Impulsionados por investimentos regionais e subsídios governamentais, o investimento global em fábricas de semicondutores até 2030 deve ultrapassar US$1,5 trilhão — valor é equivalente ao total investido nos últimos 20 anos, indica o relatório Semiconductor & Beyond 2026, da PwC.
O estudo traz uma análise quantitativa da cadeia global de valor dos semicondutores, com destaque para uma fase de transformação acelerada no setor. O crescimento robusto na construção de novas fábricas reflete esforços estratégicos para fortalecer cadeias de suprimentos e atender à demanda crescente por tecnologias como inteligência artificial (IA) e veículos autônomos.
A projeção para o mercado global de semicondutores é otimista: atingir mais de US$ 1 trilhão até 2030. O setor de servidores e redes será um pilar central, com expectativa de faturamento acima de US$ 300 bilhões, impulsionado pela urgência de aceleradores de IA e memórias de alta largura de banda (HBM) nos data centers.

Daniel Martins, sócio de Energia e Serviços de Utilidade Pública da PwC Brasil, avalia que o Brasil, mesmo com desafios de infraestrutura, possui uma janela de oportunidade. O país pode se posicionar estrategicamente através da inovação em áreas como mobilidade elétrica ou pela participação em cadeias globais de valor, aproveitando a demanda por chips em veículos conectados e automação industrial.
O estudo da PwC também aponta que o segmento automotivo será o segundo que mais crescerá, com taxa anual de 10,7%, impulsionado pelos veículos elétricos e tecnologias de direção autônoma. Até 2030, espera-se que híbridos e elétricos representem cerca de 50% das vendas de veículos, e semicondutores de potência respondam por mais da metade do custo total de semicondutores nesses veículos.
Isso deve acelerar a adoção de semicondutores de banda larga como carbeto de silício (SiC) e nitreto de gálio (GaN), substituindo o silício tradicional e aumentando a eficiência, densidade de potência e velocidade de recarga. Daniel Martins explica que o Brasil tem uma das maiores reservas de bauxita do mundo, concentradas no Pará (região de Trombetas, Juruti e Paragominas). Mas, como hoje, a prioridade do país é o alumínio, no processo de refino da bauxita, o gálio aparece em baixíssima concentração (algumas dezenas de ppm na solução cáustica). Por isso, a maioria das refinarias brasileiras não recupera o gálio, deixando-o no resíduo (lama vermelha). Martins aponta que o Brasil pode se destacar na extração de gálio com o devido investimento em tecnologia. No entanto, o passo seguinte — a produção de nitreto de gálio semicondutor — exige um avanço tecnológico em purificação, epitaxia e wafer fabs, competências ainda não dominadas localmente. A conclusão é clara: é preciso uma estratégia industrial e tecnológica robusta que conecte mineração, química avançada e a indústria de chips para garantir a relevância brasileira no cenário global.

