Hyvolution Brasil 2026 consolida São Paulo como polo latino-americano da economia do hidrogênio e da descarbonização


A primeira edição brasileira do Hyvolution, realizada nos dias 16 e 17 de junho no Distrito Anhembi, em São Paulo, confirmou a maturidade crescente do ecossistema nacional de hidrogênio de baixa emissão e consolidou o país como um dos principais mercados emergentes da nova economia das moléculas energéticas. O evento reuniu mais de 100 marcas expositoras, representantes de 14 países, cerca de 800 congressistas, 6 mil visitantes qualificados e mais de 60 horas de conteúdo técnico, transformando-se em uma plataforma de convergência entre hidrogênio, captura de carbono, combustíveis sustentáveis e descarbonização industrial.

O evento foi realizado simultaneamente aos congressos HySummit e Carbon Capture, reunindo governos, indústria, centros de pesquisa, investidores e fornecedores de tecnologia.

O Congresso HySummit foi o eixo técnico do evento e evidenciou a transformação do setor em direção à escala industrial. Incorporando oficialmente o Congresso Carbon Capture, o fórum ampliou a discussão para as tecnologias de captura e armazenamento de carbono e para a descarbonização dos setores hard-to-abate. Especialistas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Banco Mundial, ABIHV, France Hydrogène, H2Global, GIZ, Canal do Panamá, Atlas Agro e CCS Brasil discutiram regulação, financiamento, demanda, logística e integração entre diferentes rotas energéticas.

Ao abrir o HySummit, a diretora-geral da GL events Exhibitions, Tatiana Zaccaro, ressaltou que a transição energética deixou de ser uma pauta do futuro para se tornar uma agenda do presente. Já Pierre Buchou, diretor do eixo de sustentabilidade da GL events França, destacou que o Brasil reúne uma combinação singular de recursos renováveis, capacidade industrial e ambiente favorável para se posicionar entre os protagonistas da nova economia do hidrogênio.

Fernanda Delgado alertou para os riscos de perda das vantagens competitivas brasileiras: “O mundo olha para o Brasil com expectativa. Porém precisamos ser francos, há sinais de alerta que começam a corroer as vantagens comparativas construídas aqui. Já aguardamos há dois anos os decretos reguladores para as leis promulgadas.”

O presidente do Conselho da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV) e country manager da Fortescue no Brasil, Luis Viga, destacou que os fundamentos brasileiros permanecem sólidos e que a trajetória do hidrogênio tende a reproduzir a curva de aprendizado observada anteriormente nos setores eólico e solar.

Segundo Viga, o principal desafio atual não está mais na disponibilidade tecnológica, mas na estruturação da demanda e na consolidação dos contratos de compra de longo prazo. A ausência de mecanismos regulatórios definitivos em mercados consumidores, especialmente na Europa, continua retardando a assinatura dos chamados offtakers, considerados fundamentais para viabilizar os investimentos.

A CEO da ABIHV, Fernanda Delgado, ressaltou que a associação vem atuando intensamente na construção do ambiente regulatório nacional, participando das discussões sobre marco legal, adicionalidade, conteúdo local e combustíveis marítimos de baixa emissão. A executiva destacou ainda o fortalecimento da agenda internacional da entidade junto a organismos europeus, bancos multilaterais e instituições estratégicas voltadas ao desenvolvimento do mercado de derivados verdes. Para a dirigente, o offtaker tornou-se o “ticket dourado” da indústria, elemento indispensável para transformar projetos em empreendimentos efetivamente financiáveis.

Ao longo dos dois dias, o HySummit reuniu alguns dos principais nomes da transição energética brasileira e internacional. Participaram dos painéis Heloisa Borges, diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da EPE; Alexandra Steckmest, da Casa dos Ventos; Kátia Abreu; Janaina Ruas, diretora de Novas Energias da SLB; Isabelle Bela, gerente de tecnologias climáticas da Baker Hughes; Rafael Senra, da Finep; Maria Valenzuela, especialista internacional em combustíveis sustentáveis para aviação (SAF); Michelle Carvalho, gerente de Biorefino da Petrobras; Estela Luck, da Autoridade do Canal do Panamá; Sidnei Aranha, da Autoridade Portuária de Santos; Alessandra Grangeiro, do Complexo do Pecém; e Ezequiel Zago, do Porto do Açu.

Integração entre hidrogênio, carbono e indústria

A programação consolidou o caráter multidisciplinar do evento, com debates migrando do potencial teórico para questões ligadas à implementação, incluindo modelos de financiamento, logística, infraestrutura portuária, combustíveis marítimos, fertilizantes verdes e captura de carbono. O Congresso Carbon Capture destacou o papel do CCUS como uma das ferramentas essenciais para a descarbonização da indústria pesada, reunindo especialistas em regulação, mercado de carbono e armazenamento geológico. A convergência entre hidrogênio e captura de carbono foi uma das marcas da edição, evidenciando que a transição energética deverá ser construída por múltiplas rotas tecnológicas e não por soluções únicas.

Painel reunindo Heloisa Borges (EPE), Janaina Ruas (SLB), Isabelle Bela (Baker Hughes) e Danilo Perecin, representante da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo discutiu os avanços tecnológicos, os modelos de negócio e os desafios regulatórios do CCS no Brasil. A mensagem predominante foi clara: hidrogênio e captura de carbono não são tecnologias concorrentes, mas componentes de uma mesma arquitetura de descarbonização para setores de difícil abatimento, como siderurgia, cimento, química e refino

China amplia presença e aposta no mercado brasileiro

A participação chinesa foi expressiva, com fabricantes e fornecedores apresentando soluções para eletrolisadores, sistemas de armazenamento, células a combustível, compressores, equipamentos de processo e componentes para a cadeia do hidrogênio. A forte presença da China refletiu a posição do país como líder global na fabricação de equipamentos para hidrogênio e energias limpas.

A participação chinesa também evidenciou a estratégia de internacionalização de suas empresas, interessadas em acessar mercados emergentes capazes de combinar abundância de recursos renováveis e perspectivas de expansão industrial. A aproximação com o Brasil ocorre em um momento em que projetos ligados à produção de hidrogênio, amônia verde, fertilizantes e combustíveis sintéticos começam a avançar para fases de engenharia e estruturação financeira.

Abimaq vê oportunidades

A Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, apoiadora institucional do evento, destacou a oportunidade aberta pela transição energética para o fortalecimento da manufatura nacional. A entidade enfatiza que a cadeia do hidrogênio pode gerar demanda para fabricantes brasileiros de vasos de pressão, trocadores de calor, bombas, válvulas, compressores, sistemas de automação, equipamentos de processo e soluções digitais associadas à Indústria 4.0.

A avaliação da associação é que a expansão dos projetos de hidrogênio, captura de carbono e combustíveis de baixo carbono poderá impulsionar uma nova fase de industrialização, desde que políticas públicas e instrumentos de incentivo permitam maior participação da indústria brasileira na cadeia de suprimentos. Para a Abimaq, a transição energética representa não apenas uma agenda ambiental, mas uma oportunidade de agregar valor, desenvolver tecnologia e ampliar a competitividade do parque industrial nacional.

O Hyvolution Brasil refletiu uma mudança de paradigma no mercado: se até poucos anos atrás a discussão era marcada pelo entusiasmo em torno do potencial do hidrogênio, a edição de 2026 evidenciou uma postura mais pragmática, concentrada em competitividade, infraestrutura, financiamento, offtakers, integração entre cadeias produtivas e viabilidade econômica dos projetos. Temas como hidrogênio renovável, e-metanol, amônia verde, combustíveis sustentáveis para aviação (SAF), biogás, biometano, fertilizantes de baixo carbono, mobilidade sustentável e captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS) dominaram os debates.

Se há uma palavra que dominou os corredores do Hyvolution 2026, foi “offtaker”: a consolidação de compradores de longo prazo é considerada hoje o principal gargalo da indústria do hidrogênio. E Fernanda Delgado definiu os contratos de compra como o “ticket dourado” para produtores e desenvolvedores. Sem eles, projetos bilionários permanecem sem decisão final de investimento (FID).

Representantes da Finep, Banco Mundial, EPE e instituições internacionais defenderam mecanismos híbridos de financiamento, combinando garantias públicas, capital privado e compartilhamento de riscos para acelerar os primeiros projetos comerciais.

O consenso foi de que a curva de aprendizado do hidrogênio deverá repetir o que ocorreu com a energia solar e eólica, exigindo políticas públicas capazes de reduzir custos e ampliar a confiança dos investidores.

Ao final da primeira edição brasileira, o Hyvolution demonstrou que a discussão em torno do hidrogênio evoluiu da fase de promessas para a busca de modelos comerciais sustentáveis. O consenso predominante foi de que o setor atravessa um período de maior realismo, no qual infraestrutura, contratos, financiamento e integração industrial serão tão importantes quanto os avanços tecnológicos. O saldo do evento foi o de um mercado mais pragmático e orientado à construção de uma cadeia global capaz de transformar moléculas de baixo carbono em uma nova plataforma de desenvolvimento econômico.

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