China amplia mercado de carbono e transforma preço das emissões em sinal para a indústria

Cinco anos após o início das operações, o mercado nacional de carbono da China entra em uma nova fase, marcada pela expansão setorial e pelo uso mais explícito da precificação das emissões como instrumento de política industrial. O sistema, lançado em julho de 2021 inicialmente para empresas de geração termelétrica, tornou-se o maior mercado de carbono do mundo em volume de emissões abrangidas. Em junho de 2026, o volume acumulado de permissões negociadas havia ultrapassado 917 milhões de toneladas, com valor total superior a 61,7 bilhões de yuans. Somente no primeiro semestre de 2026 foram negociados 52,96 milhões de toneladas, alta de aproximadamente 37% sobre o mesmo período do ano anterior.

O balanço apresentado pelo Ministério da Ecologia e Meio Ambiente chinês coloca a geração termelétrica no centro dos resultados obtidos durante o 14º Plano Quinquenal (2021–2025). Segundo Lu Shize, vice-diretor do Departamento de Mudanças Climáticas do Ministério, o setor teria alcançado 530 milhões de toneladas de redução de emissões de carbono por meio do mercado, enquanto aproximadamente 80% das empresas reduziram sua intensidade de emissões. Nos últimos três anos, mais de 200 pequenas unidades termelétricas consideradas obsoletas foram desativadas.

A política também passou a induzir novos projetos de baixo carbono. Entre as iniciativas citadas pelo governo estão projetos de energia solar concentrada e produção de hidrogênio verde, mostrando que o mecanismo de carbono começa a ser articulado não apenas à redução das emissões de ativos existentes, mas também à substituição tecnológica e à formação de novas cadeias industriais. De acordo com os dados oficiais apresentados no aniversário de cinco anos, a redução de carbono foi acompanhada por reduções estimadas de 27 mil toneladas de dióxido de enxofre, 94 mil toneladas de óxidos de nitrogênio e 135 mil toneladas de fumaça e poeira.

A expansão do mercado é outro indicador da mudança estrutural. O sistema passou das 2.162 empresas de geração termelétrica originalmente incluídas para 3.378 empresas, incorporando setores intensivos em energia como siderurgia, cimento e alumínio eletrolítico. A cobertura atual corresponde a mais de 65% das emissões nacionais de CO₂.

Para a próxima etapa, Pequim pretende ampliar ainda mais a abrangência. Lu Shize afirmou que, até 2027, os principais setores industriais emissores deverão estar integralmente cobertos pelo mercado. A intenção é fazer com que o preço do carbono represente de forma mais efetiva o custo da redução das emissões e funcione como sinal econômico para as empresas: atividades com maiores emissões terão custos maiores, enquanto investimentos em tecnologias de baixo carbono deverão gerar retornos.

A meta está diretamente relacionada ao 15º Plano Quinquenal (2026–2030). O governo pretende utilizar o mecanismo de mercado para contribuir para uma redução de aproximadamente 3% na intensidade de emissões de carbono por unidade de produto nos setores abrangidos durante o período. A estratégia também prevê acelerar a expansão do mercado nacional e avançar simultaneamente no controle de quantidade e intensidade das emissões.

A entrada da siderurgia, do cimento e do alumínio é particularmente importante porque desloca o mercado de carbono para setores nos quais a descarbonização é tecnicamente mais complexa e intensiva em capital. O mercado deixa, assim, de ser apenas um mecanismo associado à eficiência da geração elétrica e passa a afetar decisões sobre processos industriais, modernização de equipamentos, fontes de energia e investimentos em tecnologias de menor intensidade de carbono.

Os dados de 2026 também mostram que o sistema está adquirindo maior liquidez e relevância econômica. Um balanço divulgado pela autoridade ambiental de Xangai registrou que, até 14 de julho, o mercado já havia alcançado 924 milhões de toneladas negociadas e mais de 622 bilhões de yuans em valor acumulado. A mesma análise destaca a expansão setorial, a evolução do preço do carbono e a perspectiva de maior participação de instituições financeiras.

O movimento indica uma mudança importante na função do mercado de carbono chinês. Na primeira fase, o desafio principal era criar infraestrutura de medição, registro, alocação e negociação das permissões. Na segunda, o objetivo passa a ser utilizar o preço do carbono como variável econômica capaz de alterar o comportamento das empresas e direcionar investimentos.

Para setores como energia, petróleo, gás, petroquímica, mineração, metais e materiais, essa evolução merece atenção porque transforma a intensidade de carbono em uma variável potencialmente associada à competitividade. Quanto maior a abrangência do sistema e mais efetiva sua precificação, maior tende a ser o impacto sobre o custo relativo de tecnologias, combustíveis e processos industriais.

A experiência chinesa também evidencia uma diferença em relação a mercados de carbono ainda predominantemente ambientais: Pequim está utilizando a precificação das emissões como mecanismo de transformação industrial. A combinação entre fechamento de ativos ineficientes, redução da intensidade de carbono, expansão das renováveis, hidrogênio verde e entrada de setores industriais intensivos em energia coloca o mercado de carbono no centro da estratégia chinesa para o novo ciclo de desenvolvimento.

O próximo teste será justamente transformar a expansão quantitativa em sinal econômico suficientemente forte para alterar decisões de investimento. A meta anunciada para 2027 – cobertura dos principais setores emissores – é, nesse sentido, mais do que uma ampliação administrativa. É a tentativa de fazer com que o carbono passe a ter preço, custo e consequência competitiva em uma parcela cada vez maior da economia chinesa.

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