A edição 2026 do ONS – Offshore Northern Seas, em Stavanger, expôs algo mais relevante do que sua escala: o desalinhamento entre o discurso de transição energética e a disciplina de capital que agora rege as grandes petroleiras.
O tema oficial do evento, “Courage”, pedia coragem para investir em novas tecnologias, mas o que se ouviu dos CEOs de duas das maiores petroleiras do mundo foi o oposto de um salto de fé: foi um recuo calculado.
A confissão que definiu o tom do evento
Em painel conjunto, o CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, e o CEO da Shell, Wael Sawan, reconheceram que hidrogênio verde, eólica offshore, CCS e biogás não encontraram, até agora, modelo econômico viável. Pouyanné afirmou que, há cinco anos, parecia óbvio para a indústria investir nessas tecnologias, mas que hoje o setor voltou ao fundamento básico da energia: o preço acessível e que, se o preço não é acessível, a tecnologia não se sustenta. Ele citou diretamente o projeto Northern Lights, joint venture entre Equinor, TotalEnergies e Shell para armazenamento de carbono no Mar do Norte, afirmando que a indústria embarcou no projeto em 2020 e hoje enfrenta dificuldade para encontrar clientes.

A diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos, presente no mesmo painel, concordou com a dificuldade de encontrar consumidores dispostos a pagar o prêmio de combustíveis de menor emissão. Sawan foi direto: a Shell não conseguiu gerar o retorno esperado sobre esses investimentos e está redirecionando capital para baterias e comercialização de energia. Pouyanné também criticou a regulação da União Europeia que obriga empresas a investir em CCS mesmo sem demanda de clientes, defendendo que prefere alocar recursos em solar e eólica terrestre, onde há previsibilidade de lucro.
Esse foi o pano de fundo geopolítico real de Stavanger 2026: não é uma indústria acelerando a transição por convicção, mas recalculando rota sob pressão de retorno financeiro e sinalizando que fará isso escolha por escolha, tecnologia por tecnologia.
Aqui vale uma ressalva: enquanto Pouyanné pontua a “dificuldade de encontrar clientes” para o Northern Lights, a própria joint venture entre Wquinor, Shell e TotalEnergies já havia anunciado publicamente ao longo de 2025, que a fase 1 do projeto (1,5 milhão de toneladas de CO2/ano) está totalmente contratada e que a Fase 2, com decisão final de investimento tomada em 2025, ampliando a capacidade para 5 milhões de t/a até 2028 avançou após acordo comercial de 15 anos com a sueca Stockholm Exergi – que se somou a clientes como Heidelberg Materials, Yara e Orsted. Isso faz a declaração de dificuldade em Stavanger refletir a dificuldade de viabilizar economicamente a expansão e replicar o modelo em escala e não necessariamente ausência total de clientes.
“Confiança é a commodity mais importante”

Na abertura do evento, o diretor executivo da IEA – Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, resumiu o desafio geopolítico do setor afirmando que confiança é hoje a commodity mais importante do mercado de energia. A frase capta o momento: a governança energética mundial não está mais organizada em torno de blocos estáveis de oferta e demanda, mas de relações de confiança fragmentadas entre países produtores, consumidores e fornecedores de tecnologia. E é exatamente nesse vácuo que o Brasil tenta se posicionar.
A fala se soma a um discurso que Birol vem repetindo ao longo de 2026 em diferentes fóruns, o de que o mundo caminha para uma “economia de energia de baixa confiança”, na qual a incerteza geopolítica – o próprio Birol citou o fechamento do Estreito de Ormuz em 2026 como ponto de inflexão – eleva o custo da energia e redesenha rotas de fornecimento com base em confiabilidade, não apenas em preço.
Petróleo não é passado, é ativo geopolítico ativo
Enquanto os majors globais recuavam de tecnologias de baixo carbono, o upstream tradicional seguiu avançando. A Petrobras anunciou, em 14 de agosto, a identificação de indícios de hidrocarbonetos no poço Morpho, no bloco FZA-M-59 da Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 km da costa do Amapá, a 2.886 metros de profundidade. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, foi enfática em frisar que a descoberta ainda não é comercial: os hidrocarbonetos foram identificados por perfis elétricos e amostras de rocha, e a empresa segue avaliando volume e viabilidade econômica.
Segundo Sylvia Anjos, a descoberta consolida a Margem Equatorial como nova fronteira exploratória e abre cenário positivo não apenas para a Petrobras, mas para outras majors com blocos na região, como Chevron e ExxonMobil – na própria Foz do Amazonas – e Shell – nas bacias de Barreirinhas e Potiguar.
No mesmo momento, do lado norueguês, Equinor, Aker BP e Vår Energi anunciaram uma parceria para expandir exploração na plataforma continental norueguesa, com meta de testar entre 20 e 25 prospectos em até cinco anos, revertendo uma tendência recente de concentração em redesenvolvimento de ativos já existentes. O paralelo é direto: tanto Brasil quanto Noruega, os dois países-sede da conversa em Stavanger, estão duplicando a aposta em óleo e gás convencional no exato momento em que o discurso público fala em transição.
A queda de braço entre Ibama e MPF se aprofunda
O desdobramento mais relevante da história do Morpho depois do ONS não veio de Stavanger, mas de Brasília e Belém.
Ainda antes do encerramento do evento, a Petrobras já havia solicitado ao Ibama autorização para perfurar três poços contingenciais no mesmo bloco – Manga, PAD-Morpho e Crotalus -, além de testes de formação e o abandono definitivo dos quatro poços da campanha. O Ministério Público Federal (MPF) cobrou explicações do Ibama, alegando que liberar essas novas perfurações por simples anuência, sem nova licença, descumpriria normas ambientais e ignoraria impactos cumulativos.
Em 1º de setembro, o Ibama respondeu formalmente ao MPF, afirmando que a perfuração dos três poços contingenciais já estava prevista desde o início do processo de licenciamento do bloco FZA-M-59, e que o processo segue “com plena observância dos aspectos técnicos e legais”. O órgão confirmou que o pedido da Petrobras inclui, além dos poços, testes de formação e o abandono definitivo dos quatro poços do bloco – itens que o MPF já contesta por, segundo os procuradores, ignorarem os efeitos cumulativos na região.
A resposta do Ibama, porém, abriu uma nova frente de questionamento: o MPF apontou uma contradição direta entre o que o órgão declarou à Justiça Federal e o que informou administrativamente ao próprio MPF. Na Justiça, o Ibama havia afirmado que a atividade de perfuração duraria cerca de seis meses em um único local; na resposta ao MPF, admitiu que o planejamento da campanha completa, com quatro poços, incluindo os contingenciais, se estende de 2025 a 2029. Para os procuradores, apresentar prazos e dimensões diferentes em foros distintos distorce a avaliação real dos riscos de uma operação que, se dura anos e não meses, tende a acumular impactos sobre fauna marinha, pesca artesanal e comunidades tradicionais da costa amapaense.
Em paralelo, o Ibama impôs condições técnicas adicionais para autorizar a nova campanha – entre elas, uma embarcação extra dedicada à proteção da fauna, integrada ao Plano de Proteção à Fauna antes da fase de reservatório do primeiro poço contingente, e aviso prévio de 30 dias caso a Petrobras confirme a troca da sonda ODN-II (NS-42), que perfura o Morpho, pela Amaralina Star (NS-43) na campanha dos três novos poços. Segundo a própria Petrobras, a perfuração do Morpho deve se encerrar entre agosto e setembro; a autorização para os três poços contingenciais segue sem data definida.
Ou seja: passado o brilho institucional do ONS, a narrativa da Margem Equatorial como “nova fronteira” segue avançando tecnicamente, mas com o processo de licenciamento cada vez mais judicializado – um contraponto que qualquer leitura geopolítica do evento precisa incorporar.
O Brasil chega com um ativo raro: pode escolher, não precisa correr

É nesse contexto que a presença institucional brasileira em Stavanger ganha sentido estratégico. O Brasil não vai à ONS como economia importadora tentando se descolar de hidrocarbonetos, vai como produtor relevante de petróleo e gás, exportador de energia e potência em recursos renováveis simultaneamente. Essa combinação rara é a base de qualquer leitura geopolítica séria do que o país apresentou no evento.

A ANP participou oficialmente da programação: o diretor Pietro Mendes integrou um Leadership Dialogue em 26 de agosto, e a diretora Symone Araújo participou de atividades da cooperação Brasil-Noruega.
A próxima onda de investimentos
O 1º Brazil Energy Meeting Norway foi realizado em 24 de agosto no Clarion Hotel Stavanger, com apoio da Embaixada do Brasil em Oslo, do Consulado da Noruega no Brasil e parceria institucional com a Brasca e a BNCC (Câmara de Comércio Brasil-Noruega). O evento já está em sua 15ª edição, tradicionalmente realizado em Houston e, bienalmente, no Brasil -2026 marcou a primeira vez em que ocorreu na Noruega, durante a ONS.
O painel “Brazil’s Next Investment Wave: Oil, Gas & Infrastructure Opportunities” reuniu Pietro Mendes (ANP), Talita Loureiro (diretora da PPSA), Márcio Félix (presidente da ABPIP) e Wagner Victer (gerente executivo de Programas Estruturantes da Petrobras), com moderação de Roberto Ardenghy, CEO do IBP.
Cooperação em descarbonização
O painel, “Brazil-Norway Cooperation in Decarbonization and Low-Carbon Energy”, reuniu Symone Araújo (ANP), Aleksander Skaare (Country Manager Brasil), Vitor Hualey (OneSubsea Brasil) e Isabela Morbach (diretora da CCS Brasil), com moderação de John Thomas, da KPMG.
A presença simultânea de ANP, uma empresa de tecnologia subsea e uma organização dedicada a CCS confirma que a cooperação energética entre Brasil e Noruega já não se limita ao petróleo offshore, ela avança para CCS, tecnologias subsea e novos modelos de descarbonização industrial, ainda que, como mostrou o painel dos CEOs global no mesmo evento, o próprio mercado global de CCS esteja sob pressão financeira crescente para provar retorno em escala.
IA no offshore: o Brasil como fornecedor de tecnologia, não só de matéria-prima
Um dos pontos mais interessantes da presença brasileira foi tecnológico, não institucional. A Altave, empresa brasileira de visão computacional sediada em São José dos Campos (SP), apresentou em Stavanger, no âmbito do ONS 2026, sua plataforma HARPIA, de inteligência artificial capaz de transformar redes de câmeras industriais já existentes em fonte contínua de inteligência operacional e de segurança para ambientes offshore de alto risco. Foi um contraponto relevante ao discurso de que o Brasil participa da cadeia global de energia apenas como fornecedor de commodities: aqui, a exportação é de software aplicado a ativos de altíssimo risco operacional.
O que essa combinação revela
A leitura geopolítica de Stavanger 2026 não é “petróleo versus transição”. É mais precisa e mais desconfortável: as majors globais estão recuando seletivamente de tecnologias de baixo carbono que ainda não provaram retorno em escala, ao mesmo tempo em que aceleram exploração de óleo e gás convencional, e o Brasil, com uma posição de produtor que ainda cresce (Margem Equatorial) e um portfólio renovável já maduro, tem a rara opção de negociar dos dois lados dessa equação, em vez de ser forçado a escolher um.
Mas o próprio caso Morpho mostra que essa posição de barganha dupla tem um custo interno: quanto mais a exploração da Margem Equatorial avança tecnicamente, mais ela se choca com o rigor e a judicialização do processo de licenciamento ambiental brasileiro. A pergunta que fica não é só se o Brasil vai escolher entre petróleo e transição. É se o país vai transformar essa posição de barganha dupla em capacidade industrial e tecnológica própria e, ao mesmo tempo, sustentar a credibilidade regulatória desse processo, antes que a janela de “confiança como commodity”, nas palavras de Birol, se feche para quem chegar tarde.

