O Seminário LIDE Energia 2026, realizado na Casa LIDE, em São Paulo, revelou um setor energético atravessado simultaneamente por transição climática, reorganização geopolítica, insegurança regulatória e pressões crescentes por competitividade industrial. O evento mostrou um debate muito mais profundo do que uma simples defesa da transição energética: os participantes trataram energia como eixo central de soberania econômica, segurança nacional, estabilidade institucional e disputa geopolítica global. Ao longo dos painéis houve uma convergência para a avaliação de que o Brasil vive uma rara janela estratégica para se consolidar como potência energética integrada, combinando petróleo, gás natural, renováveis, bioenergia e minerais críticos.

O professor e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, David Zylbersztajn, resumiu uma das principais mudanças estruturais do mercado internacional de energia desde a guerra da Ucrânia: a substituição da centralidade exclusiva da agenda climática por uma visão integrada entre segurança energética e descarbonização. Segundo ele, “até a invasão da Ucrânia se falava essencialmente na questão da descarbonização para redução das emissões. E aí o conceito de segurança energética entrou com muita força”. Para Zylbersztajn, essa transformação ampliou a relevância geopolítica brasileira, porque o país reúne simultaneamente recursos fósseis competitivos e matriz renovável de baixa emissão. Em uma das falas mais estratégicas do seminário,
Zylbersztajn afirmou que “o mundo não vai escolher entre segurança energética e transição energética. E o Brasil tem as duas simultaneamente”.
Ele argumentou ainda que a verdadeira riqueza do petróleo não está apenas no recurso natural, mas na capacidade industrial e tecnológica associada à transformação desses ativos em desenvolvimento econômico de longo prazo: “O desafio maior do Brasil é transformar esses recursos naturais (…) em alguma coisa nova, limpa e para um processo perene”. Zylbersztajn destacou que o país já se tornou referência internacional na capacidade de integrar produção energética, inteligência industrial e descarbonização. “O Brasil é uma referência no mundo em relação a isso em termos de inteligência, indústria e futuro”, afirmou.

A vice-presidente de Exploração e Produção Internacional da Equinor Brasil, Leticia Andrade, apresentou um dos discursos mais densos do encontro ao associar investimento energético diretamente à estabilidade institucional. A executiva revelou que a companhia norueguesa terá investido US$ 25 bilhões no Brasil entre 2009 e 2030, média superior a US$ 1 bilhão anual. Segundo ela, o Brasil deixou de ser apenas um mercado e passou a ocupar posição estratégica global dentro do portfólio da Equinor. “Praticamente todo o portfólio que define o futuro da Equinor está presente no país”, afirmou.
A executiva destacou que o Brasil concentra ativos considerados centrais para a nova economia energética internacional: petróleo competitivo, gás natural, energia solar, eólica offshore e projetos híbridos. Ela lembrou que o país sediou iniciativas pioneiras da companhia, incluindo o primeiro campo operado fora da Noruega, o primeiro projeto solar da Equinor e o primeiro projeto híbrido solar-eólico da empresa.

Mas foi ao abordar o ambiente regulatório que Leticia Andrade fez um dos alertas mais contundentes do seminário. Segundo ela, “segurança energética voltou ao centro das decisões globais” após pandemia, guerra da Ucrânia e tensões no Oriente Médio. Nesse novo cenário, afirmou, investidores passaram a priorizar jurisdições consideradas confiáveis. “Poucos países reúnem petróleo competitivo, matriz energética renovável e potencial de baixo carbono como o Brasil”, declarou.
Entretanto, a executiva ressaltou que segurança energética não significa apenas ausência de conflitos militares, mas previsibilidade institucional. “Projetos de óleo e gás envolvem bilhões de dólares e décadas, não se redesenham no meio do caminho”, afirmou. Em uma frase que sintetizou a preocupação dos investidores internacionais, Leticia declarou: “Quando levamos um projeto para o nosso comitê executivo, a pergunta é sempre a mesma: por que o Brasil?” Segundo ela, a resposta depende diretamente da confiança na estabilidade regulatória brasileira. “O investimento de longo prazo exige previsibilidade, diálogo e transição adequada.”
A executiva foi enfática ao afirmar que investidores conseguem administrar complexidade técnica, mas não rupturas institucionais. “O investidor consegue lidar com complexidade. O que a gente não consegue administrar é ruptura.” Leticia Andrade defendeu ainda maior previsibilidade nos leilões da ANP e alertou que a janela estratégica brasileira não permanecerá aberta indefinidamente. “Outros países também estão se movendo rapidamente”, afirmou.
Emerson Kapaz, CEO do Instituto Combustível Legal (ICL), deslocou o debate energético para uma dimensão raramente abordada em fóruns empresariais: o avanço do crime organizado sobre o setor de combustíveis. O executivo afirmou que o país deixou de enfrentar apenas sonegação fiscal e passou a conviver com uma verdadeira “economia do crime”.
Segundo Kapaz, organizações criminosas hoje operam de forma estruturada em múltiplas cadeias produtivas, utilizando combustíveis, adulteração e evasão tributária como instrumentos de financiamento ilegal. “Hoje eu não falo mais em crime organizado, eu falo em economia do crime”, declarou. O executivo associou diretamente segurança pública, geopolítica e sustentabilidade corporativa, propondo um conceito de “ESG 2.0”, definido por ele como “economia, segurança e geopolítica”.
Kapaz criticou duramente o enfraquecimento institucional da ANP e afirmou que a agência opera hoje com apenas 20% do orçamento disponível cinco anos atrás. “Como é que você quer uma agência forte que controle um mercado importantíssimo como o mercado de combustíveis dando a ela 20% do orçamento de cinco anos atrás?”, questionou. O executivo ressaltou ainda a insuficiência estrutural de fiscalização diante de um mercado com mais de 43 mil postos de combustíveis espalhados pelo país.
O dirigente do ICL também detalhou a articulação política que levou à aprovação da lei do devedor contumaz após oito anos de tramitação no Congresso. Segundo ele, a nova legislação passou a diferenciar empresas eventualmente inadimplentes de estruturas empresariais criadas especificamente para sonegar impostos e financiar concorrência desleal. “Não dá para competir com alguém que sonega 30%, 20%, 25%”, afirmou.
Kapaz citou ainda operações envolvendo refinarias ligadas ao crime organizado, delações, esquemas de corrupção em secretarias estaduais de Fazenda e atuação de milícias no mercado de combustíveis. Em uma das passagens mais impactantes do evento, afirmou: “Tem que valer a pena ser sério no Brasil”. Segundo ele, a concorrência legítima é saudável, mas o mercado formal não consegue competir com estruturas organizadas de sonegação e adulteração. “Eu não consigo enfrentar o sonegador e o adulterador. Esse não dá.”

O CEO do IBP Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, Roberto Ardenghy, trouxe uma leitura geopolítica ampla da reorganização energética mundial afirmando que o setor vive uma “gangorra” geopolítica permanente, marcada por oscilações provocadas por conflitos envolvendo Irã, Rússia, Oriente Médio e Estados Unidos.
O executivo rebateu visões que preveem rápida substituição dos combustíveis fósseis e destacou que petróleo, gás e carvão ainda respondem por cerca de 80% da energia primária mundial. Segundo ele, a transição energética será “longa, penosa e dolorosa”. Ardenghy argumentou que renováveis ainda possuem participação relativamente pequena na oferta energética global quando comparadas ao sistema fóssil existente.
Ao mesmo tempo, o dirigente do IBP defendeu a descarbonização da própria indústria petrolífera, afirmando que o Brasil possui condições de produzir petróleo com baixíssima intensidade de carbono. A fala reforçou um dos consensos predominantes no seminário: a ideia de que o Brasil pode ocupar posição singular na economia global ao combinar produção fóssil competitiva com baixa intensidade de emissões e expansão acelerada das renováveis.
O Diretor-Geral Artur Watt representou a ANP no Seminário no painel “Indústria brasileira de petróleo e gás: novos mercados, fronteiras exploratórias e tecnológicas”. Ele citou o PL 109 de 2025, já aprovado na Câmara, que poderá tornar permanente o acesso da ANP a operações de compra e venda de derivados de petróleo. “Vai representar uma verdadeira revolução, vamos poder fiscalizar em tempo real o setor de combustíveis”. Watt também falou sobre o PL 399 de 2025, que traz inovações para a fiscalização do mercado pela ANP. Como exemplo, mencionou a atualização das multas previstas em lei relativas a irregularidades no segmento de combustíveis, cujos valores estão congelados há 27 anos.
Arthur Watt destacou que o hidrogênio verde começa a ganhar tração comercial em nichos específicos de transporte pesado, especialmente em regiões de grande dependência logística e elevada intensidade de consumo de diesel. Segundo ele, a empresa vem desenvolvendo projetos voltados à substituição do diesel por hidrogênio em hidrovias amazônicas e sistemas ferroviários. “Temos um braço efetivo de mobilidade (…) com substituição do diesel por hidrogênio nas barcaças, um projeto pioneiro que nós temos (…) uma alternativa extremamente valorosa, inovadora num eixo amazônico.”
O executivo afirmou que a estratégia da companhia está baseada em plantas modulares e descentralizadas de produção energética, buscando reduzir custos e aumentar viabilidade econômica. “A gente tem uma engenharia de fazer as plantas pequenas, múltiplas, modulares, com custo atrativo para que o valor final não seja desequilibrante.” Arthur Watt reconheceu, entretanto, que a expansão do hidrogênio verde ainda enfrenta obstáculos econômicos relevantes, especialmente pela dificuldade de internalizar o chamado “prêmio verde” no mercado. “Prêmio verde não é fácil de se emplacar”, declarou.
Watt enfatizou que sustentabilidade sem rentabilidade econômica tende a não se consolidar em larga escala. “Sustentabilidade sem viabilidade econômica, financeira, ela não propaga”, afirmou. Segundo ele, o grande desafio da nova economia energética consiste em desenvolver soluções ambientalmente sustentáveis sem provocar desequilíbrio econômico para consumidores e cadeias industriais. O executivo também destacou iniciativas envolvendo aproveitamento energético de resíduos e destruição molecular de lixo para produção simultânea de energia e fertilizantes, reforçando a convergência crescente entre economia circular, hidrogênio e descarbonização industrial.
O diretor-geral da Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica, Sandoval Feitosa, enfatizou que o setor elétrico mundial atravessa uma transformação estrutural sem precedentes, impulsionada simultaneamente por digitalização, descarbonização e mudanças geopolíticas. Segundo Feitosa, a competição internacional deixou de se concentrar apenas na geração de energia limpa e passou a envolver capacidade institucional, previsibilidade regulatória e estabilidade econômica. Durante sua apresentação, o executivo afirmou que “o principal desafio do Brasil é transformar vantagem natural em prosperidade econômica”. Para ele, a abundância de recursos energéticos brasileiros não garante automaticamente competitividade internacional; será necessário ampliar segurança jurídica, estabilidade regulatória e coordenação entre governo e setor privado. Feitosa também ressaltou que a eletrificação crescente da economia exigirá modernização acelerada das redes elétricas, expansão da infraestrutura de transmissão e incorporação intensiva de tecnologias digitais para gerenciamento do sistema elétrico nacional. No evento, a Aneel – formalizou ainda um memorando de entendimento com a International Finance Corporation (IFC), braço do Banco Mundial voltado ao financiamento privado, ampliando cooperação internacional para modernização regulatória do setor elétrico brasileiro.
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira apresentou uma das leituras mais geopolíticas do encontro ao defender que a agenda climática global deixou de ser apenas ambiental e passou a integrar a disputa internacional por competitividade econômica, recursos naturais e liderança industrial. Segundo Izabella, o Brasil possui uma combinação rara de biodiversidade, potencial energético renovável, reservas minerais estratégicas e capacidade agroindustrial capaz de colocá-lo no centro da nova economia de baixo carbono. A ex-ministra argumentou que a indústria de petróleo pode funcionar como financiadora da própria transição energética brasileira, desde que os recursos gerados pela exploração fóssil sejam direcionados para inovação tecnológica, infraestrutura sustentável e desenvolvimento industrial de baixo carbono. Ela também criticou a crescente politização do licenciamento ambiental e defendeu maior racionalidade técnica nos processos regulatórios. Em sua avaliação, a discussão internacional sobre transição energética frequentemente ignora as diferenças estruturais entre países desenvolvidos e economias emergentes produtoras de recursos naturais, criando riscos de desindustrialização e perda de competitividade para países como o Brasil.
O presidente da Shell Energy Brasil, Rodrigo Soares, concentrou sua apresentação na mudança estrutural do papel do gás natural dentro do sistema elétrico brasileiro. Segundo ele, o avanço acelerado das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, vem alterando profundamente a função das termelétricas no país. Soares afirmou que as usinas térmicas deixam de atuar apenas como geradoras contínuas de energia e passam a operar como elemento de estabilidade e respaldo operacional do sistema elétrico. “O gás natural tende a ser o combustível perfeito para sustentar a transição energética”, declarou. Para o executivo, a combinação entre renováveis e geração térmica flexível será decisiva para garantir segurança energética em um cenário de crescente eletrificação da economia. Ele ressaltou ainda que o Brasil possui condições privilegiadas para integrar produção de gás natural, expansão renovável e desenvolvimento de novas rotas de descarbonização industrial.
O ex-secretário executivo do Ministério de Minas e Energia e ex-diretor de Transição Energética da Petrobras, Maurício Tolmasquim, apresentou uma análise estruturada do painel ao defender que o Brasil precisa combinar expansão da produção de petróleo com aceleração agressiva da eletrificação e das cadeias industriais de baixo carbono. Segundo Tolmasquim, a transição energética global não elimina a relevância econômica do petróleo brasileiro no curto e médio prazo, mas exige simultaneamente investimentos pesados na infraestrutura elétrica nacional. “A gente tem que investir pesado na eletricidade, nessa cadeia de valor da eletricidade”, afirmou. Ele destacou que o país reúne uma combinação singular de recursos naturais – “sol, vento, água e biomassa” – capaz de posicionar o Brasil entre os grandes produtores globais de energia renovável. Em sua avaliação, quanto maior for o uso doméstico de eletricidade renovável, maior será a capacidade brasileira de exportar petróleo e derivados com vantagem competitiva internacional. Tolmasquim também chamou atenção para o crescimento explosivo dos data centers e da inteligência artificial, alertando que o avanço dessas tecnologias cria simultaneamente oportunidades econômicas e fortes pressões sobre o sistema elétrico. “Os data centers e inteligência artificial criam uma oportunidade, mas também são fator de preocupação para o setor elétrico”, declarou.
O diretor da BYD Brasil, Marcelo Schneider, concentrou sua apresentação na transformação estrutural provocada pela eletrificação da economia global e pelo avanço das tecnologias de armazenamento energético. Segundo Schneider, a transição energética está “remodelando a competitividade industrial” e deslocando o eixo de valor da economia mundial dos combustíveis fósseis para sistemas baseados em eletrificação, baterias e gestão inteligente de energia. O executivo lembrou que a BYD nasceu originalmente como uma empresa de baterias muito antes da expansão dos veículos elétricos e hoje opera um ecossistema integrado envolvendo geração solar, armazenamento, mobilidade elétrica e sistemas ferroviários. Schneider afirmou que a companhia trabalha com a meta de “reduzir a temperatura do planeta em 1 grau” por meio da integração entre energia renovável, armazenamento e eletrificação do transporte. Em outro momento de sua apresentação, o executivo ressaltou a dimensão tecnológica da disputa global em torno da transição energética e destacou os investimentos maciços da empresa chinesa em pesquisa e inovação. Segundo ele, a BYD possui mais de um milhão de funcionários globalmente, 150 mil engenheiros e registra dezenas de pedidos de patente diariamente. Para Schneider, a eletrificação deixou de ser apenas tendência ambiental e passou a definir competitividade industrial, capacidade tecnológica e soberania econômica.

O diretor de Mudanças Climáticas e Carbono da Vale, Rodrigo Lauria, destacou a crescente centralidade da mineração dentro da transição energética global. Segundo Lauria, a expansão acelerada da eletrificação mundial está criando uma demanda estrutural inédita por minerais críticos estratégicos utilizados em baterias, redes elétricas, veículos elétricos e tecnologias de baixo carbono. O executivo afirmou que a mineração passou a ocupar posição central no novo modelo energético internacional porque praticamente todas as soluções de descarbonização dependem intensivamente de metais e minerais. Em linha semelhante à defendida por Izabella Teixeira, Lauria ressaltou que a discussão climática global não pode ser dissociada do debate sobre segurança mineral, cadeias industriais e geopolítica tecnológica. A participação da Vale reforçou a percepção predominante no painel de que a transição energética mundial tende a deslocar parte da disputa geopolítica internacional do petróleo para os minerais críticos.
A presidente da Hydro Rein, Marcella Jacob, reforçou durante o painel a necessidade de integração entre expansão renovável, competitividade industrial e descarbonização de cadeias produtivas intensivas em energia. Embora sua fala completa não apareça integralmente nos trechos disponíveis da transcrição, sua participação esteve inserida na discussão sobre eletrificação industrial, hidrogênio verde e novos modelos energéticos de baixo carbono. A presença da Hydro Rein – braço de energias renováveis associado à indústria do alumínio – evidenciou um dos temas centrais do seminário: a tendência de integração crescente entre grandes consumidores industriais e projetos dedicados de energia renovável, especialmente em setores exportadores intensivos em carbono, como mineração, metalurgia e siderurgia.
O CEO e fundador da Fontes Verdes, Guilherme Fontana, trouxe ao debate a agenda emergente do hidrogênio verde, amônia verde e aço verde como novos vetores industriais da transição energética. Logo no início de sua apresentação, Fontana afirmou que sua empresa procura “pensar fora da caixa” ao desenvolver projetos voltados às novas cadeias globais de baixo carbono. A participação da Fontes Verdes ajudou a ampliar o debate para além do setor elétrico tradicional, incorporando temas ligados à futura reorganização das cadeias industriais globais em torno de combustíveis sintéticos, hidrogênio e descarbonização da indústria pesada. Nas considerações finais do seminário, Jean Paul Prates destacou explicitamente a importância da participação da empresa na discussão sobre “hidrogênio verde” e “aço verde”, ressaltando que cada um desses temas isoladamente já justificaria um seminário específico.

O ex-senador Jean Paul Prates, chairman do Cerne e head do LIDE Energia, defendeu uma visão integrada entre desenvolvimento regional, exploração energética e soberania nacional. Segundo Prates, o debate sobre produção de petróleo na Amazônia precisa incorporar fatores econômicos, sociais e geopolíticos frequentemente ignorados na discussão pública. O ex-senador argumentou que a ausência do Estado em diversas regiões amazônicas favorece o fortalecimento do crime organizado e de estruturas ilegais de exploração econômica. Em sua avaliação, projetos energéticos estruturados podem funcionar também como instrumentos de presença institucional, desenvolvimento regional e fortalecimento da soberania brasileira sobre áreas estratégicas da Amazônia. Durante o seminário, Prates afirmou ainda que impedir a produção brasileira de petróleo teria impacto marginal sobre as emissões globais, ao mesmo tempo em que comprometeria receitas fundamentais para financiar a própria transição energética nacional.
A participação conjunta desses executivos consolidou um dos principais consensos do Seminário LIDE Energia 2026: a transição energética deixou de representar apenas substituição entre fontes fósseis e renováveis e passou a envolver reorganização profunda das cadeias industriais globais, disputa tecnológica, segurança mineral, digitalização, eletrificação e competição geopolítica por liderança em tecnologias de baixo carbono. Ao longo das discussões, ficou evidente que o Brasil possui vantagens estruturais relevantes nesse novo cenário – especialmente em eletricidade renovável, petróleo de baixa emissão, biomassa e minerais críticos – mas ainda enfrenta desafios significativos relacionados à infraestrutura, estabilidade regulatória, política industrial e coordenação estratégica de longo prazo. Mais do que discutir apenas fontes renováveis ou combustíveis fósseis, os participantes passaram a tratar energia como instrumento simultâneo de segurança nacional, estabilidade institucional, competitividade industrial e reposicionamento geopolítico internacional. O encontro mostrou ainda que a percepção empresarial dominante deixou de ser simplesmente “como descarbonizar” e passou a ser “como garantir crescimento econômico, estabilidade energética e inserção estratégica internacional em meio à transição climática global”.

