Hub de captura e armazenamento de carbono no interior de São Paulo

A captura e armazenamento de carbono (CCS) vem ganhando escala como nova frente de infraestrutura associada ao setor brasileiro de biocombustíveis. A EnduraCarbon apresentou à ANP – Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis um pedido para realizar estudos e testes de armazenamento geológico de CO₂ no centro-oeste paulista.

A ideia é desenvolver um hub de captura, transporte e armazenamento de carbono para receber CO₂ de diferentes usinas de etanol da região. O modelo se enquadra em Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono (BECCS), tecnologia que pode transformar emissões biogênicas associadas à produção de biocombustíveis em remoções líquidas de carbono.

A iniciativa ganhou respaldo regulatório com a publicação, em 13 de agosto, do Decreto nº 13.095/2026, que regulamentou atividades de captura, transporte e armazenamento de carbono previstas na Lei do Combustível do Futuro e atribuiu à ANP a competência para autorizar e regular projetos de CCS.

O conceito da EnduraCarbon é concentrar em uma estrutura comum o CO₂ capturado em várias unidades industriais. As usinas de etanol liberam CO₂ biogênico durante a fermentação. Plantas que também produzem biometano podem gerar uma corrente adicional de CO₂ durante a purificação do biogás, etapa em que o dióxido de carbono é separado do metano. O gás seria liquefeito nas próprias usinas e transportado até o hub, onde seria injetado em formações geológicas profundas para armazenamento permanente. A empresa estima que, caso os estudos confirmem a viabilidade técnica e econômica, o empreendimento poderá exigir investimentos de aproximadamente R$ 1,5 bilhão e alcançar capacidade de armazenamento de 1 milhão de toneladas de CO₂ por ano.

Segundo o CEO Daniel Pedroso, a empresa passou o último ano estruturando o projeto, avaliando o potencial geológico da região e acompanhando a regulamentação brasileira para CCS.

A seleção do centro-oeste paulista resultou da análise de dados geológicos e sísmicos históricos, incluindo informações de poços perfurados desde a década de 1960 por Petrobras e Paulipetro.

O foco dos estudos é identificar reservatórios salinos adequados à injeção e ao armazenamento permanente de CO₂ na Bacia do Paraná.

A estratégia busca reduzir a necessidade de infraestrutura individual para cada usina e criar escala para o armazenamento de carbono.

A empresa já firmou acordo com a Usina São Manoel, em São Manuel (SP), para fornecimento de CO₂ e de eletricidade cogerada a partir da biomassa da cana-de-açúcar. O modelo pretende integrar captura, liquefação, transporte e armazenamento em uma única cadeia logística.

A EnduraCarbon planeja instalar e operar unidades de liquefação junto às usinas participantes. A energia necessária ao processo poderá ser obtida da própria cogeração com bagaço de cana, reduzindo a necessidade de energia externa. O transporte até o hub, por sua vez, deve ser realizado por caminhões movidos a biometano, combustível que, segundo a empresa, apresenta menor intensidade de carbono que o diesel convencional. O biometano poderá ser produzido pelas próprias usinas parceiras.

A lógica econômica do projeto depende justamente da concentração de volumes: quanto maior a quantidade de CO₂ capturada e armazenada pela infraestrutura compartilhada, maior o potencial de diluição dos custos de transporte e armazenamento.

BECCS e remoção de carbono

O diferencial do BECCS está na origem do carbono. Como o CO₂ capturado pela produção de etanol é de origem biogênica e pertence a um ciclo relativamente curto do carbono, sua captura e posterior armazenamento geológico podem resultar em remoção líquida de CO₂ da atmosfera, desde que toda a cadeia seja contabilizada e apresente balanço de emissões compatível.

O Brasil começa a formar um ecossistema próprio para essa tecnologia. Atualmente, um dos projetos de maior destaque é o da FS, em Lucas do Rio Verde (MT), associado à produção de etanol de milho. A instalação foi projetada para capturar e armazenar o CO₂ gerado na própria indústria, reduzindo a intensidade de emissões do combustível ao longo de seu ciclo de vida.

A proposta da EnduraCarbon difere por não estar vinculada a uma única usina. O hub funcionaria como infraestrutura compartilhada, permitindo que diferentes produtores encaminhem seu CO₂ para o mesmo sistema de armazenamento.

Próxima etapa

Se o pedido for autorizado, a EnduraCarbon terá três anos para perfurar poços e executar os estudos e testes necessários. Comprovadas a viabilidade e a segurança do armazenamento, a empresa poderá solicitar à ANP a autorização para exploração da área de armazenamento. A legislação prevê prazo de 30 anos para exploração dos poços de injeção de carbono, prorrogável por mais 30 anos. Além da infraestrutura física, a viabilidade financeira do projeto dependerá do desenvolvimento do mercado de créditos e certificados associados à remoção de carbono.

A EnduraCarbon aposta no crescimento da demanda corporativa por remoções de alta permanência, especialmente de setores com emissões difíceis de abater. Entre os potenciais compradores estão empresas de tecnologia e operadores de data centers, que buscam contratos de longo prazo para compensar parte de suas emissões.

Impacto dos ITMOs no mercado

Outro fator relevante é a regulamentação dos ITMOs (Internationally Transferred Mitigation Outcomes), unidades de redução ou remoção de emissões que podem ser transferidas internacionalmente no âmbito do Artigo 6 do Acordo de Paris.

O governo brasileiro avalia mecanismos para controlar a exportação desses ativos e preservar oferta doméstica suficiente para o cumprimento das metas climáticas nacionais. Para projetos de BECCS, a definição das regras será particularmente importante, já que a tecnologia exige investimentos elevados em captura, liquefação, transporte, poços e monitoramento geológico.

Para a EnduraCarbon, a possibilidade de comercialização internacional de créditos de remoção poderia ampliar a disponibilidade de capital para projetos dessa natureza. A empresa afirma estar em conversas com investidores institucionais e grandes companhias interessadas em projetos de descarbonização. Se o modelo avançar, o projeto paulista poderá representar mais do que uma nova alternativa de destinação para o CO₂ das usinas: poderá criar uma infraestrutura regional de carbono, conectando produção de biocombustíveis, bioenergia, biometano, logística e armazenamento geológico permanente.

Últimas Notícias

Primeiro equipamento mecânico “Ex” nacional conquista certificação Ex “h” no Sistema IECEx

De acordo com o sistema “on-line” de certificação internacional do IECEx, da IEC (International Electrotechnical Commission), a Empresa Brasileira WEG-CESTARI Redutores e Motorredutores S/A,...

ICMC e Sociedade Brasileira de Matemática anunciam vencedor do Prêmio Gutierrez 2026

O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos, em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), anuncia...

Unleashed by Purina impulsiona o desenvolvimento de pet techs brasileiras

As inscrições para a oitava edição do Unleashed by Purina, programa global de aceleração de startups de pet tech e cuidados com pets promovido...