O planeta continua acumulando calor em ritmo crescente, um sinal de que níveis elevados de aquecimento global já estão contratados para as próximas décadas, segundo a nova edição dos Indicadores Globais de Mudança Climática (IGCC). O relatório mostra que a influência humana sobre o clima permanece em máximas históricas e que todos os principais indicadores do sistema climático continuam se deteriorando.
O documento estima que o aquecimento causado pelas atividades humanas atingiu 1,37°C em 2025 em relação ao período pré-industrial. Mantido o ritmo atual de emissões, o planeta deverá ultrapassar 1,5°C de aquecimento em cerca de quatro anos.
Durante a Conferência Climática de Bonn, na Alemanha, onde a agenda da COP31 está sendo construída, os autores destacam que o sinal mais preocupante não está apenas na temperatura média global. O principal alerta vem do chamado desequilíbrio energético da Terra, indicador que mede a diferença entre a energia que o planeta recebe do Sol e aquela que consegue devolver ao espaço.

“O desequilíbrio energético da Terra mede a velocidade com que o calor está se acumulando no sistema climático e é um dos indicadores mais importantes do ritmo da mudança climática. Sem a influência humana, ele deveria estar próximo de zero. Mas vem aumentando desde os anos 1970 e hoje está em um nível recorde, tendo dobrado nas últimas décadas”, afirmou Piers Forster, diretor do Priestley Centre for Climate Futures da Universidade de Leeds e autor principal do estudo.
Segundo os pesquisadores, esse excesso de energia está provocando mudanças em todos os componentes do sistema climático, incluindo o aquecimento dos oceanos, o derretimento de gelo continental, a elevação do nível do mar e o degelo do permafrost.

“O desequilíbrio energético da Terra está crescendo rapidamente e impulsionando mudanças em todos os componentes do sistema climático”, afirmou Karina von Schuckmann, assessora científica da Mercator Ocean International.
O relatório também conclui que praticamente todo o aquecimento observado na última década foi provocado por atividades humanas.

“Nosso estudo demonstra que quase todo o aquecimento registrado na última década foi causado pelas atividades humanas. Os impactos sobre os meios de vida e os ecossistemas já estão sendo sentidos em todo o mundo e continuarão a se intensificar à medida que as temperaturas aumentam”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para clima do Serviço de Mudança Climática Copernicus.
As emissões globais de gases de efeito estufa atingiram um novo recorde de 56,8 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024, impulsionadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

“Estamos emitindo mais gases de efeito estufa do que nunca. Isso aumenta suas concentrações na atmosfera, aprisiona mais calor e empurra o planeta para um estado cada vez mais desequilibrado”, disse Matt Palmer, pesquisador do Met Office do Reino Unido.
Entre os impactos já observados, os cientistas destacam a aceleração da elevação do nível do mar, que atingiu um recorde de 23 centímetros desde 1901, e o aumento das ondas de calor marinhas, cujo número de dias mais que triplicou desde o início dos anos 1990. Apenas em 2025 foram registrados 65 dias de ondas de calor marinhas em escala global.

“As ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes, acompanhando o aquecimento contínuo da superfície dos oceanos. Elas ameaçam ecossistemas, produção de alimentos, economias e a proteção natural das zonas costeiras”, afirmou June-Yi Lee, da Universidade Nacional de Pusan.
Apesar do cenário preocupante, os autores apontam um sinal moderadamente positivo: embora as emissões continuem aumentando, sua taxa de crescimento é hoje menor do que nas décadas anteriores. Segundo os pesquisadores, isso reflete os efeitos da expansão das energias renováveis, da eletrificação e de políticas climáticas já em implementação em diversas partes do mundo.
Os cientistas alertam, porém, que essa desaceleração ainda está longe de ser suficiente para estabilizar o clima e reforçam a necessidade de acelerar a descarbonização da economia nesta década decisiva.
Outro alerta feito pelos autores diz respeito à própria capacidade de monitorar a mudança climática. O estudo depende de mais de 40 bases de dados internacionais, algumas delas ameaçadas por cortes de financiamento e instabilidade institucional.

“Precisamos de ação internacional coordenada para garantir a continuidade das observações climáticas. Sem isso, futuras avaliações se tornarão muito mais difíceis justamente quando precisamos de informação confiável para orientar decisões urgentes”, afirmou Chris Smith, do Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados (IIASA).


