O Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência de 2026 (LRCAP/2026) consolida uma inflexão relevante no modelo de expansão do setor elétrico brasileiro ao combinar escala inédita de contratação com uma mudança estrutural na lógica de remuneração dos ativos. Realizado pela Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica, sob coordenação do Ministério de Minas e Energia (MME) e com operacionalização da CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, o certame resultou, em suas duas etapas realizadas em 18 e 20 de março, na contratação de quase 19,5 GW de potência, com predominância de usinas termelétricas a gás natural, além de participação de hidrelétricas — incluindo ampliações — e, em menor escala, empreendimentos a carvão, biometano e combustíveis líquidos. Trata-se do maior leilão já realizado no país com esse desenho, mobilizando cerca de R$ 64,5 bilhões em investimentos e consolidando uma reorganização do papel da capacidade firme no contexto de uma matriz elétrica em rápida transformação.
A magnitude do certame, que contou com aproximadamente 330 projetos habilitados somando cerca de 120 GW de capacidade ofertada, evidencia não apenas o apetite do mercado, mas também a crescente centralidade do tema da segurança energética no planejamento setorial. Considerando o conjunto das duas rodadas, o leilão alcançou economia superior a R$ 35,4 bilhões para os consumidores, resultado de níveis expressivos de competição e eficiência na formação de preços. O deságio médio observado na rodada principal (18/03) foi de 5,52%, enquanto a etapa complementar (20/03), voltada a usinas existentes, registrou um deságio significativamente mais elevado, de 50,14%, evidenciando a competitividade de ativos já amortizados e sua relevância como solução de curto prazo para o sistema.
Resultado consolidado

Empresas vencedoras

Mais do que os números, o LRCAP/2026 materializa uma mudança de paradigma ao deslocar o eixo da contratação de energia para a contratação de potência. Esse redesenho responde diretamente à evolução da matriz elétrica brasileira, cuja crescente participação de fontes renováveis variáveis — em especial eólica e solar — impõe novos desafios operativos ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Em um sistema historicamente ancorado na previsibilidade da geração hidráulica, a expansão de fontes intermitentes introduz maior volatilidade intradiária e sazonal, exigindo recursos capazes de responder rapidamente a flutuações de oferta e demanda. Nesse contexto, a contratação de potência com requisitos de flexibilidade permite que usinas sejam acionadas sob demanda, reduzindo ineficiências associadas ao despacho inflexível e contribuindo para a otimização do custo marginal de operação.
A predominância de termelétricas a gás natural no resultado do leilão, embora alvo de questionamentos sob a ótica da descarbonização, deve ser compreendida à luz dessa necessidade sistêmica. O papel dessas usinas, nesse novo arranjo, desloca-se da geração contínua para a provisão de capacidade de resposta, funcionando como elemento de estabilização em momentos de escassez hídrica ou baixa geração renovável. Essa abordagem encontra respaldo nos estudos conduzidos pela EPE – Empresa de Pesquisa Energética e nas diretrizes operativas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que vêm reiterando a necessidade de contratação estruturada de potência para evitar riscos de déficit no horizonte de médio prazo. A alternativa — recorrer a despacho fora da ordem de mérito ou a soluções emergenciais — tende a implicar custos significativamente mais elevados e maior volatilidade tarifária.
A etapa complementar realizada em 20 de março reforça essa lógica ao priorizar o aproveitamento de ativos existentes. Foram contratados 501 MW de potência, por meio de seis contratos envolvendo usinas a biodiesel e óleo diesel localizadas em diferentes regiões do país, com receita total de R$ 978,6 milhões. O elevado deságio registrado nessa rodada traduz a capacidade desses empreendimentos de ofertar potência a custos marginais reduzidos, contribuindo para uma economia adicional de aproximadamente R$ 1,8 bilhão. Esse movimento sinaliza a importância da utilização eficiente do parque gerador existente como instrumento de equilíbrio sistêmico, especialmente em horizontes mais curtos.
Sob a perspectiva econômica, o novo modelo contratual introduz ganhos relevantes ao alinhar incentivos operacionais com as necessidades reais do sistema. Ao remunerar disponibilidade em vez de produção contínua, reduz-se a incidência de custos associados a inflexibilidades contratuais e melhora-se a alocação de riscos entre geradores e consumidores. Um elemento adicional introduzido pelo desenho do LRCAP é a redistribuição dos custos de potência entre os ambientes de contratação livre (ACL) e regulado (ACR), promovendo uma alocação mais equilibrada e aderente ao uso efetivo do sistema elétrico.
O leilão também evidencia uma tentativa de conciliar objetivos que, à primeira vista, podem parecer tensionados: expansão da matriz, modicidade tarifária e transição energética. Ao assegurar potência disponível para complementar fontes renováveis, o LRCAP atua como mecanismo de viabilização da própria descarbonização, ao permitir que a penetração de eólica e solar avance sem comprometer a confiabilidade do sistema. Nesse sentido, a presença de fontes térmicas no portfólio contratado não representa necessariamente um retrocesso, mas sim uma etapa de ajuste em direção a um sistema mais flexível e resiliente.
Em termos estruturais, o LRCAP/2026 consolida uma estratégia de Estado voltada à garantia de robustez do sistema elétrico brasileiro diante do crescimento da demanda e da maior complexidade operativa associada à transição energética. Ao assegurar a existência de potência reserva — usinas aptas a gerar imediatamente em momentos críticos, como picos de carga ou períodos de baixa hidrologia —, o mecanismo reduz o risco de adoção de medidas emergenciais mais onerosas e reforça a previsibilidade do planejamento setorial.
O LRCAP/2026 pode ser interpretado como um marco na evolução do arcabouço regulatório do setor elétrico brasileiro, ao introduzir instrumentos mais aderentes à complexidade operativa de uma matriz em transição. Ao privilegiar flexibilidade, previsibilidade e eficiência sistêmica, o leilão reposiciona o papel da capacidade firme não como antagonista das renováveis, mas como condição necessária para sua expansão sustentável. O desafio, a partir de agora, será calibrar esse modelo de forma a equilibrar, no longo prazo, os imperativos de segurança energética, competitividade econômica e descarbonização, em um ambiente marcado por incertezas tecnológicas, climáticas e geopolíticas crescentes.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, conduziu a realização do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência de 2026 (LRCAP) e, segundo ele, a iniciativa representa um passo estratégico para fortalecer o planejamento energético brasileiro e dar maior previsibilidade ao setor elétrico.
“Hoje é um dia histórico para o setor elétrico brasileiro e para os próximos 10 anos da segurança energética do Brasil. Nós fizemos o maior leilão de térmicas da história desse país. Um leilão que garante além de segurança energética, modicidade tarifária garantindo maior segurança energética ao nosso Brasil e menores preços para o consumidor”, disse o ministro.
Para o ministro de Minas e Energia, o leilão responde às novas necessidades do sistema elétrico nacional, marcado pelo crescimento da participação de fontes renováveis. “A transição energética não se faz apenas com mais renováveis, mas com um sistema capaz de sustentá-las ao longo do tempo”, afirmou.
Silveira destacou ainda que a contratação de potência flexível é fundamental para garantir estabilidade e confiabilidade ao sistema elétrico brasileiro. “Não há transição energética sem segurança do suprimento elétrico. E não há segurança energética sem potência flexível”, completou o ministro.

