em projetos greenfield, nos quais não existe uma grande base instalada de DCS proprietários a ser preservada, a adoção de uma arquitetura multivendor pode ser mais simples de avaliar. A resposta interessa a todo o mercado de automação. Se o O-PAS conseguir demonstrar, em ambientes industriais críticos, que diferentes fornecedores podem entregar componentes interoperáveis sem sacrificar segurança, disponibilidade e desempenho, a mudança poderá ser estrutural: o DCS não necessariamente desaparecerá, mas deixará de ser o centro obrigatório da arquitetura. O controle poderá migrar progressivamente para uma infraestrutura computacional distribuída, baseada em software, padrões abertos e componentes de diferentes fornecedores. E é nesse ponto que a discussão sobre o O-PAS deixa de ser apenas sobre automação e passa a ser uma disputa sobre quem controlará a planta industrial das próximas décadas.

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