Cibersegurança OT: pesquisa expõe distância entre maturidade percebida e resiliência operacional

A cibersegurança industrial enfrenta um paradoxo: as organizações consideram seus programas de proteção de tecnologia operacional (OT) cada vez mais maduros, mas ainda apresentam lacunas importantes na identificação dos ativos, na integração dos ambientes operacionais aos centros de segurança e na capacidade de monitorar continuamente sistemas conectados. Essa é uma das principais conclusões do 2026 Operational Technology (OT) Cybersecurity Benchmark Report, da Honeywell Technologies, baseado nas respostas de mais de 600 líderes de cibersegurança, risco, compliance e operações de setores de infraestrutura crítica nas Américas, Europa, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico.

O dado mais expressivo é a diferença entre percepção e visibilidade: 88% dos entrevistados classificam seus programas de cibersegurança OT como maduros, mas apenas 21% afirmam possuir um inventário completo dos ativos OT. A visibilidade também é limitada na integração com as operações de segurança: somente 33% dizem ter integrado completamente OT a um Security Operations Center (SOC) centralizado e apenas 20% monitoram continuamente dispositivos IoT conectados, como câmeras e sensores. Em ambientes industriais, essa lacuna é relevante porque equipamentos que não fazem parte da arquitetura tradicional de controle também podem afetar disponibilidade, segurança física, continuidade operacional e processos produtivos.

O impacto deixa de ser exclusivamente digital quando ocorre um incidente. Segundo o levantamento, os incidentes cibernéticos mais significativos provocaram, em média, 16,2 horas de indisponibilidade, enquanto as perdas chegaram a US$ 500 mil por hora em alguns casos. A pesquisa também relaciona maior visibilidade dos ativos a melhores condições de identificação de ameaças, resposta e recuperação. Uma análise posterior da ARC Advisory Group, baseada nos dados do estudo, aponta que organizações com maior visibilidade apresentam maior probabilidade de limitar o downtime e identificar as causas dos incidentes.

A exposição varia entre os segmentos de infraestrutura crítica. 91% dos respondentes de energia e utilities afirmaram ter sofrido um incidente significativo de cibersegurança OT nos 12 meses anteriores à pesquisa; no setor marítimo, o índice chegou a 87%. Em petróleo e gás, 54% relataram um incidente significativo no período. Nesse último segmento, 28% dos afetados disseram que o impacto alcançou múltiplas regiões, enquanto apenas 52% consideram que conseguiriam restaurar sistemas OT críticos em até 24 horas.

O relatório também desloca a discussão de cibersegurança para a arquitetura mais ampla dos sistemas ciberfísicos. Infraestruturas legadas continuam sendo um dos principais obstáculos à evolução da proteção, já que controladores, equipamentos de campo, sistemas de automação e outros ativos podem permanecer em operação durante décadas e não foram originalmente projetados para ambientes conectados. Nesse cenário, substituir todo o parque instalado nem sempre é tecnicamente ou economicamente viável. Segmentação de redes, monitoramento passivo, controles compensatórios, gestão de vulnerabilidades e planos de recuperação passam a ser componentes importantes de uma estratégia de redução de risco.

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema. 99% dos entrevistados esperam que a IA afete a segurança OT nos próximos dois a três anos, enquanto 72% já utilizam recursos de IA para detecção de ameaças, 68% para monitoramento contínuo e 59% para inventário de ativos. Entretanto, a autonomia permanece limitada: somente 23% relatam utilização de operação autônoma ou agentic para detecção de ameaças. O cenário indica que a IA está avançando primeiro como ferramenta de análise, correlação e apoio à decisão, enquanto a transferência de autoridade para sistemas autônomos ainda ocorre de maneira mais restrita.

Para OT, essa distinção é fundamental. Em TI, a indisponibilidade de um sistema pode representar perda de dados ou interrupção de um serviço; em ambientes industriais, uma ação cibernética pode interferir diretamente em processos físicos, produção, segurança operacional, qualidade, equipamentos e meio ambiente. Por isso, ampliar a visibilidade não significa simplesmente adicionar mais sensores ou ferramentas de segurança: significa conhecer os ativos, suas conexões, dependências, criticidade, protocolos, versões de software e possíveis consequências de uma alteração ou indisponibilidade.

O estudo reforça, portanto, uma mudança de perspectiva: cibersegurança OT não deve ser tratada apenas como proteção da rede de controle, nem como exercício de compliance. A superfície de risco inclui sistemas de automação predial, dispositivos IoT, sistemas de segurança física, infraestrutura de comunicação e outros elementos conectados ao ambiente operacional. A própria Honeywell estrutura sua oferta de OT cybersecurity em torno de inventário de ativos, monitoramento de redes, detecção de ameaças, resposta a incidentes e serviços especializados, incluindo avaliações relacionadas à IEC 62443.

A mensagem técnica do benchmark é direta: não é possível proteger, priorizar ou recuperar adequadamente aquilo que a organização não consegue identificar e monitorar. À medida que instalações industriais avançam para arquiteturas mais conectadas, IIoT, computação de borda, análise baseada em IA e operações cada vez mais autônomas, a visibilidade da infraestrutura OT deixa de ser apenas uma função de segurança e passa a integrar a própria estratégia de continuidade operacional.

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