Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers

Data center localizado na cidade de Barueri

Grandes projetos de data centers têm se expandido pelo mundo, frequentemente vinculados a importantes empresas de tecnologia, as big techs. Por serem estruturas com consumo intensivo de energia, o Brasil desponta como um potencial destino para esses projetos, principalmente em virtude da sua matriz elétrica predominantemente renovável. E o governo federal se mobiliza para elaborar incentivos para atrair esses investimentos.

Especialistas alertam que o alto consumo energético dos data centers é conhecido e amplamente discutido, mas seu impacto hídrico não tem recebido a mesma atenção.

Data center pertencente à empresa China Telecom, o maior do país asiático, que ocupa uma área equivalente a 130 campos de futebol Marcos do Amaral Jorge

Especialistas apontam que é essencial orientar a atração desses investimentos, especialmente em um contexto de incertezas climáticas e de recorrentes períodos de estiagem e crises hídricas observadas em diferentes regiões do Brasil, nos últimos anos: estimativas sobre o consumo hídrico de grandes servidores apresentadas por pesquisadores em diferentes regiões do mundo impressionam. Em um artigo do ano passado, cientistas da Beijing Normal University calcularam que os data centers da China consumiram, em 2022, o equivalente a 15,7 bilhões de litros de água, o que representou 2,7% do total da água consumida no país naquele ano. Para fins de comparação, esse volume equivale a aproximadamente metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. 

Na mesma linha, a Agência Internacional de Energia aponta que o consumo global de água por data centers está atualmente em 560 bilhões de litros por ano. O relatório do órgão internacional publicado no ano passado vai além, prevendo que, em virtude da crescente demanda pelos recursos de IA, essa cifra deve alcançar 1,2 trilhões de litros até 2030. 

Ainda que um levantamento da Brasscom, de 2025, tenha apontado que data centers consumiram menos que a indústria no Brasil – 0,003% da água nacional (2022), o equivalente a cerca de 2 bilhões de litros/ano, o que coloca projeção para 2029 em 0,008% do consumo hídrico nacional, cerca de 30 bilhões de litros/ano – esse estudo parte de uma hipótese-chave: a de que 90% dos data centers usarão sistemas de circuito fechado até o fim da década, o que muda completamente o impacto hídrico.

É um estudo nacional agregado que não modela estresse hídrico regional nem trabalha com cenários climáticos(seca, calor extremo), ou seja, ele responde “quanto o Brasil consome”, mas não responde “onde isso pode virar problema”. Que é o que apontam os especialistas como Leopoldo Lusquino, cientista da computação e professor do Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Unesp, no campus de Sorocaba. Entre suas áreas de atuação, ele elabora modelos para tornar a IA mais eficiente e, portanto, mais verde. Para Leopoldo, as empresas estão atentas ao impacto das suas atividades sobre os recursos naturais e têm investido no desenvolvimento de tecnologias de resfriamento mais eficientes, mas atualmente as principais opções envolvem o resfriamento a seco, com o uso de ar-condicionado, por exemplo. “Isso pode ser útil em países frios, mas em países mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético”, explica.

A preocupação aumenta quando se vê que o texto do Redata – Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center elaborado pelo governo federal, apesar de não ignorar a pegada hídrica dos data centers, torna elegível aos benefícios fiscais a empresa deve apresentar um Índice de Eficiência Hídrica (WUE) igual ou inferior a 0,05 L/kWh por ano, além de apresentar esses dados em seus respectivos relatórios de sustentabilidade. Embora seja a métrica mais usada pela indústria, especialistas apontam que o WUE, isoladamente, não deve ser o único instrumento regulatório para se determinar a pegada hídrica de um data center, sob o risco de subestimar os verdadeiros riscos sobre a água e direcionar políticas de forma inadequada. Isso porque outros fatores como uma redução esporádica no consumo de energia ou o funcionamento durante as estações mais frias do ano (que demandam menos resfriamento) podem ajudar a mascarar este índice. 

Atualmente, dos cerca de 200 data centers em funcionamento no Brasil, mais de 80 estão em um eixo entre São Paulo e Campinas.

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