II Congresso Nacional Portuário coloca infraestrutura, tecnologia e segurança jurídica no centro da competitividade

Realizado em Santos nos dias 20 e 21 de agosto de 2026, o II Congresso Nacional Portuário reuniu representantes do poder público, órgãos de controle, reguladores, autoridades portuárias, operadores, investidores, empresas de logística e especialistas para discutir um problema que ultrapassa a operação dos terminais: como transformar o sistema portuário brasileiro em uma infraestrutura capaz de acompanhar o crescimento e a crescente complexidade do comércio exterior. Organizado pela ABFP Academia Brasileira de Formação e Pesquisa, o congresso teve como eixo o “novo sistema portuário brasileiro”, articulando eficiência, tecnologia, sustentabilidade, governança e competitividade.

A programação mostrou que a discussão sobre competitividade portuária está deixando de ser exclusivamente uma questão de capacidade física. Governança, segurança jurídica, livre concorrência, novos modelos de negócios, infraestrutura, investimentos, ESG, transição energética, segurança e integração às cadeias globais foram tratados como partes de um mesmo sistema. Essa abordagem é importante porque um porto pode ampliar cais e capacidade de movimentação, mas continuará enfrentando gargalos se rodovias, ferrovias, acessos, retroáreas, processos aduaneiros e sistemas digitais não evoluírem na mesma velocidade.

Segurança jurídica como infraestrutura para o investimento

A abertura do congresso colocou segurança jurídica, desenvolvimento econômico e sustentabilidade no centro da discussão. O conferencista foi o ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), em mesa presidida pelo ministro Douglas Alencar Rodrigues, do Tribunal Superior do Trabalho.

O tema ganhou uma dimensão prática durante o evento com a discussão envolvendo o Tecon Santos 10, megaterminal de contêineres previsto para o Porto de Santos. Segundo Bruno Dantas, a alteração promovida pelo Governo Federal na modelagem do leilão deverá levar à anulação da análise anteriormente realizada pelo TCU e ao reinício da tramitação no Tribunal.

O episódio evidencia uma questão estrutural: projetos portuários envolvem investimentos de grande porte e horizontes de retorno longos. Mudanças de modelagem, interpretações regulatórias ou atrasos na tomada de decisão podem produzir efeitos econômicos que vão muito além do empreendimento específico, afetando cronogramas, financiamento e planejamento da cadeia logística.

Terminais privados e competição

Outro eixo importante foi a discussão sobre livre concorrência, Terminais de Uso Privado (TUPs) e novos modelos de negócios. O painel reuniu, entre outros, Jesualdo Conceição Silva, da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), e Fabio Siccherino, diretor-presidente da DP World no Brasil.

Da esquerda para a direita: Leonardo Ribeiro, gestor de Relações Institucionais, Governamentais e Sindicais da ADM Brasil; Anderson Pomini, presidente da Autoridade Portuária de Santos; Jesualdo Silva, diretor-presidente da ABTP; e Luiz Araujo, diretor Comercial da ECOPORTO SANTOS.

Para o setor privado, a questão central é como criar condições para que novos investimentos ampliem a capacidade logística sem produzir um ambiente regulatório que aumente incertezas ou dificulte a competição. A ABTP destacou justamente a necessidade de regras mais claras e de maior liberdade para empreender como condições para ampliar a capacidade dos terminais e responder à demanda do comércio exterior.

Tecnicamente, isso significa olhar o porto como um sistema de capacidade logística, e não simplesmente como um conjunto de berços, guindastes e pátios. A eficiência de um terminal depende da sincronização entre chegada de navios, disponibilidade de equipamentos, movimentação de cargas, armazenagem, acessos terrestres, sistemas de informação e conexão com os demais elos da cadeia.

Infraestrutura: o gargalo não termina no cais

O painel dedicado a infraestrutura e investimentos reuniu representantes de operadores, investidores e empresas que dependem diretamente da logística portuária, incluindo Santos Brasil, Transbrasa, Infra S.A. e Suzano.

A discussão reforça uma tendência que aparece cada vez mais no planejamento logístico: porto e hinterlândia (área econômica e logística atendida pelo porto) precisam ser tratados como uma única infraestrutura operacional.

Ferrovias, rodovias, acessos, retroáreas e terminais precisam funcionar de maneira coordenada. Caso contrário, investimentos realizados dentro do complexo portuário podem simplesmente deslocar o gargalo para outro ponto da cadeia.

Essa integração é especialmente relevante para o Porto de Santos, cuja expansão está associada a projetos de infraestrutura que ultrapassam os limites físicos da autoridade portuária. O debate sobre o futuro do complexo envolve, portanto, não apenas novos terminais, mas também a capacidade de conectar diferentes modais e organizar fluxos cada vez maiores de cargas.

Transição energética chega à operação portuária

A sustentabilidade também deixou de aparecer no congresso apenas como uma agenda ambiental. O painel sobre ESG e transição energética nos portos colocou em discussão a necessidade de incorporar sustentabilidade à própria infraestrutura e à operação portuária. Participaram representantes da área ambiental, da Capitania dos Portos, do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) e da Autoridade Portuária de Santos.

E esse movimento tem implicações técnicas relevantes: a transição energética dos portos envolve eletrificação de equipamentos, fornecimento de energia em terra (shore power), combustíveis de menor intensidade de carbono, eficiência energética, gestão de emissões, tratamento de resíduos e monitoramento ambiental. Para terminais de grande porte, isso significa integrar energia, automação, dados e operação logística.

A discussão sobre infraestrutura verde também apareceu entre os destaques divulgados pela organização do congresso, reforçando a necessidade de planejamento de longo prazo para a transição energética.

Segurança passa a ser questão operacional e digital

Outro aspecto relevante foi a abordagem da segurança portuária como um problema integrado. O painel sobre segurança e competitividade reuniu representantes da Receita Federal, Polícia Federal, setor de navegação e academia. Foram discutidos prevenção, integração institucional, compliance e proteção das operações.

Para um porto digitalizado, entretanto, segurança não pode ser limitada ao controle físico de acesso. A evolução para portos inteligentes amplia a superfície tecnológica da infraestrutura: sistemas de gestão de terminais, sensores, redes industriais, automação de equipamentos, plataformas logísticas, sistemas de identificação e integração com órgãos públicos passam a fazer parte do ambiente operacional.

Uma falha cibernética em um sistema portuário pode ter efeito equivalente a uma interrupção física de infraestrutura. Por isso, cibersegurança, continuidade operacional e segurança da informação tendem a se tornar componentes inseparáveis da segurança portuária.

IA, automação e o porto como sistema de dados

Embora a programação oficial tenha sido estruturada em torno de governança, infraestrutura, sustentabilidade e competitividade, relatos de participantes também destacaram inteligência artificial, automação, cibersegurança e portos inteligentes entre os assuntos associados ao futuro do setor.

A transformação digital pode modificar desde a programação de navios até a movimentação automática de contêineres e a manutenção de equipamentos.

Em um terminal instrumentado, dados de guindastes, veículos, sistemas de pátio, sensores ambientais, energia e movimentação de cargas podem alimentar modelos analíticos capazes de antecipar falhas, otimizar rotas internas e reduzir tempos de espera.

Mas existe uma condição: digitalizar um processo ineficiente não necessariamente o torna eficiente. Antes de aplicar IA, o porto precisa ter processos padronizados, dados confiáveis, integração entre sistemas e uma arquitetura capaz de garantir interoperabilidade.

Esse é um ponto especialmente importante para a indústria de automação: o porto inteligente não será definido pela quantidade de sensores instalados, mas pela capacidade de transformar dados operacionais em decisões coordenadas.

A conferência de encerramento foi dedicada ao tema “Governança Pública e Desenvolvimento Econômico: o Papel Estratégico dos Portos na Nova Economia Global”, com o ministro Vital do Rêgo, presidente do TCU.

A escolha do tema sintetiza a principal mensagem do congresso. O porto não é apenas uma infraestrutura de transporte. É uma plataforma industrial, energética, logística e tecnológica que influencia diretamente a competitividade das exportações brasileiras e o custo dos produtos que chegam ao país.

A próxima geração de portos terá de lidar simultaneamente com aumento de capacidade, digitalização, automação, cibersegurança, descarbonização e maior integração multimodal.

Para o Brasil, o desafio é evitar que esses processos avancem de maneira fragmentada. Um terminal pode ser altamente automatizado, mas continuar limitado por um acesso ferroviário insuficiente. Um porto pode instalar sistemas de energia de baixo carbono, mas não ter capacidade elétrica para atender à eletrificação crescente. Um projeto pode possuir tecnologia de ponta, mas enfrentar anos de incerteza regulatória.

A competitividade portuária, portanto, começa a depender menos de um equipamento isolado e mais da capacidade de integrar infraestrutura, tecnologia, energia, dados e governança. É essa integração que determinará se o sistema portuário brasileiro conseguirá acompanhar uma economia em transformação e não apenas movimentar mais cargas.

Últimas Notícias

Mundo chega a 5 milhões de robôs nas fábricas, mas produtividade exige mais que automação

A Solversys comenta dados divulgados pela Federação Internacional de Robótica (IFR): o mundo chegou a 5 milhões de robôs industriais em operação em 2025,...

ANYbotics transforma portas em parte da infraestrutura autônoma de inspeção

A inspeção robótica industrial esbarra em um problema aparentemente simples, mas tecnicamente importante: uma porta com controle de acesso pode interromper uma missão autônoma....

Toyota renova e amplia aposta em ônibus a célula combustível

A Toyota lançou a nova geração do Sora, ônibus urbano movido a célula a combustível (FC), desenvolvido em conjunto com a Isuzu como parte...