Jackdaw e Rosebank colocam novo governo britânico diante do maior teste entre segurança energética e metas climáticas

A definição sobre o futuro dos projetos Jackdaw e Rosebank, no Mar do Norte, tornou-se um dos primeiros grandes desafios do governo do primeiro-ministro Andy Burnham, que assumiu o cargo em 20 de julho após a renúncia de Keir Starmer.

A decisão caberá à secretária de Estado para Segurança Energética e Net Zero, Miatta Fahnbulleh, após o encerramento das consultas públicas conduzidas pelo regulador ambiental offshore britânico (OPRED), previstas para 10 de agosto (Jackdaw) e 17 de agosto (Rosebank).

Mais do que autorizar dois empreendimentos offshore, a decisão será interpretada como um indicativo da política energética do novo governo trabalhista para a próxima década: como conciliar a segurança do abastecimento, a reindustrialização e a competitividade da economia britânica com o compromisso de neutralidade climática.

Projetos já licenciados, mas dependentes de novo consentimento ambiental

Jackdaw e Rosebank não envolvem novas licenças de exploração. Ambos receberam autorizações durante o governo conservador, porém tiveram seus consentimentos de produção anulados em janeiro de 2025 após decisão da justiça escocesa que determinou a reavaliação dos impactos climáticos associados às chamadas emissões de Escopo 3 – aquelas geradas pela utilização final do petróleo e do gás produzidos. A decisão decorreu da aplicação do precedente estabelecido pela Suprema Corte britânica no caso Finch, que ampliou as exigências para avaliações ambientais de projetos fósseis.

Após a revisão das Declarações de Impacto Ambiental, os projetos retornaram ao processo regulatório. As consultas públicas conduzidas pelo Offshore Petroleum Regulator for Environment and Decommissioning (OPRED) constituem a etapa final antes da manifestação do Departamento de Segurança Energética e Net Zero (DESNZ).

Investimentos de bilhões

Os dois empreendimentos representam atualmente o maior pacote privado de investimentos em petróleo e gás aguardando autorização no Reino Unido. Segundo a operadora Adura, o projeto Rosebank, localizado a oeste das Ilhas Shetland, prevê investimentos de aproximadamente £ 8,7 bilhões, enquanto o campo de gás Jackdaw, no Mar do Norte Central, representa outros £ 2,1 bilhões. Somados, os investimentos alcançam £ 10,8 bilhões, dos quais mais de 75% deverão permanecer na economia britânica por meio da cadeia de fornecedores, engenharia, fabricação de equipamentos e serviços offshore. A empresa estima que mais de £ 3 bilhões já tenham sido investidos nas fases iniciais de desenvolvimento e construção.

De acordo com a Adura, os dois projetos poderão gerar £ 28,7 bilhõesem Valor Adicionado Bruto (GVA) ao longo de sua vida útil, além de sustentar milhares de empregos qualificados na indústria offshore britânica.

Primeira decisão estratégica de Andy Burnham

Durante a campanha pela liderança do Partido Trabalhista, Burnham defendeu a manutenção da promessa eleitoral de não conceder novas licenças para exploração de petróleo e gás. Entretanto, Jackdaw e Rosebank ocupam uma posição jurídica distinta, pois foram licenciados antes da mudança de governo e agora aguardam apenas novo consentimento ambiental.

Essa distinção permitiu que parte da indústria argumentasse que a aprovação dos projetos não configuraria descumprimento do manifesto trabalhista. Ainda assim, o tema divide o próprio governo e deverá representar um dos primeiros testes da capacidade de Burnham de equilibrar crescimento econômico e compromissos climáticos.

Miatta Fahnbulleh muda o discurso

A decisão também coloca sob os holofotes Miatta Fahnbulleh. Antes de ingressar no governo, quando dirigia a New Economics Foundation, ela assinou manifestações públicas contrárias ao desenvolvimento de Rosebank e defendia o encerramento dos investimentos em novos projetos fósseis.

Como secretária de Energia, entretanto, Fahnbulleh passou a adotar um discurso mais pragmático, reconhecendo que petróleo e gás continuarão desempenhando papel relevante durante a transição energética britânica e que decisões futuras deverão considerar simultaneamente segurança energética, empregos e descarbonização.

Indústria pede rapidez

A indústria offshore britânica intensificou a pressão sobre o novo governo.

Em documento encaminhado ao OPRED durante as consultas públicas, a Offshore Energies UK (OEUK) afirmou que a aprovação de Jackdaw e Rosebank é essencial para fortalecer a segurança energética do Reino Unido, preservar empregos altamente qualificados e impulsionar investimentos privados em infraestrutura offshore.

A entidade ressalta que Jackdaw poderá iniciar produção poucos meses após a obtenção do consentimento, enquanto Rosebank representa o maior projeto energético atualmente aguardando autorização regulatória no país.

Ambientalistas mantêm oposição

Organizações ambientais continuam contestando ambos os projetos.

Pesquisadores ligados ao Tyndall Centre for Climate Change Research enviaram carta aberta ao primeiro-ministro defendendo que a aprovação dos campos seria incompatível com os compromissos climáticos assumidos pelo Reino Unido e pelo próprio Andy Burnham durante sua gestão como prefeito da Grande Manchester.

Grupos como Greenpeace, Uplift e Fossil Free London sustentam que a produção adicional de petróleo e gás terá impacto limitado sobre os preços da energia no mercado doméstico, ao mesmo tempo em que ampliará as emissões globais associadas ao consumo desses combustíveis. Protestos em frente ao DESNZ marcaram os primeiros dias do novo governo.

Impactos para a cadeia global de óleo e gás

Independentemente do desfecho, a decisão britânica será acompanhada por toda a indústria internacional de exploração e produção.

Caso os projetos recebam autorização definitiva, o Reino Unido sinalizará que pretende preservar investimentos estratégicos em petróleo e gás durante a transição energética, desde que submetidos a avaliações ambientais mais rigorosas. Uma eventual rejeição, por outro lado, consolidará o precedente jurídico de que a análise das emissões decorrentes do uso final dos combustíveis poderá inviabilizar grandes projetos offshore, influenciando processos regulatórios em outras jurisdições.

Para empresas brasileiras fornecedoras de equipamentos submarinos, válvulas, tubos, sistemas de automação, instrumentação, serviços de engenharia e manutenção offshore, Jackdaw e Rosebank permanecem referências importantes sobre como grandes produtores de petróleo estão redefinindo o equilíbrio entre segurança energética, competitividade industrial e descarbonização.

Últimas Notícias

Primeiro equipamento mecânico “Ex” nacional conquista certificação Ex “h” no Sistema IECEx

De acordo com o sistema “on-line” de certificação internacional do IECEx, da IEC (International Electrotechnical Commission), a Empresa Brasileira WEG-CESTARI Redutores e Motorredutores S/A,...

ICMC e Sociedade Brasileira de Matemática anunciam vencedor do Prêmio Gutierrez 2026

O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos, em parceria com a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), anuncia...

Unleashed by Purina impulsiona o desenvolvimento de pet techs brasileiras

As inscrições para a oitava edição do Unleashed by Purina, programa global de aceleração de startups de pet tech e cuidados com pets promovido...