A expansão da indústria de captura e armazenamento de carbono (CCS/CCUS) depende muito menos da disponibilidade de reservatórios geológicos do que da capacidade de transportar grandes volumes de CO₂ de forma segura, econômica e contínua. Foi justamente esse elo da cadeia que recebeu novo impulso no Reino Unido com a publicação de dois estudos encomendados pela North Sea Transition Authority (NSTA), indicando que tanto a construção de novos dutos quanto o reaproveitamento de gasodutos offshore existentes são alternativas tecnicamente viáveis para acelerar o desenvolvimento da infraestrutura de armazenamento de carbono no Mar do Norte.
Os estudos representam um dos trabalhos técnicos mais abrangentes já produzidos sobre transporte offshore de CO₂ e reforçam uma mudança importante na estratégia britânica de descarbonização: transformar décadas de experiência acumulada pela indústria de óleo e gás em vantagem competitiva para a economia de baixo carbono.
Transporte de CO₂: desafio do CCS
Embora a captura de carbono tenha avançado significativamente nos últimos anos, o transporte continua sendo um dos principais gargalos para projetos comerciais de larga escala.
Ao contrário do gás natural, o CO₂ apresenta propriedades termodinâmicas bastante distintas, principalmente quando transportado em estado denso ou supercrítico, exigindo cuidados específicos quanto à integridade mecânica das tubulações, controle de impurezas, gerenciamento de fraturas e modelagem de escoamento.
Para avaliar essas questões, a NSTA contratou duas empresas com ampla experiência internacional.
O primeiro estudo, desenvolvido pela Penspen, analisou os requisitos para novos sistemas de transporte offshore dedicados ao CO₂. O relatório conclui que não existem barreiras relevantes relacionadas a equipamentos ou hardware capazes de impedir a implantação de grandes redes de dutos. Entretanto, identifica uma limitação importante: ainda existe pouca experiência operacional mundial com sistemas offshore integrados de transporte de CO₂ em larga escala.
Segundo a consultoria, o setor deverá complementar o conhecimento acumulado em oleodutos e gasodutos convencionais com novos critérios específicos para gerenciamento de contaminantes; controle de propagação de fraturas; medição fiscal de CO₂; modelagem hidráulica; e longos tiebacks submarinos;
integração entre captura, compressão, transporte e armazenamento.
O estudo também destaca a necessidade de padronização dos processos de validação e integração entre operadores, fornecedores e órgãos reguladores, aspecto considerado essencial para reduzir riscos e acelerar investimentos.
Reutilização de gasodutos pode reduzir custos
O segundo estudo, elaborado pela DNV, concentrou-se na possibilidade de reaproveitar a extensa malha de dutos offshore construída ao longo de décadas para produção de petróleo e gás.
Em vez do descomissionamento completo dessas infraestruturas, a proposta consiste em convertê-las para transporte de CO₂, desde que atendam aos requisitos de integridade estrutural e compatibilidade operacional.
O trabalho apresenta uma metodologia detalhada de avaliação técnica, incluindo estudos de caso que demonstram como verificar a adequação de cada ativo.
Segundo a DNV, a reutilização de gasodutos pode representar ganhos significativos ao reduzir investimentos de capital (CAPEX); encurtar cronogramas de implantação; diminuir impactos ambientais associados à construção de novos corredores submarinos; e acelerar projetos de armazenamento geológico.
Naturalmente, a conversão depende de inspeções detalhadas sobre corrosão, fadiga, histórico operacional, materiais empregados e condições de operação futuras, já que o comportamento do CO₂ difere substancialmente daquele observado em hidrocarbonetos convencionais.
O legado do offshore como vantagem competitiva
Talvez a principal mensagem dos estudos seja que a infraestrutura legada da indústria offshore poderá se transformar em um dos maiores ativos estratégicos da transição energética.
O Reino Unido possui milhares de quilômetros de gasodutos submarinos, plataformas, poços e reservatórios exauridos que poderão ser incorporados às futuras cadeias logísticas de CCS.
Na avaliação da NSTA, a experiência adquirida em décadas de exploração do Mar do Norte oferece uma base técnica única para desenvolver uma indústria de armazenamento de carbono em escala comercial, reduzindo riscos tecnológicos e acelerando a curva de aprendizado.
Essa estratégia também dialoga diretamente com o processo de descomissionamento da infraestrutura offshore, permitindo que parte desses ativos permaneça economicamente útil por muitos anos.
Engenharia de integridade ganha protagonismo
Os estudos reforçam ainda a importância crescente da engenharia de integridade para o setor de CCUS.
Embora os equipamentos básicos – tubos, válvulas, compressores e instrumentos – sejam amplamente conhecidos pela indústria, o transporte contínuo de CO₂ exige novos critérios de projeto, monitoramento e inspeção.
Entre os desafios técnicos destacados estão controle rigoroso da composição do CO₂; prevenção de corrosão associada à presença de água e impurezas; monitoramento de fadiga em ciclos de pressão;
modelagem dinâmica do escoamento; sistemas avançados de medição e detecção de vazamentos; e integração entre infraestrutura submarina e reservatórios geológicos.
Esses fatores ampliam o papel de tecnologias como inspeção inteligente (smart pigging), monitoramento em tempo real, gêmeos digitais (digital twins), sensoriamento distribuído por fibra óptica e análise preditiva baseada em inteligência artificial.
Reflexos para o mercado brasileiro
Embora o estudo tenha foco no Reino Unido, suas conclusões são particularmente relevantes para o Brasil.
Com centenas de quilômetros de dutos submarinos, extensas áreas do pré-sal e crescente interesse em projetos de CCUS associados à produção offshore, o país poderá enfrentar desafios semelhantes nos próximos anos.
A eventual reutilização de infraestrutura existente poderá reduzir custos de implantação dos futuros hubs brasileiros de captura e armazenamento de carbono, ao mesmo tempo em que prolonga a vida útil de ativos que, de outra forma, seriam destinados ao descomissionamento.
Nesse contexto, integridade de ativos, avaliação estrutural, certificação, monitoramento contínuo e engenharia de materiais tendem a se consolidar como competências estratégicas para a nova economia do carbono.
Os estudos da NSTA sinalizam que o principal desafio do transporte offshore de CO₂ deixou de ser tecnológico e passou a concentrar-se na padronização de práticas, na experiência operacional e na integração entre engenharia, regulamentação e investimentos. Em outras palavras, a infraestrutura necessária para uma indústria robusta de armazenamento geológico de carbono parece estar mais próxima do que se imaginava -desde que o conhecimento acumulado pela indústria de óleo e gás seja efetivamente convertido em soluções para a transição energética.

