O CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável realizou, no Rio de Janeiro, o Congresso Sustentável, o principal encontro do setor empresarial antes da COP31. Com o tema “O novo jogo da competitividade global”, o evento reuniu lideranças nacionais e internacionais para discutir os impactos das transformações climáticas e geopolíticas sobre a economia, os negócios e as estratégias de desenvolvimento do Brasil.
A programação contou com algumas das principais referências internacionais em clima e economia, como o ex-presidente do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido, Lord Deben; o CEO do GHG Protocol, Tim Mohin; o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo; e o economista e imortal da Academia Brasileira de Letras, Eduardo Giannetti. Também participaram o embaixador e presidente da COP30, André Corrêa do Lago; a CEO da COP30, Ana Toni; a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira; e a presidente do CEBDS e Enviada Especial do Setor Empresarial para a COP30, Marina Grossi.
Entre os principais temas discutidos estiveram a relação entre geopolítica e clima, a preservação dos rios voadores e o fortalecimento da resiliência hídrica, o papel da confiança como ativo estratégico para as empresas, as mudanças no GHG Protocol e soluções para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. Um dos destaques da programação foi o painel sobre a Carta aos Presidenciáveis, documento organizado pelo CEBDS com o objetivo de propor uma agenda de longo prazo para o Brasil e apontar políticas públicas capazes de transformar a sustentabilidade em vetor de competitividade, atração de investimentos e desenvolvimento econômico.
Principais reflexões apresentadas no Congresso Sustentável

“No setor privado, a gente tem a visão de longo prazo que o Brasil precisa, porque o setor privado precisa investir para 30, 40 anos. Não é só exportar commodities, mas também os nossos minerais críticos, os nossos minerais que têm valor, seja por crédito de carbono, por pagamento de serviços ambientais, em milhares de formas. A gente está precificando o ativo que a gente tem, mas precisa passar da nossa vantagem comparativa para a competitiva. Isso exige tecnologia e investimentos, e é por isso que estamos com uma série de projetos conversando com investidores, porque precisamos dar escala a esses investimentos,” afirmou Marina Grossi, presidente do CEBDS.
Lord Deben, ex-presidente do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido, disse que “O mundo é inteiramente incerto. Você não tem absolutamente nenhuma ideia do que vai acontecer e, portanto, deve sempre procurar as certezas. Porque, se você acertar as certezas, estará forte o suficiente para lidar com as incertezas. E uma certeza é a mudança climática. Não é algo que vai desaparecer. Se você não construir seu negócio em torno dessas certezas, isso, sem dúvida, vai comprometer o seu futuro.” Para ele, “O papel dos negócios é avançar o tempo todo, à frente da curva, mas sendo lucrativos. Eu acredito fundamentalmente no lucro. Se você não tem lucro, não estará aqui amanhã. E, se não estiver aqui amanhã, não poderá continuar desempenhando o papel tão importante que as melhores empresas desempenham nessa batalha contra a mudança climática. Portanto, não vamos rir do lucro. O lucro é crucial.”


“Padrões não devem significar mais burocracia. Eles devem facilitar e acelerar a descarbonização. Formamos uma parceria com a International Organization for Standardization (ISO) e, apenas três semanas atrás, anunciamos que todos os nossos padrões de inventários corporativos — Escopo 1, Escopo 2, Escopo 3, medidas e instrumentos alternativos, ações e instrumentos baseados no mercado — serão combinados em um único padrão. Esse padrão, então, será integrado à norma ISO 14064-1. Tudo isso vai criar uma única linguagem global comum para inventários de carbono em todo o mundo,” postula Tim Mohin, CEO do GHG Protocol, para quem “É preciso entender por que essa transição da divulgação voluntária para a obrigatória [de emissões de carbono] está acontecendo. E isso realmente se resume, mais uma vez, a uma palavra: investidores. Os investidores querem essas informações. Por que querem informações sobre clima? Porque a mudança climática é real. Nós a vemos todos os dias. Vemos os riscos, vemos os custos, mas também vemos as oportunidades. E, assim como qualquer risco material ou qualquer oportunidade material, isso precisa ser divulgado nas informações financeiras de uma empresa.”

“Na COP30, conseguimos deixar muito claro que as regras estritas foram criadas para a negociação, mas não necessariamente para a implementação. A Agenda de Ação trata justamente da implementação do que já foi negociado. Se uma decisão já foi tomada e existe um mandato, é possível implementá-la da maneira viável. Nesse processo, entram novos grupos e coalizões capazes de dar mais dinamismo à ação climática. Um exemplo é o TFFF, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil,” afirmou André Corrêa do Lago, presidente da COP30
Durante as discussões, ainda foram destaque as falas de:
Eduardo Giannetti, economista e imortal da Academia Brasileira de Letras, para quem a “A polarização política em que nós entramos desvia a atenção da sociedade, do debate público, das nossas reais questões e ambições e transforma o espaço público num ambiente muito carregado e de diálogo interditado. A nossa polarização política até agora não conseguiu construir um ambiente menos tóxico para a gente pensar questões do longo prazo brasileiro.”
Roberto Azevêdo, diplomata de carreira e ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), disse que “O mercado interno e a decisão não podem ser tomados olhando apenas para o Brasil. Tem que pensar no mercado global. Tudo que tem a ver com o clima precisa de soluções globais. O empresariado brasileiro, o próprio agronegócio, por exemplo, que está muito no centro da discussão climática, tem que pensar no mercado global, tem que pensar que os padrões internacionais vão se aplicar. O acesso ao mercado vai passar pela agenda climática também.”
Solange Ribeiro, vice-presidente da Neoenergia frisou que “A geopolítica deixou de ser apenas uma agenda política e passou a fazer parte da agenda empresarial: onde investir, como produzir, de quem comprar, como organizar a cadeia de suprimentos e de que maneira trabalhar com as inovações tecnológicas. A mudança climática transformou ainda mais a nossa forma de avaliar os investimentos.”
Carta aos Presidenciáveis
Durante o Congresso Sustentável, o CEBDS também apresentou a Carta aos Presidenciáveis, que reúne propostas do setor empresarial para fortalecer a competitividade brasileira por meio do desenvolvimento sustentável. Para Marina Grossi, a construção de uma agenda de longo prazo exige maior articulação entre governo e setor privado:“Para que essa nossa agenda vire uma agenda de Estado, a gente tem que ter uma governança melhor, onde o setor privado seja convidado, não só na hora da implementação e da execução, mas para construir. A Carta não termina quando é entregue aos candidatos. Ela continua dentro da instituição, e o nosso papel é fazer essa articulação para a implementação concreta. Isso envolve mostrar as vantagens das propostas, trabalhar com métricas e metodologias e colocar à disposição estudos e instrumentos que contribuam para que essa agenda avance.”

