Uma coalizão de países desenvolvidos e em desenvolvimento lançou um alerta durante a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (SB64), em Bonn, na Alemanha, sobre o que classificou como uma crescente tentativa de enfraquecer a base científica que sustenta as negociações climáticas internacionais.
Sob a iniciativa denominada “Friends of Science” (Amigos da Ciência), delegações de Fiji, Nepal, Panamá, Serra Leoa, Suíça e União Europeia defenderam que as decisões da ONU sobre o clima continuem fundamentadas na “melhor ciência disponível”, em especial nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
A mobilização ocorre em resposta a iniciativas que buscam relativizar conceitos científicos já consolidados, incluindo a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, estabelecida pelo Acordo de Paris.
Países denunciam tentativas de enfraquecer evidências científicas
Durante coletiva de imprensa realizada em Bonn, representantes dos países mais vulneráveis aos impactos climáticos alertaram para a existência de interesses econômicos que estariam promovendo esforços coordenados para lançar dúvidas sobre consensos científicos.
“Existem interesses poderosos tentando preservar sua riqueza e influência”, afirmou Sivendra Michael, chefe da delegação de Fiji. Segundo ele, alguns países estariam sequestrando o processo multilateral enquanto comunidades vulneráveis enfrentam ondas de calor, elevação do nível do mar, secas, tempestades e insegurança alimentar.
Os diplomatas evitaram citar governos específicos, mas destacaram que a resistência às conclusões científicas é liderada pelos “suspeitos de sempre” e por países que percebem a ciência climática como uma ameaça às suas perspectivas econômicas.
Arábia Saudita e Índia aparecem no centro das divergências
Embora não tenham sido mencionadas oficialmente pelos negociadores, informações do Earth Negotiations Bulletin apontam que a Arábia Saudita se opôs à inclusão de linguagem que expressava preocupação com os efeitos do fenômeno El Niño e que solicitava atualizações científicas regulares do IPCC.
O boletim também relata que a Índia propôs a retirada de referências a “mudanças irreversíveis” do texto negociado.
Os dois países possuem forte dependência de combustíveis fósseis. A Arábia Saudita tem sua economia fortemente baseada nas exportações de petróleo e gás, enquanto a Índia continua altamente dependente do carvão para geração de eletricidade e processos industriais.
Pressão sobre o calendário do IPCC preocupa negociadores
Outra frente de disputa envolve o cronograma do sétimo ciclo de avaliação do IPCC. Índia, Arábia Saudita e China vêm defendendo um adiamento de um ano na publicação dos novos relatórios científicos.
A medida poderia comprometer a disponibilidade das informações que servirão de base para o segundo Balanço Global (Global Stocktake) do Acordo de Paris, cujo processo deverá ser iniciado em novembro e concluído em 2028.
Representantes da Associação Independente da América Latina e do Caribe (AILAC) afirmaram que o objetivo das negociações climáticas deve ser discutir respostas políticas, e não questionar fatos científicos.
“Observamos esforços coordenados para semear dúvidas sobre a melhor ciência disponível, motivados por interesses restritos e não pelas necessidades das populações mais vulneráveis”, declarou Ana Aguilar, negociadora do Panamá. “Já vimos essa estratégia antes: fabricar incertezas, atrasar decisões e transferir os custos da inação para quem menos contribuiu para a crise climática.”
Ciência no centro das negociações da COP31
A controvérsia evidencia a crescente disputa geopolítica em torno da governança climática internacional. Com a COP31 se aproximando, a manutenção da credibilidade científica do IPCC é considerada fundamental para orientar as metas de redução de emissões, os mecanismos de adaptação e as futuras decisões de financiamento climático.
Para os integrantes da iniciativa Amigos da Ciência, preservar a integridade do processo científico será essencial para garantir que o próximo balanço global da ONU reflita o estado mais atualizado do conhecimento sobre as mudanças climáticas e mantenha vivo o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5°C.

