Fórum de Biodiesel


O III Fórum Biodiesel e Bioquerosene – Tecnologia e Inovação, promovido pela Ubrabio, no Distrito Anhembi, em São Paulo, aconteceu em paralelo à Fenagra 2026, e reuniu representantes da cadeia de biodiesel, bioquerosene sustentável de aviação (SAF), agronegócio, fabricantes de motores, fornecedores de tecnologia, pesquisadores, investidores, reguladores e formuladores de políticas públicas.

A edição de 2026 ocorreu em um momento particularmente sensível para o setor energético brasileiro, com o avanço das metas de descarbonização, a expansão progressiva das misturas obrigatórias de biodiesel no diesel fóssil, a regulamentação do combustível sustentável de aviação e a pressão internacional por cadeias produtivas de baixo carbono transformaram o fórum em uma arena de articulação industrial, tecnológica e regulatória. Segundo a própria Ubrabio, o objetivo do evento foi aproximar “atores estratégicos” e “tomadores de decisão” para acelerar soluções concretas para a transição energética nacional.

Diferentemente das primeiras edições, que tiveram perfil mais voltado à consolidação institucional do setor, o III Fórum apresentou uma agenda mais ligada à competitividade industrial, exportação de energia renovável e integração entre combustíveis renováveis e neoindustrialização brasileira. Os debates foram organizados em seis mesas temáticas voltadas a transição energética, abertura de mercados internacionais, aplicações avançadas do biodiesel, inovação tecnológica e novas rotas industriais.

Um dos eixos centrais foi a discussão sobre o “mapa do caminho” da transição energética brasileira. Os participantes destacaram que o biodiesel deixou de ser visto apenas como aditivo ao diesel mineral e passou a ocupar papel mais amplo como plataforma tecnológica para combustíveis renováveis de múltiplas aplicações, incluindo SAF, HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), combustíveis marítimos e integração com refinarias. Essa mudança de posicionamento apareceu em praticamente todos os painéis do evento.

Outro tema forte foi a abertura de mercados internacionais para biocombustíveis brasileiros. Representantes da indústria discutiram a crescente demanda global por combustíveis renováveis, especialmente na Europa e na aviação internacional, além da necessidade de certificações ambientais, rastreabilidade de cadeia produtiva e redução da intensidade de carbono. O Brasil foi apresentado como um dos poucos países capazes de produzir biocombustíveis em escala industrial com competitividade agrícola e disponibilidade de biomassa.

O fórum também concentrou atenção significativa sobre aplicações técnicas do biodiesel em motores pesados e equipamentos industriais. Debates envolvendo o uso de B100 e misturas elevadas mostraram que ainda persistem desafios relacionados à estabilidade oxidativa, formação de depósitos, degradação microbiológica e adaptação de sistemas de injeção e armazenamento. Essas preocupações vêm ganhando destaque também em fóruns técnicos independentes e comunidades de engenharia automotiva. Em discussões recentes reproduzidas em comunidades técnicas online, profissionais do setor relataram problemas de degradação do biodiesel em veículos e sistemas de armazenamento, especialmente em aplicações de baixa utilização e longos períodos de estocagem.

Ao mesmo tempo, o evento mostrou que fabricantes, pesquisadores e empresas de engenharia vêm acelerando o desenvolvimento de soluções para ampliar a confiabilidade operacional dos biocombustíveis. Tecnologias voltadas a controle microbiológico, estabilização química, melhoria da combustão, monitoramento da qualidade e novos sistemas de injeção foram apontadas como áreas prioritárias de inovação industrial.

A questão tecnológica apareceu ainda no debate sobre novos ciclos térmicos e rotas alternativas de combustão. Embora não tenha sido um tema central do fórum, o ambiente de inovação discutido no evento dialoga com iniciativas brasileiras emergentes para adaptação de motores pesados a combustíveis renováveis. Em março de 2026, por exemplo, ganhou repercussão nacional uma tecnologia desenvolvida pela startup brasileira E-OXY para conversão de motores originalmente diesel para operação com etanol em aplicações pesadas, demonstrando o avanço das pesquisas nacionais em combustíveis alternativos.

Outro foco importante do III Fórum foi o combustível sustentável de aviação (SAF). O bioquerosene apareceu como um dos principais vetores de crescimento futuro da indústria brasileira de biocombustíveis. Os debates enfatizaram que a aviação internacional deverá pressionar fortemente a demanda global por SAF nos próximos anos devido às metas climáticas da ICAO e das companhias aéreas globais. Nesse contexto, o Brasil tenta posicionar-se como potencial exportador estratégico graças à disponibilidade de biomassa, expertise agrícola e capacidade de integração industrial.

As discussões sobre inovação industrial também envolveram novas matérias-primas e rotas de processamento. Pesquisadores e executivos abordaram o uso de resíduos agroindustriais, biomassa avançada, óleos residuais e biotecnologia aplicada à produção de combustíveis renováveis. O aproveitamento energético de resíduos apareceu como um dos caminhos mais promissores para redução simultânea de emissões e custos industriais.

Participantes discutiram mecanismos de financiamento à inovação, investimentos industriais e instrumentos de apoio à transição energética. A percepção predominante entre os palestrantes foi de que o setor de biocombustíveis avançados dependerá cada vez mais de integração entre crédito, política industrial, ciência aplicada e regulação ambiental para ganhar escala internacional.

A realização junto à Fenagra ampliou a dimensão do evento: segundo a organização, a feira de 2026 esperava cerca de 250 expositores e 14 mil visitantes ligados às áreas de nutrição animal, óleos vegetais, graxarias, processamento agroindustrial e biodiesel. Essa integração reforçou o caráter transversal da bioeconomia brasileira, conectando agricultura, energia, química renovável e logística industrial.

O III Fórum também evidenciou uma mudança de narrativa no setor energético nacional. Em vez de apresentar os biocombustíveis apenas como alternativa ambiental, os organizadores passaram a enfatizar biodiesel e SAF como instrumentos de soberania energética, reindustrialização verde e inserção geopolítica do Brasil nas cadeias globais de energia limpa. O evento mostrou que o debate sobre combustíveis renováveis no país já ultrapassou a esfera agrícola e ambiental, assumindo caráter industrial, tecnológico e estratégico.

​“A importância desse setor vai muito além da substituição de fontes fósseis; estamos falando de um ecossistema que impulsiona a inovação tecnológica, gera empregos qualificados e fortalece a nossa segurança energética com baixa emissão de carbono”, afirmou Leandro Cerqueira, assessor da presidência da ABDI.

O Fórum culminou no lançamento da Rede Brasileira de Combustível Sustentável de Navegação, uma iniciativa que visa ampliar o debate sobre a descarbonização dos transportes e aumentar a demanda por matérias-primas voltadas à produção de energia limpa.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação anunciou investimentos para fortalecer a produção nacional de combustíveis sustentáveis.

Foi destacada uma iniciativa premiada pela ONU, que transforma biomassa em biogás e biometano. Um projeto de R$ 5 bilhões foi firmado entre o BNDES e o FEP para impulsionar negócios na área de combustíveis sustentáveis.

Um investimento de 3 bilhões de dólares está previsto para a produção de diesel verde a partir da árvore Macaúba.

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