O Febraban Tech 2026 encerrou sua 36ª edição com 70 mil visitas ao longo dos três dias de programação, crescimento de 20,7% em relação às 58 mil registradas em 2025. O maior evento de tecnologia e inovação do setor financeiro reuniu 627 palestrantes em 220 painéis.

“O crescimento do Febraban Tech mostra que existe uma demanda muito grande por um espaço que reúna conteúdo, negócios e troca de experiências sobre as transformações que estão acontecendo no setor financeiro. A mudança para o Distrito Anhembi, em São Paulo, nos permitiu ampliar em mais de 70% a área construída e acompanhar esse movimento com uma estrutura maior e mais confortável, mantendo a qualidade das discussões e trazendo temas que realmente estão na agenda dos bancos e das empresas de tecnologia”, afirma Denise Perotti, diretora-adjunta da Presidência e de Eventos na Febraban.
A agenda do FEBRABAN TECH 2026 mostrou uma mudança de maturidade do setor financeiro, com a inteligência artificial sendo discutida cada vez menos como uma aplicação isolada e cada vez mais como parte de uma arquitetura que envolve dados, cloud, cibersegurança, infraestrutura computacional, identidade digital e automação de processos.
O próprio tema da edição, “Agentes inteligentes, liderança humana”, sinaliza essa mudança. A discussão tecnológica passou da IA generativa utilizada como ferramenta de interação para os chamados agentes de IA, capazes de executar tarefas e participar de fluxos de trabalho. Isso altera significativamente os requisitos de arquitetura: um modelo que apenas gera uma resposta apresenta um determinado conjunto de riscos; um agente conectado a sistemas corporativos, bases de dados e APIs e autorizado a executar ações introduz questões adicionais de identidade, autorização, rastreabilidade, segurança e governança. A agenda oficial do evento colocou os agentes inteligentes no centro das discussões sobre a próxima etapa da transformação digital.
A dimensão econômica dessa transformação apareceu na 34ª Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte. O levantamento estima R$ 50,4 bilhões em investimentos em tecnologia pelos bancos brasileiros em 2026, crescimento de 8% sobre 2025 e de 58% em cinco anos. Entre as prioridades tecnológicas estão cibersegurança, cloud, inteligência artificial e IA generativa.
O dinheiro está indo para IA, dados e cloud
Os dados apresentados durante o FEBRABAN TECH mostram com maior precisão onde está ocorrendo essa transformação. Os bancos estimam investir aproximadamente R$ 3 bilhões em Inteligência Artificial, Analytics e Big Data em 2026, alta de 8% em relação ao ano anterior. Já os investimentos relacionados à migração para cloud devem chegar a R$ 3,9 bilhões, crescimento de 30%. A própria Deloitte interpreta esse movimento como uma convergência entre Data & AI, GenAI, Cloud e Cyber, criando a infraestrutura necessária para ampliar a escala da transformação digital.
O dado é importante porque mostra que o desafio deixou de ser simplesmente “ter IA”: segundo a pesquisa, cerca de 60% das instituições ainda estão em estágios iniciais de adoção de IA, enquanto a GenAI apresenta um grau de experimentação ainda maior. O problema passa a ser transformar provas de conceito em aplicações integradas às operações, capazes de produzir ganhos mensuráveis de produtividade, segurança, atendimento ou receita. Essa transição é coerente com o movimento observado no mercado de tecnologia: a pergunta começa a ser “como escalar a IA e capturar valor?”. A própria Deloitte, em seu estudo Tech Trends 2026, identifica a passagem da experimentação para o impacto como uma das principais mudanças na adoção tecnológica.
Cibersegurança passa a acompanhar cada camada da arquitetura
A expansão de IA, cloud e dados também amplia a superfície de ataque. Não se trata apenas de proteger o data center ou a rede corporativa. Uma arquitetura bancária cada vez mais distribuída precisa proteger identidades, APIs, dados, aplicações em cloud, modelos de IA, agentes digitais e conexões com terceiros.
Essa preocupação aparece diretamente na pesquisa tecnológica do setor: 100% dos bancos pesquisados classificaram a cibersegurança como prioridade de relevância alta ou média. A mesma pesquisa mostra que o setor está ampliando a contratação e capacitação de profissionais especializados, enquanto a tecnologia passa a ser tratada como componente de eficiência, inovação e resiliência.
A consequência técnica é importante: quanto mais autonomia é concedida a softwares, maior precisa ser a capacidade de identificar quem – ou o quê – está executando uma determinada ação. No modelo tradicional, a identidade digital está associada principalmente ao usuário humano ou à organização. Em arquiteturas agentivas, passa a ser necessário estabelecer também mecanismos de autenticação, autorização e auditoria para agentes de software.
O dado deixa de ser apenas informação e vira infraestrutura
Outro aspecto que ganhou força no evento é a evolução do papel dos dados. A digitalização bancária já produziu volumes gigantescos de informações, mas o próximo salto depende de transformar esses dados em insumo operacional para sistemas de decisão em tempo real.
A escala desse fenômeno pode ser observada na própria pesquisa da FEBRABAN: das 240,8 bilhões de transações bancárias realizadas em 2025, 83% ocorreram em canais digitais e 78% foram realizadas pelo mobile banking. O celular se consolidou como principal ambiente de relacionamento financeiro, enquanto o Open Finance avança na utilização dos dados para gerar experiências mais contextualizadas.
Isso coloca uma exigência adicional sobre a arquitetura: não basta possuir dados; é necessário garantir qualidade, disponibilidade, contexto, governança e baixa latência para que eles possam alimentar aplicações de IA e processos automatizados.
Cloud deixa de ser apenas infraestrutura
O crescimento de 30% previsto para investimentos em cloud também merece atenção. Quando associado ao aumento dos gastos com IA e dados, ele mostra que a nuvem está sendo tratada como plataforma de execução da próxima geração de serviços financeiros, e não apenas como alternativa para hospedagem de aplicações.
Essa mudança traz implicações de engenharia: arquitetura distribuída, observabilidade, gerenciamento de APIs, resiliência, continuidade operacional, proteção de dados e controle de custos passam a ser tão importantes quanto a capacidade computacional. O crescimento da IA aumenta ainda mais essa pressão, pois aplicações de inferência e treinamento podem demandar processamento especializado e infraestrutura dimensionada para cargas variáveis.
IA começa a mexer na própria lógica do banco
A pesquisa mostra que os casos de uso de IA já apresentam resultados mais concretos em áreas como backoffice, desenvolvimento de software e prevenção a fraudes, enquanto aplicações voltadas ao atendimento e à experiência do cliente ainda apresentam maior espaço para evolução.
Esse dado é tecnicamente relevante porque indica que a primeira onda de retorno da IA pode estar ocorrendo justamente onde os processos são mais estruturados, mensuráveis e ricos em dados. Em outras palavras, a IA tende a gerar valor primeiro onde consegue ser integrada a processos bem definidos, antes de transformar completamente as interfaces de relacionamento com o cliente.
A principal mensagem tecnológica do evento não foi um novo modelo de IA ou uma tecnologia isolada. Foi a percepção de que o setor bancário entrou em uma fase em que IA, dados, cloud e cibersegurança precisam ser projetados conjuntamente.

