As reuniões anuais do Sistema IECEx realizadas entre 14 e 18 de setembro, em Pequim, na China, reuniram representantes dos Comitês Nacionais dos países participantes para discutir a evolução da avaliação da conformidade de equipamentos, serviços e competências relacionados a atmosferas explosivas. O encontro ocorre em um ano simbólico: criado em 1996, o IECEx completa 30 anos em 2026. Ao longo desse período, o sistema deixou de concentrar sua atuação na certificação de equipamentos e passou a abranger também serviços, instalações e competências pessoais, acompanhando a necessidade de uma abordagem mais ampla da segurança “Ex”.

O princípio é particularmente relevante para setores como petróleo e gás, química, mineração, farmacêutica, armazenamento de grãos, tratamento de efluentes e outras atividades nas quais gases, vapores ou poeiras combustíveis podem formar atmosferas explosivas. O IECEx estabelece regras, procedimentos e formatos harmonizados para a avaliação da conformidade, enquanto os organismos de certificação reconhecidos pelo sistema, os ExCBs, realizam os processos de avaliação, ensaio e certificação. Os resultados são disponibilizados em uma base internacional de certificados, permitindo a fabricantes, usuários e autoridades verificar a situação dos produtos e serviços certificados.
A evolução do sistema é importante porque um certificado de conformidade “Ex” não significa, isoladamente, que uma instalação esteja segura durante toda a sua operação. A certificação demonstra a conformidade do equipamento avaliado com determinados requisitos e condições estabelecidos nas normas e no certificado. Na instalação real, entretanto, entram em cena outros fatores: classificação de áreas, seleção do equipamento segundo EPL e grupo, classe de temperatura, tipo de proteção, condições ambientais, montagem, documentação, inspeção, manutenção, reparos, modificações e competência das pessoas responsáveis pelas atividades “Ex”. A própria estrutura normativa do IECEx contempla, além da certificação de equipamentos, esquemas específicos para instalações e serviços, inspeção e manutenção e reparo de equipamentos.
Essa abordagem desloca a discussão de “equipamento certificado” para “instalação mantida em condição de conformidade”. Uma instalação inicialmente projetada e montada de acordo com os requisitos aplicáveis pode perder essa condição ao longo do tempo em função de alterações de processo, degradação, intervenções, manutenção inadequada, modificações não controladas ou perda de competência. Por isso, a gestão do ciclo total de vida passa a integrar a estratégia de segurança: projeto e seleção, aquisição, instalação, comissionamento, inspeção inicial, operação, inspeções periódicas, manutenção, modificações, reparos e recuperação precisam ser considerados como etapas interdependentes.
A estrutura do IECEx reflete essa lógica. O IECEx Certified Equipment Scheme, associado ao IECEx 02, trata da avaliação e certificação de equipamentos elétricos e mecânicos destinados a atmosferas explosivas. O Certified Service Facilities Scheme, IECEx 03, contempla diferentes atividades de serviços, incluindo seleção de equipamentos e projeto de instalações, instalação e inspeção inicial, inspeção e manutenção e reparo, revisão e recuperação. Já o IECEx Certified Persons Scheme, IECEx 05, trata da certificação de competências pessoais para atividades relacionadas a atmosferas explosivas.
A dimensão humana também ganhou espaço nas discussões de 2026. Entre os documentos em evolução no sistema está a relação entre o esquema de certificação de competências pessoais e a nova ISO/IEC 17024:2026, norma que estabelece requisitos para organismos responsáveis pela certificação de pessoas. Documentos do ExPCC publicados antes das reuniões de Pequim mostram que o comitê vinha analisando as mudanças introduzidas pela nova edição da norma. Um dos pontos particularmente atuais é a utilização de inteligência artificial em processos de certificação, tema que coloca novas exigências sobre supervisão humana, validação de resultados e confiabilidade das avaliações.
A discussão normativa alcança também a gestão da qualidade dos fabricantes. O modelo IECEx utiliza avaliação do sistema de qualidade do fabricante associada aos processos de certificação de equipamentos. O Quality Assessment Report (QAR) é parte desse mecanismo de acompanhamento, buscando assegurar que a produção mantenha as características relevantes do equipamento avaliado. Dessa forma, a conformidade não termina na realização do ensaio de um exemplar: existe uma estrutura de avaliação e acompanhamento destinada a manter a consistência da produção.
Para a indústria brasileira, o avanço do IECEx tem uma dimensão adicional. O Brasil participa do sistema por meio de seu National Member Body, o COBEI, e integra a estrutura internacional de avaliação da conformidade. A ampliação da infraestrutura nacional de laboratórios, organismos de certificação, fabricantes e profissionais habilitados reduz a necessidade de deslocamento de processos para outros mercados e pode facilitar a inserção internacional de produtos brasileiros destinados a áreas classificadas.
O marco de 30 anos também evidencia uma transformação da própria indústria “Ex”. A certificação originalmente associada sobretudo a equipamentos elétricos passou a envolver equipamentos mecânicos, serviços especializados e competências pessoais. Essa expansão acompanha a incorporação de novas tecnologias e novos riscos industriais, incluindo hidrogênio, novas configurações de plantas, sistemas digitais, automação e equipamentos mecânicos utilizados em áreas classificadas. O próprio IECEx destaca aplicações que vão de refinarias, plataformas e plantas químicas a instalações associadas a hidrogênio, amônia, GNL e outras fontes e combustíveis.
Para engenharia, automação e instrumentação, a principal mensagem das reuniões de Pequim é objetiva: certificação é uma etapa da segurança “Ex”, não seu ponto final. O desempenho seguro de uma instalação depende da combinação entre equipamento adequado, projeto correto, instalação conforme os requisitos, inspeção, manutenção, reparo, gestão das modificações e competência das pessoas envolvidas. É essa visão sistêmica que transforma a avaliação da conformidade em uma ferramenta de gestão da integridade ao longo do ciclo de vida.
A participação chinesa no sistema IECEx deixou de ser apenas institucional e passou a integrar a infraestrutura de avaliação da conformidade para atmosferas explosivas. A China é membro fundador do IECEx e, segundo documentos do próprio sistema, começou a atuar como organismo de certificação e laboratório de ensaios em 2005, tendo sediado a reunião anual de 2006, em Shanghai. Em 2026, quando Pequim recebeu a reunião anual, o país já contava com seis organismos de certificação, 15 laboratórios e três instituições de treinamento integrados ao IECEx, responsáveis pela emissão de cerca de 5 mil certificados e relatórios. A experiência também se articula ao sistema regulatório chinês: desde 2019, produtos elétricos para atmosferas explosivas estão sujeitos à certificação compulsória CCC, que passou a reconhecer resultados de certificações IECEx emitidas no exterior; até 2026, eram quase 3 mil resultados reconhecidos, segundo a Administração Estatal de Regulamentação do Mercado da China.
Ao completar três décadas, o IECEx se consolida, portanto, não apenas como mecanismo de certificação internacional, mas como uma infraestrutura de harmonização técnica para uma indústria na qual uma falha de seleção, instalação, manutenção ou intervenção pode alterar as condições de proteção originalmente estabelecidas.

