Intermodal lotada reforça importância do setor


A 30ª edição da Intermodal South America 2026, realizada de 14 a 16 de abril no Distrito Anhembi, foi evento relevante na agenda logística brasileira ao refletir, de forma simultânea, pressões globais sobre custos, reconfiguração das cadeias de suprimento e aceleração da digitalização operacional. Consolidado como o maior evento de logística e transporte da América Latina, o encontro reuniu mais de 700 marcas, cerca de 50 mil visitantes de 90 países e mais de 90 horas de conteúdo técnico — um indicativo claro da centralidade do setor na economia contemporânea.

A abertura do evento foi pautada por um diagnóstico direto: a logística global entrou em uma fase de alta pressão estrutural. Segundo materiais oficiais do evento, o cenário atual é marcado por “incertezas geopolíticas, aumento dos custos operacionais e reconfiguração das rotas comerciais”, o que eleva a urgência por soluções que aumentem a fluidez das cadeias logísticas. Esse enquadramento foi reforçado nas primeiras discussões do Interlog Summit, eixo de conteúdo que integrou o Congresso Intermodal e a Conferência Nacional de Logística, posicionando o evento como um espaço de convergência entre estratégia macroeconômica e operação logística.

Ao longo dos três dias, a Intermodal 2026 evidenciou que o principal vetor de transformação do setor é a combinação entre pressão de custos e adoção tecnológica. A alta do petróleo e seus impactos sobre fretes, somada às tensões geopolíticas e à volatilidade das rotas comerciais, emergiram como temas dominantes. Como sintetiza a cobertura especializada, o evento refletiu um ambiente em que a logística é “pressionada por custos, mudanças regulatórias e avanço tecnológico”, exigindo respostas simultâneas em eficiência, resiliência e inovação.

Nesse contexto, a digitalização apareceu não como tendência, mas como resposta operacional. Soluções apresentadas nos estandes e painéis incluíram plataformas de inteligência artificial para previsão climática aplicada a operações portuárias, sistemas de gestão logística em tempo real, automação de centros de distribuição, robótica autônoma e ferramentas de classificação fiscal automatizada. O conjunto dessas tecnologias aponta para uma transformação estrutural: a logística passa a operar cada vez mais orientada por dados, com maior capacidade de antecipação e adaptação a cenários voláteis.

Paralelamente, a agenda ESG e energética ganhou protagonismo. Tecnologias de eletrificação de equipamentos, uso de combustíveis de baixo carbono e estratégias de redução de emissões foram amplamente discutidas, refletindo uma pressão crescente por sustentabilidade sem perda de eficiência. Exemplos concretos incluem a expansão de frotas elétricas e o uso de inteligência artificial para otimização de rotas e consumo energético. Essa agenda conecta diretamente a logística à transição energética — um movimento que redefine investimentos e modelos operacionais.

Outro eixo central foi a reconfiguração das cadeias logísticas diante de mudanças regulatórias e comerciais. A reforma tributária brasileira e o acordo Mercosul–União Europeia foram apontados como fatores que devem alterar profundamente a lógica de redes logísticas, portos e corredores de exportação. Nesse sentido, a Intermodal funcionou como um fórum de antecipação estratégica, ao discutir como essas mudanças podem impactar fluxos de carga, localização de estoques e decisões de investimento.

A questão da infraestrutura também permeou os debates, com destaque para o papel do Porto de Santos como hub logístico crítico. A priorização de navios de combustíveis para mitigar riscos de desabastecimento exemplifica como logística e segurança energética passam a operar de forma integrada — um tema recorrente nas discussões do evento.

No campo da multimodalidade, a integração entre modais — rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo — foi tratada como condição essencial para ganhos de eficiência sistêmica. A própria organização do evento destacou a importância de conectar infraestrutura, tecnologia e políticas públicas para viabilizar uma logística mais fluida e competitiva. Essa visão é reforçada pela crescente adoção de cabotagem, rodocabotagem e corredores logísticos integrados.

Entre os principais nomes da programação, o economista Marcos Troyjo trouxe uma leitura geoeconômica das cadeias globais ao afirmar que, em um cenário de fragmentação internacional, “é fundamental ter alternativas” comerciais e logísticas, destacando a necessidade de diversificação de parceiros e rotas. A fala sintetiza uma das mensagens centrais do evento: resiliência logística passa a ser tão importante quanto eficiência.

Na visão dos organizadores, a edição 2026 simboliza um novo estágio do setor. Segundo Fernando D’Ascola, o evento se posiciona como espaço para “debates essenciais sobre multimodalidade, ESG, intralogística e comércio exterior”, reforçando seu papel como plataforma de decisões estratégicas para o futuro da logística na região.

No encerramento, a síntese que emergiu dos debates é clara: a logística global entrou em uma fase de complexidade ampliada, na qual eficiência operacional, digitalização e capacidade de adaptação tornam-se atributos inseparáveis. A Intermodal 2026 não apenas refletiu esse cenário, mas evidenciou que o setor está migrando de uma lógica de otimização incremental para uma lógica de reconfiguração estrutural — na qual tecnologia, geopolítica e sustentabilidade passam a atuar de forma interdependente.

Em termos práticos, o evento deixa uma conclusão estratégica: a competitividade logística não será mais definida apenas por custo ou infraestrutura isolada, mas pela capacidade de integrar dados, modais e decisões em tempo real. Nesse sentido, a Intermodal South America 2026 reafirma seu papel não apenas como feira de negócios, mas como um dos principais termômetros da transformação logística no Brasil e na América Latina.

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