A Offshore Technology Conference 2026 (OTC 2026) consolidou uma das mudanças mais relevantes da indústria global de energia offshore desde o ciclo de expansão do Pré-sal na década passada: o offshore deixou de ser apresentado apenas como uma fronteira de produção de petróleo e gás para assumir explicitamente o papel de plataforma integrada de digitalização industrial, inteligência artificial, automação pesada, eletrificação subsea, segurança energética e transição energética marítima.
Na sessão de abertura da Offshore Technology Conference 2026 (OTC 2026), realizada em Houston em 5 de maio, o presidente da Mohamed Irfaan Ali enfatizou que a ascensão da Guiana como uma das novas potências petrolíferas offshore do mundo deve estar associada a um modelo de desenvolvimento “responsável, inclusivo e tecnologicamente avançado”. Em um dos discursos políticos mais comentados da abertura da OTC, Ali defendeu que o crescimento acelerado da produção offshore guianense precisa gerar simultaneamente segurança energética, desenvolvimento socioeconômico interno e sustentabilidade de longo prazo, evitando que a expansão do petróleo se transforme apenas em exportação de commodities sem agregação estrutural para a economia nacional.
O presidente destacou que a Guiana pretende utilizar as receitas do petróleo para financiar infraestrutura, educação, digitalização, saúde, industrialização e diversificação econômica, sustentando que o país busca construir um modelo energético capaz de equilibrar crescimento econômico, responsabilidade ambiental e inclusão social. Segundo Ali, o desenvolvimento offshore deve ser acompanhado por fortalecimento institucional, transferência tecnológica, formação de mão de obra local e integração regional.
Durante a abertura, o presidente também afirmou que a Guiana vê o offshore não apenas como oportunidade econômica, mas como instrumento de transformação nacional e regional. Em uma das frases mais repercutidas do painel, declarou: “A riqueza energética deve se transformar em riqueza humana.” E ressaltou que a Guiana pretende expandir sua atuação em gás natural, petroquímica, fertilizantes, energia regional e infraestrutura logística, aproveitando o crescimento da produção offshore para consolidar um novo polo energético no Caribe e na América do Sul. O discurso foi amplamente interpretado como uma defesa de um modelo de “resource nationalism pragmático”, combinando abertura ao investimento internacional com fortalecimento das capacidades nacionais.
A participação da Guiana na OTC 2026 ganhou relevância especial porque o país continua sendo um dos mercados offshore de crescimento mais rápido do mundo – a produção guianense já ultrapassa 700 mil barris/dia e segue em rápida expansão.

Ao longo de quatro dias, executivos, governos, fornecedores de tecnologia, startups, operadores offshore e especialistas em energia convergiram em torno de uma percepção comum: os próximos anos do setor serão definidos menos pelo aumento puro de capacidade produtiva e mais pela capacidade de integrar software, analytics, IA e automação às operações marítimas de larga escala.
A OTC 2026 reuniu 25 mil profissionais de mais de 100 países, com centenas de sessões técnicas, painéis estratégicos e demonstrações tecnológicas cobrindo upstream, sistemas submarinos, CCS, hidrogênio, eletrificação marítima, digital twins, IA industrial e cibersegurança offshore.
Desde a abertura, tornou-se evidente que a inteligência artificial passou a ocupar posição central no discurso técnico da indústria offshore. Em praticamente todos os segmentos da conferência — perfuração, geociências, manutenção, imageamento sísmico, logística, monitoramento subsea e automação operacional — empresas apresentaram soluções baseadas em IA generativa, analytics industriais, edge computing e controle remoto de ativos. O conceito predominante foi o de “offshore autônomo”, sustentado por plataformas conectadas, sensores inteligentes e integração em tempo real entre OT e TI industrial.
Essa transformação apareceu de maneira particularmente clara no Spotlight on New Technology® Award 2026, principal premiação tecnológica da OTC. A edição deste ano premiou soluções fortemente ligadas à automação, IA, eletrificação e digitalização operacional. Entre os destaques esteve o “Kantori™ autonomous well construction solution”, da Baker Hughes, plataforma de construção autônoma de poços baseada em IA e modelos físicos avançados para redução de tempo não produtivo e otimização de perfuração.
Outro destaque importante foi o “Fugro GeoAI Framework”, da Fugro, framework voltado à aplicação de inteligência artificial em geodados offshore e interpretação geotécnica.

A SLB recebeu grande atenção com o “Retina™ at-bit imaging system”, sistema de imageamento em tempo real no fundo do poço, além da válvula inteligente “FIV-III™ dual-trigger formation isolation valve”. Já a Bosch Rexroth apresentou o atuador elétrico subsea “eSEA Push”, certificado pela DNV para retrofit de sistemas hidráulicos offshore envelhecidos.
A predominância dessas soluções mostrou uma mudança estrutural importante: o offshore está migrando rapidamente para arquiteturas operacionais centradas em dados, automação e inteligência operacional. Em diversos painéis, executivos afirmaram que a competitividade futura dos ativos offshore dependerá diretamente da capacidade de integrar plataformas físicas e sistemas digitais avançados.
“O futuro dos ativos offshore será autônomo, conectado e centrado em dados,” disse Rod Larson CEO da Oceaneering International resumindo uma das principais mensagens do evento: a transformação do offshore convencional em infraestrutura energética altamente digitalizada e progressivamente autônoma.
A OTC 2026 também confirmou a crescente integração entre expansão offshore e descarbonização. Em vez de oposição direta entre petróleo e transição energética, os debates mostraram convergência entre hidrocarbonetos offshore, CCS, eletrificação submarina, hidrogênio, amônia e novos combustíveis marítimos.
A TB Global Technologies chamou atenção com sistemas offshore para transferência de amônia e tecnologias de liberação emergencial para combustíveis alternativos marítimos. A Teledyne Marine destacou o sistema “eXtreamer”, voltado a aquisição sísmica offshore avançada, premiado na OTC por ampliar qualidade operacional e eficiência de aquisição de dados marítimos.

Karine Fragoso, gerente geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan, afirmou que a feira é uma excelente oportunidade para os fornecedores brasileiros expandirem seus negócios e como vitrine de seus produtos para o mundo. Segundo ela, essa participação confirma o crescimento e o amadurecimento da indústria brasileira de óleo e gás.
Além da Firjan SENAI, são parceiros da ONIP na organização do Pavilhão Brasil, a PPSA, Sebrae RJ, Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Agência de Desenvolvimento Econômico do Amapá. Já os patrocinadores e apoiadores a Domingues e Pinho Contadores (DPC), Infis Consultoria, MXM Sistemas, ANP e Transpetro.
O Brasil apareceu, mais uma vez, entre os protagonistas da conferência. O seminário “Brazil Upstream Opportunities in 2026”, promovido pela ANP e pela PPSA, reuniu investidores internacionais para apresentar novos ciclos exploratórios, oportunidades noPpré-sal e expansão para novas fronteiras como Margem Equatorial e Bacia de Pelotas. A participação brasileira refletiu o reposicionamento do país como uma das principais áreas globais de crescimento offshore em águas profundas.

O seminário consolidou o esforço coordenado do governo brasileiro e da indústria para posicionar o Brasil como uma das principais fronteiras globais de expansão offshore nesta década. O encontro focou em novas rodadas exploratórias, estabilidade regulatória e expansão da produção no Pré-sal e em novas fronteiras como Margem Equatorial e Bacia de Pelotas.
Entre os principais anúncios e mensagens do evento esteve a sinalização de um novo ciclo robusto de ofertas permanentes no Brasil.

A Diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da EPE, Heloisa Borges, destacou a importância do planejamento energético nacional — representado pelo Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e pelo Plano Nacional de Energia (PNE) — para a redução da incerteza e promoção de um ambiente de maior confiança para investimentos, além das vantagens competitivas do Brasil no cenário internacional, tais como estabilidade geopolítica e regulatória e compromisso com uma transição energética justa e inclusiva, aliando sustentabilidade e segurança energética.

O diretor-geral da ANP, Artur Watt, destacou que o país pretende realizar ainda em 2026 ao menos um ciclo de oferta em cada regime regulatório, incluindo 23 blocos em partilha e potencialmente 45 novos blocos em concessão, em um dos maiores portfólios exploratórios já apresentados pelo país ao mercado internacional.

A PPSA colocou no centro das discussões o 6º Leilão de Petróleo da União, previsto para julho, envolvendo mais de 100 milhões de barris oriundos dos contratos de partilha do Pré-sal. A estatal enfatizou o potencial de monetização rápida desses volumes em um momento de crescente preocupação global com segurança energética e estabilidade geopolítica do fornecimento offshore.

O seminário também reforçou a estratégia brasileira de atrair investimentos internacionais para novas fronteiras exploratórias. A agenda brasileira da OTC 2026 foi fortemente pautada pela Margem Equatorial e pela Bacia de Pelotas, consideradas áreas críticas para sustentar o crescimento futuro da produção nacional além do núcleo consolidado do Pré-sal da Bacia de Santos.
Nos bastidores da OTC, executivos internacionais aproveitaram o evento para anunciar movimentos relevantes no upstream brasileiro. A BP informou que pretende concluir até o primeiro semestre de 2027 o programa de avaliação de três poços no projeto Bumerangue, na Bacia de Santos, iniciando mobilização de sonda entre o fim de 2026 e o início de 2027. O anúncio foi feito diretamente durante a OTC e foi interpretado como mais um sinal de confiança internacional no offshore brasileiro.
O CEO da Shell no Brasil, Cristiano Pinto da Costa, afirmou recentemente que a empresa vê “enorme oportunidade” no petróleo brasileiro diante das tensões geopolíticas globais. Segundo ele, a Shell ampliou de cerca de 10-15 blocos exploratórios em 2021 para aproximadamente 50 atualmente, mantendo o Brasil entre os principais focos globais de investimento da companhia. Outro movimento foi o avanço do projeto Orca (antigo Gato do Mato), no Pré-sal da Bacia de Santos: a Shell confirmou neste ano a venda de 20% do ativo para a KUFPEC, mantendo 50% e a operação do projeto, cuja produção poderá atingir 120 mil barris/dia a partir de 2029.
O ambiente de negócios discutido em Houston também refletiu mudanças no downstream brasileiro que podem influenciar o upstream. A Petrobras ganhou destaque internacional após ampliar vendas diretas de diesel para grandes consumidores, incluindo acordo com a Vale. O movimento foi visto como parte da estratégia da estatal de recuperar participação direta no mercado energético brasileiro após a privatização da BR Distribuidora.
A percepção predominante na OTC 2026 foi de que o Brasil atravessa um momento singular de convergência entre estabilidade regulatória, expansão de fronteiras exploratórias, capacidade tecnológica offshore e crescente relevância geopolítica como fornecedor confiável de energia. O país apareceu no evento não apenas como produtor consolidado de águas profundas, mas como um dos poucos mercados globais capazes de oferecer simultaneamente escala, novos blocos exploratórios e projetos de longo prazo em ambiente institucional relativamente previsível.

A brasileira Brava Energia recebeu o prêmio OTC Distinguished Achievement Award for Companies de 2026 pelo desenvolvimento do Sistema Definitivo do Campo de Atlanta, localizado na Bacia de Santos. Esta é a primeira vez que uma empresa independente brasileira é homenageada com o prêmio, o “Oscar” da indústria global de petróleo e gás. Com o projeto Atlanta, a BRAVA tornou-se a primeira empresa brasileira independente a desenvolver um sistema de produção em águas profundas desde a sua fase inicial (greenfield).
“A OTC é o principal fórum de debate da nossa indústria no mundo. Receber o prêmio máximo da conferência eleva o patamar da BRAVA e ratifica a excelência do projeto Atlanta. É um reconhecimento que coroa nosso pioneirismo como operadora independente em águas profundas e comprova nossa capacidade técnica”, afirma o diretor de Operações Offshore da BRAVA, Carlos Travassos, que representou a companhia durante a cerimônia de premiação.
A Brava também participou da programação técnica: Travassos integrou o painel “Around the World”, com o tema “Brazil Offshore Energy in a Nutshell – Next Wave & New Frontiers” e o Gerente Executivo da BRAVA, Vinícius Passos, participou do “Show cases – Largest Worldwide Developments”, apresentando o Projeto Atlanta em painel sobre os maiores desenvolvimentos globais da indústria.
Um aspecto importante da OTC 2026 foi a ênfase na renovação da força de trabalho offshore. O “Young Professionals Event” concentrou debates sobre inteligência artificial, automação, análise de dados industriais, cibersegurança e novas competências digitais necessárias para o offshore do futuro. A própria OTC utilizou o conceito “Where AI meets offshore energy” para definir o papel da próxima geração de profissionais da indústria energética marítima.

A OTC mostrou reconhecimento para os jovens profissionais que estão deixando sua marca no setor de energia offshore e celebriu a Classe de Líderes Emergentes de 2026, um grupo de profissionais em início de carreira reconhecidos por seu trabalho, serviço, inovação e compromisso com a segurança em todo o setor de energia offshore:
• Julian Chenin, AAPG
• Joaquin Warren, API
• Roneet Das, ASCE
• Dr. Yuhao Li, IADC
• Muhannad Ashy, IMarEST
• Sarah Hudak, MTS
• Dr. Alex Loureiro, SEG
• Dr. Jia Mi, SNAME
• Yasmin Sodré, SPE.
A cerimônia de premiação da OTC 2026 evidenciou a mudança de paradigma tecnológico do setor. Além das grandes multinacionais, quatro pequenas empresas receberam reconhecimento no Spotlight on New Technology® Award: HYTORC; i2k Connect; KeyDrill Technology; Oliden Technology. A presença dessas empresas reforçou o crescimento do ecossistema global de startups e fornecedores especializados em automação, digitalização e eficiência energética offshore.
Ao final da OTC 2026, consolidou-se a percepção de que a indústria offshore está entrando em uma nova fase estrutural, com o setor cada vez mais automatizado, digitalizado, eletrificado e integrado à geopolítica global da energia. A OTC deste ano funcionou como vitrine da convergência entre petróleo, software industrial, IA, infraestrutura crítica e segurança energética internacional. Em praticamente todos os painéis, a mensagem predominante foi que o offshore do futuro dependerá simultaneamente de capacidade produtiva, inteligência operacional e integração digital em escala global.

