O Sigenergy Day Europe 2026, realizado em 10 de setembro em Stuttgart, Alemanha, reuniu cerca de 400 investidores, empresas de engenharia, procurement e construção (EPCs) e especialistas do setor para discutir a evolução dos sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS). O evento colocou em destaque três vetores tecnológicos que começam a alterar a arquitetura dos projetos fotovoltaicos com armazenamento: gestão energética baseada em inteligência artificial, modularização dos sistemas de baterias e acoplamento em corrente contínua (CC).
Mais do que ampliar a capacidade instalada de baterias, a discussão apontou para uma mudança na forma como o armazenamento é integrado à geração renovável e operado dentro do sistema elétrico. A combinação entre geração solar, BESS, eletrônica de potência, software de gerenciamento e mecanismos de comercialização passa a determinar não apenas a eficiência energética do projeto, mas também sua capacidade de responder à volatilidade dos preços, prestar serviços à rede e gerar receita.
Um dos exemplos apresentados durante o evento foi o projeto fotovoltaico de 11,6 MWp associado a 20 MWh de armazenamento em Weissach im Tal, Baden-Württemberg. De acordo com a Sigenergy, a instalação utiliza 1.660 módulos de bateria de 12 kWh, 80 inversores fotovoltaicos de 100 kW e duas subestações de média tensão. O projeto foi desenvolvido pela Arausol, com tecnologia Sigenergy e apoio da distribuidora europeia Memodo.

A arquitetura adotada utiliza armazenamento modular distribuído próximo aos módulos fotovoltaicos. Segundo a empresa, a instalação foi concluída em 20 dias e o comissionamento em duas horas. O interesse técnico do projeto está menos no prazo divulgado e mais na possibilidade de reduzir a complexidade física da implantação: a descentralização pode diminuir distâncias de cabeamento, necessidade de equipamentos centralizados de grande porte e infraestrutura civil associada aos sistemas convencionais de armazenamento em contêineres.
CC e CA: a topologia passa a ser uma decisão econômica
Um dos pontos centrais da discussão foi a comparação entre acoplamento CC e acoplamento CA. Em sistemas com acoplamento CA, a bateria e o sistema fotovoltaico possuem conversores independentes e a energia precisa passar por etapas adicionais de conversão quando é transferida entre os dois sistemas. No acoplamento CC, geração fotovoltaica e armazenamento compartilham uma arquitetura no lado de corrente contínua antes da conversão para a rede.
A vantagem potencial do acoplamento CC está justamente na redução de conversões sucessivas. No projeto de Weissach im Tal, a Sigenergy afirma que a configuração permite direcionar a energia fotovoltaica diretamente para as baterias, evitando algumas etapas de conversão e a necessidade de determinados equipamentos dedicados. A empresa estima, nesse caso específico, um aumento de 3% a 4% na produção total de energia.
Esse número, entretanto, não deve ser interpretado como uma vantagem universal do acoplamento CC. A escolha da topologia depende da configuração elétrica existente, do perfil de geração e consumo, da necessidade de retrofit, das características dos inversores e baterias, das condições de conexão à rede e do modelo de operação previsto para o BESS.
Para projetos novos, uma arquitetura CC pode oferecer vantagens de integração. Em parques fotovoltaicos já existentes, porém, o acoplamento CA pode apresentar maior flexibilidade para adicionar armazenamento sem modificar profundamente a infraestrutura de geração. Portanto, a comparação deve considerar o rendimento de conversão de toda a cadeia, CAPEX, OPEX, disponibilidade, expansão futura e receita esperada, e não apenas a eficiência nominal de um componente.
Modularização altera a engenharia de implantação
Outro aspecto relevante é a modularidade. Em vez de concentrar dezenas de MWh em grandes blocos de armazenamento, sistemas modulares distribuem a capacidade por unidades menores que podem ser instaladas próximas à geração.
No projeto apresentado pela Arausol, os módulos BESS foram instalados diretamente sob as estruturas dos painéis fotovoltaicos. Além de reduzir a ocupação adicional do terreno, essa configuração procura aproximar fisicamente geração e armazenamento.
A consequência é uma mudança na engenharia do sistema: o projeto deixa de ser simplesmente uma usina fotovoltaica à qual se acrescenta uma bateria e passa a ser concebido como uma infraestrutura integrada de geração, armazenamento, conversão e controle.
Essa integração, entretanto, aumenta a importância da coordenação entre equipamentos. Inversores, baterias, sistemas de gerenciamento de energia (EMS), proteção elétrica, transformadores, comunicação e sistemas de supervisão precisam operar de forma coordenada. Quanto maior a integração entre hardware e software, maior também a necessidade de interfaces bem definidas, interoperabilidade e mecanismos de diagnóstico.
IA começa a atuar sobre o valor econômico da energia armazenada
O segundo eixo do evento foi a utilização de IA na operação dos ativos. A aplicação mais relevante não está necessariamente na previsão isolada da geração solar, mas na capacidade de combinar previsão, estado de carga da bateria, preços de energia, restrições operacionais e condições da rede para decidir quando carregar, descarregar ou manter a energia armazenada.
A Esforin apresentou sua plataforma FLEXtrading, baseada em IA, para gerenciamento e comercialização de ativos fotovoltaicos associados a baterias. Segundo dados apresentados pela empresa durante o evento, instalações PV-BESS poderiam alcançar receitas de até três vezes as de usinas solares isoladas em determinadas condições de mercado.
Esse tipo de comparação precisa ser associado ao mercado e ao período analisado, porque a rentabilidade do armazenamento depende diretamente da volatilidade dos preços, das regras de comercialização, dos ciclos permitidos da bateria, da degradação, dos custos de operação e das oportunidades de serviços ancilares.
O princípio técnico, porém, é relevante: a bateria deixa de ser apenas um dispositivo de armazenamento e passa a ser um ativo operacional flexível. Seu valor econômico depende da capacidade de decidir, em cada intervalo de tempo, qual utilização do MWh armazenado produz maior retorno dentro das restrições técnicas do sistema.
VPP transforma ativos distribuídos em uma infraestrutura coordenada
Essa lógica se amplia com as Virtual Power Plants (VPPs). A agregação digital permite coordenar múltiplos sistemas de geração e armazenamento distribuídos como se fossem um portfólio operacional.
Para o sistema elétrico, isso cria uma nova camada entre o ativo físico e o mercado. Uma bateria residencial, comercial ou industrial deixa de ser necessariamente um recurso isolado e pode contribuir para uma capacidade agregada de flexibilidade.
A LUOX Energy apresentou durante o evento um modelo baseado na integração entre os equipamentos da Sigenergy e sua plataforma de operação de mercado. O objetivo é permitir que proprietários de ativos distribuídos monetizem flexibilidade nos mercados de energia.
A evolução das VPPs depende, contudo, de questões que vão além do software: telemetria confiável, comunicação em tempo real, cibersegurança, controle de acesso, interoperabilidade, qualidade dos dados e regras regulatórias para participação de recursos distribuídos no mercado.
Segurança continua sendo requisito de projeto
A expansão dos BESS também aumenta a importância da segurança e da confiabilidade. Sistemas eletroquímicos de grande porte introduzem riscos específicos associados à operação das células, gerenciamento térmico, propagação de falhas e resposta a eventos anormais.
Durante o Sigenergy Day Europe, Bernhard Rill, da Battery Energy Storage Systems Association (BVES), destacou a necessidade de combinar armazenamento, flexibilidade da rede e requisitos de segurança. A Sigenergy apresentou sua arquitetura de segurança de seis camadas para o SigenStack e afirmou que o sistema é capaz de detectar e suprimir eventos de fuga térmica em segundos.
A discussão sobre segurança deve, entretanto, ser analisada em toda a cadeia. A proteção de um BESS não depende exclusivamente da velocidade de resposta do sistema de gerenciamento. Envolve projeto elétrico, seleção e caracterização das células, gerenciamento térmico, proteção contra sobrecorrente, detecção de falhas, compartimentação, sistemas de combate a incêndio, procedimentos de emergência, ensaios, manutenção e requisitos normativos aplicáveis.
A DNV também participou do evento discutindo segurança, confiabilidade e viabilidade financeira de sistemas de armazenamento em escala de serviços públicos. A empresa informou ter realizado uma revisão técnica do inversor solar da Sigenergy, resultando em um relatório específico de revisão tecnológica.
Do armazenamento ao gerenciamento ativo da energia
O que emerge das discussões em Stuttgart é uma mudança de função do BESS. A bateria passa a fazer parte de uma arquitetura mais ampla na qual eletrônica de potência, armazenamento, geração renovável, software, inteligência artificial e mercado de energia são elementos interdependentes.
Nesse modelo, a pergunta deixa de ser apenas quantos MWh uma instalação consegue armazenar. Passa a envolver quanto da energia gerada pode ser efetivamente aproveitada, com que perdas, durante quantos ciclos, sob quais condições de mercado e com qual nível de disponibilidade e segurança.
A modularização pode reduzir barreiras físicas à implantação; o acoplamento CC pode melhorar a eficiência em determinadas arquiteturas; as VPPs podem transformar ativos distribuídos em recursos agregados; e a IA pode otimizar decisões de operação e comercialização.
O desafio técnico será integrar essas camadas sem criar novos pontos de falha ou dependências excessivas de um único fornecedor. Para os projetos de próxima geração, interoperabilidade, cibersegurança, observabilidade, manutenção e gestão do ciclo de vida tendem a ser tão importantes quanto a capacidade nominal das baterias.
O projeto de Weissach im Tal funciona, nesse contexto, como um exemplo de uma tendência mais ampla: a evolução do armazenamento está deixando de ser uma questão exclusivamente eletroquímica para se tornar um problema de arquitetura de sistemas energéticos. A competitividade do BESS dependerá cada vez mais da capacidade de transformar armazenamento físico em flexibilidade operacional e, finalmente, em valor econômico para a rede e para o proprietário do ativo.

