A australiana MCi Carbon inaugurou oficialmente a unidade Myrtle, em Newcastle, considerada a primeira refinaria de carbono multifuncional totalmente integrada do mundo. A instalação é capaz de converter dióxido de carbono (CO₂) industrial e matérias-primas minerais de baixo valor em materiais comercializáveis destinados às cadeias de cimento, aço, plásticos, vidro e construção civil.
Segundo a empresa, a tecnologia de carbonatação mineral pode reduzir em até 90% as emissões líquidas em setores industriais de difícil descarbonização. Diferentemente das soluções convencionais de captura e armazenamento de carbono (CCUS), o processo gera produtos com valor econômico, transformando a gestão das emissões em uma oportunidade de negócios.
O mercado global de materiais de construção com carbono incorporado poderá movimentar cerca de US$ 1 trilhão por ano até 2050, segundo estimativas da companhia.
Plataforma para acelerar a descarbonização industrial
Instalada na Ilha Kooragang, em Newcastle, a unidade Myrtle foi projetada para permitir que empresas industriais validem rapidamente a tecnologia da MCi Carbon com base em seus próprios fluxos de CO₂, matérias-primas e requisitos comerciais. A proposta é gerar dados técnicos e econômicos que permitam transformar projetos de descarbonização em decisões de investimento com retorno financeiro.

“A indústria pesada agora dispõe de um caminho comercial para descarbonizar e, ao mesmo tempo, gerar valor econômico”, afirmou Marcus Dawe, fundador e CEO da MCi Carbon. Segundo o executivo, a plataforma converte CO₂ e minerais de baixo valor em materiais já demandados pelos setores de cimento, aço, vidro e construção, redefinindo a descarbonização como investimento e não apenas como custo de conformidade.
Apoio público e investidores internacionais
A inauguração oficial da Myrtle contou com a participação do ministro australiano das Mudanças Climáticas e Energia, Chris Bowen. O projeto é resultado de mais de uma década de apoio governamental, com aportes superiores a 40 milhões de dólares australianos provenientes de programas federais e do estado de Nova Gales do Sul voltados para tecnologias de captura e utilização de carbono.
Além dos recursos públicos, a MCi Carbon captou mais de 40 milhões de dólares australianos de investidores privados internacionais. Entre os parceiros estão Orica, ITOCHU Corporation, Mizuho Bank, Sumitomo Mitsui Trust Bank, Mitsubishi UBE Cement Corporation (MUCC) e a RHI Magnesita, primeiro cliente comercial global da companhia.
Para Chris Bowen, a iniciativa demonstra o potencial de regiões industriais como Hunter e Newcastle para liderar a nova economia de baixo carbono da Austrália.
“Capturar CO₂ industrial e transformá-lo em materiais para construção e manufatura representa exatamente o tipo de tecnologia prática e desenvolvida na Austrália que deve ser apoiada”, declarou o ministro.
Carbonatação mineral elimina risco de vazamentos
A tecnologia desenvolvida pela MCi Carbon utiliza um processo químico de baixa pressão e baixo consumo energético, no qual o CO₂ reage com matérias-primas ricas em minerais, como escórias siderúrgicas e rejeitos de mineração, formando carbonatos estáveis.
Nessa configuração, o carbono é permanentemente incorporado em nível molecular, eliminando riscos de vazamento e a necessidade de monitoramento de longo prazo. O processo também não gera resíduos.
A plataforma foi concebida para operar com múltiplos tipos de CO₂ e diferentes fontes minerais reativas, permitindo a produção simultânea de diversas linhas de materiais.

Modelos de implantação ampliam potencial de exportação
A tecnologia pode ser implementada diretamente em instalações industriais, integrada aos processos produtivos existentes, ou operar em modelo hub-and-spoke, no qual uma unidade central atende vários emissores de uma determinada região.
Segundo a companhia, ambos os modelos possuem potencial de replicação internacional, permitindo a transferência da tecnologia para qualquer região com indústrias intensivas em carbono.
Escalabilidade comercial
Hospedada nas instalações da Orica, que fornece o CO₂ proveniente de sua planta de amônia em Kooragang Island, a Myrtle possui capacidade para processar até 2.500 toneladas anuais de CO₂, convertendo-as em aproximadamente 10 mil toneladas de produtos comercializáveis.
A unidade também desempenha papel estratégico na geração de dados industriais para futuras plantas comerciais em larga escala. A expectativa é que a tecnologia seja ampliada para capacidades de centenas de milhares de toneladas anuais de CO₂ processado.

“Passamos mais de uma década demonstrando que o dióxido de carbono pode deixar de ser um problema para se tornar uma matéria-prima”, afirmou Sophia Hamblin Wang, cofundadora e diretora de operações da MCi Carbon.
Primeira planta comercial pode entrar em operação até 2030
A primeira campanha de validação comercial da Myrtle está sendo realizada em parceria com a austríaca RHI Magnesita, líder global em refratários. O objetivo é viabilizar uma planta comercial nas instalações da companhia na Áustria até 2030.
Após avaliar diversas tecnologias de descarbonização, a RHI Magnesita selecionou a plataforma da MCi Carbon e investiu mais de US$ 10 milhões no desenvolvimento da solução. A primeira fase prevê capacidade superior a 200 mil toneladas de minerais verdes por ano, capazes de incorporar cerca de 50 mil toneladas anuais de CO₂.
Na Austrália, materiais produzidos pela Myrtle já foram testados em concreto pela Boral, em parceria com a SmartCrete CRC, a Transport for NSW e a Universidade de Tecnologia de Sydney. Os primeiros resultados indicam desempenho equivalente ao de materiais cimentícios convencionais.
No Japão, a Mitsubishi UBE Cement Corporation, segunda maior fabricante de cimento do país, investiu US$ 5 milhões na MCi Carbon e firmou, juntamente com a ITOCHU Corporation, um memorando de entendimento para avaliar a aplicação da tecnologia em operações japonesas.
“Os setores de cimento, aço, mineração e química construíram o mundo moderno e serão fundamentais na construção da economia de baixo carbono. A plataforma que opera hoje em Newcastle pode ser implantada em instalações industriais em qualquer parte do mundo”, concluiu Sophia Hamblin Wang.

