Nokia aproxima P&D e manufatura para construir redes preparadas para IA

A Nokia inaugurou em setembro de 2025, em Oulu, na Finlândia, um novo campus integrado de pesquisa, desenvolvimento, testes e manufatura destinado à evolução das redes 5G e 6G. Batizado de “Home of Radio”, o complexo reúne aproximadamente 3 mil profissionais, em uma estrutura de cerca de 55 mil m², e foi concebido para cobrir praticamente todo o ciclo de desenvolvimento dos produtos de rádio: pesquisa, projeto, validação em laboratório, testes em condições reais e introdução em produção. A estratégia é acelerar a transição para redes capazes de sustentar cargas de IA, aplicações industriais, IoT e computação distribuída.

O aspecto tecnológico mais relevante está na integração entre R&D e manufatura. O campus concentra laboratórios avançados de redes rádio, ambientes de simulação e testes de campo e a unidade Oulu Factory, destinada à introdução de novos produtos (New Production Introduction) de rádio 5G e baseband. A Nokia informa que o foco imediato inclui padronização, System-on-Chip (SoC), hardware e software de rádio 5G e propriedade intelectual, enquanto a infraestrutura de testes permite verificar o comportamento dos sistemas antes da implantação comercial. A integração reduz a distância entre desenvolvimento e produção e permite incorporar mais rapidamente resultados de testes e requisitos de campo aos ciclos de engenharia.

Essa arquitetura industrial ganha importância à medida que a RAN deixa de ser tratada apenas como infraestrutura de acesso e passa a integrar computação, inteligência artificial e processamento distribuído. Redes preparadas para IA precisam lidar simultaneamente com maior capacidade de processamento, baixa latência, eficiência energética e capacidade de transportar enormes volumes de dados entre dispositivos, edge, redes de acesso e data centers. No caso da Nokia, essa transformação envolve tecnologias como Massive MIMO, novas gerações de baseband, automação baseada em software e evolução das arquiteturas de rádio. O campus de Oulu é apresentado pela empresa como um ambiente para desenvolver tanto as atuais plataformas 5G quanto tecnologias que formarão a base das redes 6G.

O movimento também deve ser entendido no contexto da mudança estratégica da Nokia em direção à infraestrutura para a economia de IA. Em 2025, a companhia concluiu a aquisição da Infinera, operação que ampliou sua presença em redes ópticas e infraestrutura para data centers. No relatório anual, a Nokia afirma que a aquisição foi parte de sua estratégia para atender ao crescimento da infraestrutura necessária ao chamado AI supercycle. No mesmo ano, a companhia registrou €2,4 bilhões em pedidos de clientes de AI & Cloud, além de ampliar sua oferta com soluções ópticas de 800G e equipamentos de data-center switching.

A infraestrutura de Oulu também representa uma tentativa de preservar dentro da Europa capacidades críticas de desenvolvimento e produção de tecnologia de rádio. A Nokia destaca que o campus permite que redes 5G e 6G sejam projetadas, testadas e fabricadas na Europa, com um ecossistema local que inclui universidades, startups, empresas de tecnologia e instalações da OTAN. A empresa também aponta aplicações tanto civis quanto de defesa, especialmente em redes que exigem resiliência e segurança. O campus funciona, portanto, não apenas como centro de desenvolvimento de produtos, mas como parte de uma estratégia de soberania tecnológica e de controle do ciclo de vida de componentes considerados estratégicos para conectividade.

A dimensão energética é outro componente da arquitetura. Todo o campus utiliza energia adquirida de fontes renováveis, segundo a Nokia, e a instalação possui uma estação energética baseada em CO₂ para aquecimento e resfriamento distrital. O calor excedente é direcionado para o sistema de aquecimento urbano de Oulu, atendendo aproximadamente 20 mil residências. A companhia informa ainda uma taxa de utilização de resíduos de 100% e afirma que a instalação evita 99% das emissões de CO₂ associadas ao edifício. Esses números são declarações da Nokia e devem ser entendidos como indicadores de desempenho apresentados pela própria empresa.

A estratégia de Oulu ganhou ainda mais significado com a evolução posterior da Nokia para AI-RAN. A companhia passou a trabalhar com plataformas de computação acelerada e tecnologias capazes de combinar processamento de aplicações de IA com funções de rede rádio, aproximando RAN, edge computing e infraestrutura de IA. Essa convergência muda a natureza da estação rádio-base: além de transportar dados, a infraestrutura passa progressivamente a participar do processamento e da distribuição de inteligência na borda da rede. O campus de Oulu, nesse sentido, fornece uma base física para testar a combinação de rádio, software, semicondutores, computação e IA em um mesmo ciclo de desenvolvimento.

A questão central para a indústria não é, portanto, a construção de mais uma fábrica de equipamentos de telecomunicações. O movimento indica uma mudança no próprio modelo de engenharia da infraestrutura de conectividade: à medida que IA, automação, robótica e IoT passam a exigir redes determinísticas, resilientes, energeticamente eficientes e capazes de processar dados mais próximos da origem, o hardware de rádio deixa de ser uma camada isolada. Ele passa a fazer parte de uma infraestrutura computacional distribuída, na qual RAN, edge, optical networking, data centers e software precisam evoluir de forma coordenada. Nesse contexto, o “Home of Radio” de Oulu funciona como um laboratório industrial da transição entre 5G, 5G-Advanced, AI-RAN e 6G. A capacidade de desenvolver, testar e fabricar no mesmo ecossistema pode reduzir ciclos de inovação e, principalmente, permitir que novas arquiteturas sejam avaliadas em condições próximas às de operação antes de chegar às redes comerciais. Para a indústria, o movimento sinaliza que a próxima disputa em telecomunicações não será apenas por velocidade de transmissão: será pela capacidade de transformar a rede em uma plataforma programável, resiliente e integrada à infraestrutura de computação da era da IA.

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