A China colocou em operação, em maio de 2026, o Shanghai Lingang Undersea Data Center Demonstration Project, considerado o primeiro centro de dados submarino do mundo alimentado diretamente por energia eólica offshore.
Instalado a aproximadamente 10 km da costa de Shanghai, na Zona Especial de Lingang, o empreendimento representa uma convergência entre infraestrutura digital, energia renovável e engenharia oceânica, áreas consideradas estratégicas para a próxima fase da economia da IA.

Servidores no fundo do mar
O projeto foi desenvolvido pela HiCloud Technology, especializada em infraestrutura submarina de alta precisão, em parceria com uma subsidiária da estatal China Communications Construction Company (CCCC). As operações comerciais começaram após testes iniciados no primeiro trimestre do ano.
Os módulos do data center estão posicionados a cerca de 10 metros de profundidade e conectados diretamente a um parque eólico marítimo. A primeira fase opera com potência de 2,3 MW, mas o projeto prevê expansão para 24 MW, capacidade equivalente ao consumo elétrico de aproximadamente 20 mil residências chinesas. O investimento total é estimado em 1,6 bilhão de yuans (cerca de US$ 226 milhões).
Segundo autoridades de Shanghai, o empreendimento integra uma estratégia mais ampla para criar infraestrutura computacional de baixo carbono capaz de sustentar aplicações intensivas em IA, grandes modelos de linguagem (LLMs), serviços de telecomunicações e processamento de dados.
Energia eólica e resfriamento natural
O principal diferencial do centro de dados é a combinação entre geração renovável e refrigeração natural. Os módulos submarinos utilizam a água do mar como dissipador térmico, reduzindo drasticamente a necessidade de sistemas convencionais de ar-condicionado, responsáveis por parcela significativa do consumo energético dos data centers terrestres.
Segundo dados divulgados pelos desenvolvedores, a solução proporciona redução de 22,8% no consumo de eletricidade em comparação com instalações convencionais; eliminação praticamente total do uso de água doce para refrigeração; redução superior a 90% da ocupação de áreas em terra; índice PUE (Power Usage Effectiveness) próximo de 1,15, considerado um dos melhores da indústria.
O fornecimento de energia é realizado diretamente por turbinas eólicas offshore, por meio de cabos submarinos compostos que integram transmissão elétrica e comunicação de dados. A configuração permite que a maior parte da demanda energética seja atendida por eletricidade renovável.
Para os planejadores chineses, a integração entre energia limpa e capacidade computacional pode se transformar em uma vantagem competitiva estratégica. A ideia é aproximar fisicamente geração renovável e processamento de dados, reduzindo perdas e criando novos modelos de infraestrutura digital.
Da experiência da Microsoft à escala industrial chinesa
A ideia de centros de dados submarinos não é nova. A Microsoft havia realizado experimentos semelhantes com o projeto Natick, na Escócia, demonstrando vantagens em confiabilidade e eficiência térmica. Contudo, a iniciativa permaneceu em escala experimental.
A diferença é que a China conseguiu transformar o conceito em um empreendimento comercial integrado à sua política industrial e energética. O projeto de Lingang combina apoio governamental, capacidade de engenharia offshore e expansão acelerada da energia eólica marítima.
Plataforma para IA chinesa
Os módulos submarinos já hospedam clusters computacionais utilizados em tarefas de anotação de dados, treinamento de modelos de linguagem e aplicações de telecomunicações. Empresas como China Telecom participam da operação, juntamente com provedores locais de serviços computacionais.
A expectativa é que futuras expansões permitam maior integração entre centros de dados terrestres e marítimos, criando uma arquitetura distribuída de processamento.
Implicações para o Brasil
Embora ainda distante da realidade brasileira, o projeto chinês aponta caminhos relevantes para o país. O Brasil possui alguns dos maiores potenciais de energia eólica offshore do mundo, especialmente nas regiões Nordeste e Sudeste. Caso os projetos eólicos marítimos avancem nos próximos anos, poderá surgir uma oportunidade para integrar geração renovável, hidrogênio de baixo carbono e infraestrutura digital de alta densidade energética.
Além disso, o crescimento da inteligência artificial deverá aumentar significativamente a demanda por data centers no país. Soluções de resfriamento mais eficientes, utilização de fontes renováveis e novas arquiteturas computacionais tendem a ganhar importância na agenda energética brasileira.
A experiência de Shanghai sugere que a próxima geração da infraestrutura digital poderá ser construída não apenas em terra, mas também em estreita conexão com os recursos energéticos offshore, transformando o oceano em uma extensão da economia da inteligência artificial.

