A Hannover Messe, que sempre reservou espaço para o tema energia, este ano consolidou uma mudança relevante na forma como o setor energético é tratado dentro do ecossistema industrial global: a feira evidenciou uma convergência estrutural entre energia, indústria e digitalização, com impactos diretos sobre petróleo, gás e renováveis.
Destaque-se a incorporação definitiva da energia como variável central da operação industrial: sob o guarda-chuva de temas como eficiência, descarbonização e segurança energética, empresas e instituições apresentaram soluções que tratam a energia não apenas como insumo, mas como um sistema integrado, monitorado e otimizado em tempo real.
E aí o hidrogênio e os combustíveis sintéticos (Power-to-X) foram novamente protagonistas, mas desta vez o foco não foi conceitual, mas passou para a escala industrial e a viabilidade econômica. Diversos projetos apresentados envolvem integração com cadeias produtivas reais, especialmente em setores difíceis de descarbonizar, como siderurgia, química pesada, aviação e transporte marítimo.
Em Hannover não poderia faltar o viés da digitalização aplicada à energia: a feira mostrou como inteligência artificial, edge computing e digital twins estão sendo incorporados à gestão energética para prever demanda, otimizar consumo e reduzir emissões. Esse movimento é particularmente relevante para o setor de petróleo e gás, que passa por uma transição gradual: ao mesmo tempo em que mantém seu papel na segurança energética, precisa incorporar tecnologias digitais para reduzir custos, emissões e riscos operacionais.
A dimensão geopolítica também esteve fortemente presente. A crise energética dos últimos anos continua influenciando a agenda industrial europeia, com ênfase em diversificação de fontes, autonomia energética e estabilidade de suprimento. Nesse cenário, fontes renováveis, hidrogênio e combustíveis de baixo carbono aparecem não apenas como soluções ambientais, mas como instrumentos de política industrial e segurança nacional.

Esse posicionamento ganhou reforço com a participação brasileira. Durante a abertura do pavilhão nacional, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou os biocombustíveis como solução estratégica para a transição energética global, enfatizando o papel do Brasil na oferta de energia limpa e competitiva. A participação institucional brasileira também foi reforçada por iniciativas de promoção da economia verde. Segundo o Sebrae, o país se apresentou na feira como potência emergente nesse campo, com destaque para bioenergia, inovação industrial e soluções sustentáveis integradas.

No plano político internacional, a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a centralidade dos biocombustíveis na estratégia brasileira, defendendo sua ampliação como alternativa concreta aos combustíveis fósseis e como instrumento de cooperação energética com a Europa, inclusive no diálogo com lideranças alemãs.
Relevante foi a convergência entre bioenergia, resíduos e combustíveis avançados: tecnologias voltadas à produção de biogás, biometano e e-fuels a partir de resíduos industriais e agrícolas ganharam espaço, indicando uma tendência de integração entre economia circular e sistemas energéticos. Esse modelo amplia a eficiência de cadeias produtivas e cria novas oportunidades de monetização de resíduos. O interesse internacional se concentra na capacidade de os países produzirem não apenas eletricidade limpa, mas também moléculas energéticas exportáveis, como hidrogênio e combustíveis sintéticos.
Ganhou as páginas internacionais o posicionamento estratégico do Brasil no debate global sobre transição energética. Seguindo essa trilha, o workshop “Sustainable Fuels of the Future — Brazil’s Strategic Potential”, se inseriu no contexto em que o Brasil atua como nação parceira da feira, reforçando uma narrativa técnica: o Brasil não apenas dispõe de recursos naturais, mas reúne condições sistêmicas, energéticas, industriais e regulatórias para se tornar hub global de combustíveis sustentáveis.
O workshop partiu do conceito de Power-to-X, que converte eletricidade renovável em vetores energéticos como hidrogênio verde e combustíveis sintéticos. Essa abordagem é particularmente aderente ao contexto brasileiro, cuja matriz elétrica já é majoritariamente renovável – cerca de 90% – criando vantagem competitiva estrutural para produção de moléculas verdes em escala industrial. A Siemens demonstrou casos em que eletrificação, automação e digitalização industrial viabilizam projetos de hidrogênio e combustíveis sintéticos com ganhos simultâneos de eficiência operacional e redução de emissões, evidenciando maturidade tecnológica e não apenas potencial teórico.
A presença da GIZ adicionou uma dimensão institucional crítica: a articulação entre política pública, financiamento e desenvolvimento de mercado. Projetos apoiados pela agência na produção de hidrogênio e derivados – inclusive a partir de resíduos agroindustriais – indicam uma estratégia integrada que conecta bioeconomia, agricultura e indústria química.
Nesse ecossistema, empresas como Green Energy Park Global BV emergem como operadores tecnológicos da nova cadeia de valor, focados na produção descentralizada de hidrogênio e e-fuels, frequentemente associadas a projetos híbridos que combinam resíduos, biogás e eletricidade renovável.
A relevância estratégica do Brasil, destacada ao longo da feira, decorre da combinação de abundância de recursos renováveis (solar, eólico e biomassa), base industrial diversificada e experiência consolidada em biocombustíveis. Esse tripé posiciona o país como fornecedor potencial não apenas de energia, mas de moléculas energéticas exportáveis – um diferencial relevante diante da crescente demanda europeia por descarbonização de setores difíceis de eletrificar, como aviação, siderurgia e transporte marítimo.

No plano institucional e de governança, brilharam as brasileiras Fernanda Delgado – CEO da ABIHV – Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde e Rakel Dourado Murad – Presidente da Zona de Processamento de Exportação do Maranhão (ZPE MA) que têm reforçado a necessidade de alinhamento entre política industrial, regulação e financiamento climático para capturar esse potencial: “o Brasil não pode perder a janela dos combustíveis sustentáveis”.

Assim, o workshop funcionou como síntese de algo maior apresentada na Hannover Messe 2026: a transformação do Brasil de exportador de commodities energéticas tradicionais em fornecedor estratégico de energia descarbonizada, ancorado em integração tecnológica, cooperação internacional e escala industrial.
Os debates dessa Hannover Messe apontam para um novo paradigma: energia integrada à operação industrial, digitalização como eixo estruturante da eficiência energética, hidrogênio e e-fuels entrando em fase de escala, coexistência entre petróleo, gás e renováveis em um modelo híbrido e crescente peso da geopolítica e da segurança energética.
Mais do que indicar tendências, a feira sinaliza que a transição energética já entrou em uma fase de implementação sistêmica – na qual tecnologia, regulação, mercado e geopolítica passam a evoluir de forma interdependente.

