
texto por: Angela Gheller, diretora de produtos para Manufatura da TOTVS
A Reforma Tributária é a maior transformação na economia brasileira desde o Plano Real. Venho reiterando este alerta para o mercado sempre que posso. Para o setor industrial, em particular, a Reforma representa uma mudança profunda, que vai muito além de uma simples mudança na alíquota. Estamos a poucos meses do início da fase de testes em 2026, e a inércia pode custar caro.
A reforma redesenha o mapa tributário do país. O fim da “guerra fiscal”, com a unificação de impostos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) no modelo dual de CBS e IBS, e a tributação no destino e não na origem forçarão as indústrias a reavaliarem várias estratégias: logística, precificação e até a localização de suas plantas. Decisões tomadas no passado com base em incentivos fiscais podem agora se tornar obsoletas.
Por isso a hora de agir é agora. É fundamental que cada indústria crie um checklist de ações imediatas para garantir uma transição segura. O primeiro passo é realizar um diagnóstico estratégico, simulando o impacto da nova carga tributária em seus produtos. Ferramentas de inteligência fiscal podem ajudar a comparar o cenário atual com o futuro, permitindo um planejamento de preços e margens mais assertivos. Em seguida, vem a adequação dos sistemas de gestão (ERP). A atualização do software é o passo mais óbvio, mas não o único. É crucial que, após a atualização, sua empresa realize as parametrizações no sistema e testes no ambiente de homologação do governo, que já está disponível. Nossa recomendação é clara: valide seus documentos fiscais até o final de dezembro para ter uma mínima margem de segurança.
Paralelamente, a revisão completa dos cadastros é vital, pois a correta classificação fiscal de cada produto e serviço definirá o sucesso da sua operação. Um erro de parametrização pode levar à rejeição de notas ou ao cálculo incorreto de tributos. Por fim, invista na capacitação das suas equipes: seus times (fiscal, contábil, de compras e comercial) precisam entender a nova lógica da não cumulatividade, pois esse conhecimento não pode ficar restrito a poucos especialistas.
O elo crítico: sua cadeia de fornecedores
Um dos pontos mais negligenciados até agora é o impacto da Reforma na supply chain. Com o novo modelo, o crédito tributário da sua indústria estará diretamente atrelado ao pagamento efetivo do imposto pelo seu fornecedor na etapa anterior. Isso significa que se o seu fornecedor não estiver em conformidade e não recolher o tributo corretamente em sua etapa da cadeia, sua empresa não terá direito ao crédito correspondente na sua etapa. Essa nova realidade cria uma interdependência sem precedentes.
Grandes indústrias precisarão olhar para seus parceiros menores, muitos deles optantes pelo Simples Nacional, e ajudá-los na transição. Não se trata de filantropia, mas de gestão de risco e inteligência de negócio. Compartilhar conhecimento e exigir a conformidade de seus fornecedores será essencial para garantir a saúde da sua própria operação.
O governo tem cumprido os prazos anunciados e não há sinais de adiamento. A infraestrutura tecnológica está sendo preparada para um volume massivo de operações. A mensagem é clara: a responsabilidade é de cada empresa. Quem deixar para a última hora enfrentará um gargalo de serviços e correrá o risco de ver sua operação paralisada. A jornada é longa, mas o primeiro passo, e talvez o mais crítico, precisa ser dado urgentemente agora

