Por Valter Shimidu – sócio da KPMG no Brasil e líder do setor químico e petroquímico.

A indústria química e petroquímica sempre esteve associada à transformação. É dela que saem insumos essenciais para praticamente tudo o que move os negócios: medicamentos, fertilizantes, combustíveis, cosméticos, embalagens, tintas, tecidos, produtos de limpeza, materiais hospitalares e soluções industriais. O setor vive agora uma fase aguda de mudanças referentes à produção, em linha com a lógica de competitividade global. São cinco os fatores centrais na estratégia de crescimento dos negócios: sustentabilidade, inovação, descarbonização, segurança logística e reindustrialização.
O cenário internacional impõe desafios complexos. Tensões geopolíticas afetam cadeias globais de suprimentos, aumentam custos e tornam a previsibilidade um ativo cada vez mais raro. Ao mesmo tempo, a dependência de insumos importados expõe vulnerabilidades históricas da indústria brasileira. Nesse contexto, a capacidade de adaptação, planejamento estratégico e visão de longo prazo passam a ser um diferencial decisivo. Empresas que insistirem em operar sob paradigmas do passado correrão o risco de perder competitividade em um mercado cada vez mais orientado por inovação, eficiência energética e rastreabilidade.
A logística permanece entre os principais gargalos do setor. O transporte de produtos químicos exige rigorosos padrões de segurança, enquanto os custos operacionais seguem pressionados pela escassez de contêineres, congestionamentos portuários e limitações de infraestrutura. Não por acaso, cresce o investimento em digitalização da cadeia de suprimentos, e sistemas inteligentes de monitoramento. O objetivo é aumentar eficiência, previsibilidade e segurança operacional em toda a jornada produtiva.
A sustentabilidade ocupa posição de destaque nesse processo. Regulamentações ambientais mais rígidas, especialmente na União Europeia, já influenciam exportações, certificações e padrões produtivos em todo o mundo. A pressão por redução das emissões, cadeias produtivas limpas e maior transparência tornou-se uma exigência econômica. É verdade que implementar práticas ambientais, sociais e de governança (ESG)tem custos relevantes. Ainda assim, o mercado tende a premiar as empresas que conseguirem acelerar essa adaptação.
A nova indústria química já começa a ganhar forma. A busca por matérias-primas renováveis, biomassa, bioetanol e fontes vegetais como alternativas ao petróleo avança de maneira consistente. A economia circular obtém força com iniciativas de reciclagem química, reaproveitamento de resíduos industriais e reutilização de plásticos e solventes. A indústria 4.0 amplia o uso de sensores, automação, manutenção preditiva e monitoramento em tempo real para elevar eficiência, segurança e produtividade. Paralelamente, cresce a defesa de cadeias produtivas mais locais, com fortalecimento da indústria nacional, substituição de importações e estímulo a polos estratégicos como o Complexo de Camaçari, na Bahia.
A IA também revoluciona os processos industriais. Sistemas inteligentes monitoram variáveis como temperatura, pressão e vazão em tempo real, ajustando automaticamente as operações para maximizar rendimento, reduzir desperdícios e economizar energia. A manutenção preditiva diminui falhas, reduz paradas inesperadas e prolonga a vida útil dos equipamentos. Na gestão da qualidade, recursos de visão computacional conseguem identificar defeitos, contaminantes e desvios produtivos com velocidade e precisão muito superiores às análises tradicionais.
Os impactos estendem-se à logística e à cadeia de suprimentos. Ferramentas inteligentes permitem prever oscilações de demanda, otimizar estoques, identificar gargalos e até antecipar riscos geopolíticos capazes de interromper fornecimentos. A IA também ajuda empresas a reduzirem a pegada de carbono, ao calcular rotas logísticas mais eficientes e avaliar impactos ambientais.
Na gestão corporativa, os avanços são igualmente expressivos. Sistemas inteligentes monitoram alterações regulatórias em diferentes países, apoiam planejamento financeiro, estimativas de custos e previsões de fluxo de caixa. Na área de recursos humanos, algoritmos ajudam na contratação de talentos, recomendam treinamentos personalizados e até identificam riscos cibernéticos. A IA também contribui para a economia circular, ao prever potencial de reciclagem de materiais, otimizar descarte seguro de resíduos e sugerir reformulações sustentáveis para produtos químicos.
O verdadeiro diferencial, porém, continuará sendo a habilidade das lideranças de integrar inovação tecnológica, visão de mercado e responsabilidade socioambiental em um mesmo projeto de futuro. O setor químico e petroquímico brasileiro possui conhecimento técnico, escala produtiva e relevância econômica suficientes para ocupar posição de protagonismo nessa nova economia industrial. Para isso, será necessário combinar investimentos em infraestrutura, pesquisa, inovação e qualificação profissional com políticas públicas capazes de estimular competitividade, sustentabilidade e segurança regulatória.

