A 4ª edição do Fórum de Tecnologia, Inovação e Programas da ANP (TIP ANP), realizada durante a Rio Innovation Week, mostrou uma mudança importante na agenda tecnológica do setor de energia: a inovação deixou de aparecer apenas como vetor de aumento de produtividade e passou a ser tratada também como componente da própria arquitetura regulatória da transição energética.
Ao longo de três dias, o fórum reuniu representantes da ANP, MME, MCTI, academia, empresas de petróleo e energia, instituições financeiras, startups e entidades setoriais. A programação foi organizada em torno de questões que estão simultaneamente pressionando tecnologia e regulação: novos combustíveis, redução de emissões, digitalização, inteligência artificial, dados, formação de recursos humanos e aplicação dos recursos obrigatórios de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I).
O primeiro sinal dessa mudança está na própria composição temática: o TIP colocou no mesmo ambiente regulatório temas como Lei do Combustível do Futuro, aumento da mistura de biodiesel e etanol, hidrogênio natural, biometano e CGOB, SAF e produção em escala. Não se trata apenas de uma lista de novas tecnologias. São diferentes moléculas, rotas de produção, matérias-primas, sistemas de certificação e mecanismos de mercado que exigem que a regulação consiga acompanhar características físicas, ambientais e econômicas distintas.
O caso do biometano é emblemático: a discussão sobre o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) introduz uma camada que não existe quando se olha apenas para a molécula física: é necessário conectar produção, origem da matéria-prima, atributos ambientais, medição, certificação e rastreabilidade. O desafio tecnológico, portanto, não termina na planta de produção. Ele alcança os sistemas de informação capazes de registrar e comprovar os atributos associados ao gás comercializado.
A agenda também discutiu a infraestrutura econômica da descarbonização: RenovaBio, Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), e-fuels, combustíveis marítimos sustentáveis, HVO e coprocessamento, mercado de carbono e hidrogênio de baixo carbono apareceram como diferentes peças de uma mesma transformação: criar mercados nos quais intensidade de carbono, origem da matéria-prima e desempenho ambiental possam ser convertidos em atributos verificáveis e economicamente negociáveis.
Essa mudança é tecnicamente relevante porque aumenta a dependência entre medição, dados e regulação. Quanto maior a importância atribuída à intensidade de emissões ou à origem de determinado combustível, maior é a necessidade de métodos de medição, metodologias de cálculo, sistemas de auditoria e mecanismos de rastreabilidade capazes de sustentar a informação utilizada pelo mercado.
O painel sobre e-fuels, por exemplo, tratou da conversão de CO₂ e hidrogênio em combustíveis. A tecnologia envolve muito mais que a síntese química: depende da disponibilidade de hidrogênio de baixa intensidade de carbono, da origem do CO₂, da eficiência energética da rota, da integração dos processos e da metodologia utilizada para contabilizar as emissões ao longo do ciclo de vida. A regulação precisa transformar essas variáveis técnicas em critérios verificáveis.
O mesmo raciocínio aparece nos combustíveis marítimos sustentáveis e no SAF. A transição não depende simplesmente da substituição de um combustível por outro. Ela exige especificações, padrões de qualidade, certificação, disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura logística e critérios capazes de demonstrar a redução efetiva das emissões. O TIP ANP colocou essas diferentes camadas dentro de uma mesma discussão regulatória.

PD&I: de obrigação contratual a mecanismo de transformação tecnológica
A ANP discutiu o papel estratégico dos investimentos em PD&I, a Cláusula de PD&I, o programa NAVE-ANP, formação de recursos humanos e utilização de dados para aproximar academia, indústria e regulação. A sequência dos painéis é significativa: primeiro o financiamento da inovação; depois a transformação desse recurso em inovação; em seguida, startups; pessoas e aprendizagem; formação de profissionais; e, finalmente, dados como elemento de conexão entre os diferentes atores.
A própria estrutura regulatória da ANP já estabelece o estímulo à pesquisa, desenvolvimento e inovação como uma atribuição institucional. A Agência informa que a aplicação obrigatória de recursos de PD&I decorre de cláusula contratual associada aos campos de grande produção e é disciplinada, entre outras normas, pelas Resoluções ANP nº 917/2023 e nº 918/2023.
O interessante é que essa política começa a ser apresentada menos como simples mecanismo de financiamento de projetos e mais como infraestrutura de inovação do setor energético. O desafio passa a ser medir não apenas quanto dinheiro foi aplicado, mas o que foi produzido com esse capital: tecnologia incorporada, propriedade intelectual, startups criadas ou fortalecidas, capacidade científica instalada, profissionais formados, dados gerados e soluções efetivamente transferidas para a indústria.
O painel sobre resultados de PD&I em dados, com participação de ANP e EPE, reforçou justamente essa dimensão. Dados deixam de ser somente matéria-prima para pesquisa e passam a funcionar como infraestrutura de conexão entre pesquisadores, empresas e reguladores.

NAVE-ANP aproxima startup e indústria regulada
O NAVE-ANP, programa de empreendedorismo criado para aproximar startups das necessidades de transformação do setor energético apareceu no TIP como uma tentativa de reduzir uma das dificuldades históricas da inovação industrial: transformar uma solução desenvolvida em ambiente experimental em tecnologia efetivamente utilizada por empresas submetidas a requisitos de segurança, confiabilidade, disponibilidade e conformidade regulatória.
Uma startup pode desenvolver um algoritmo, sensor, sistema de inspeção ou modelo de inteligência artificial funcional em ambiente de laboratório, mas sua entrada em uma instalação industrial depende de muito mais: integração com sistemas existentes, cibersegurança, validação, requisitos de segurança operacional, disponibilidade de dados, responsabilidade sobre decisões automatizadas e, em muitos casos, certificações específicas.
A inovação industrial, portanto, não termina quando a tecnologia funciona. Ela começa uma segunda etapa quando a tecnologia precisa operar dentro de um ativo real.
IA: o desafio não é apenas o algoritmo
A presença de um painel específico sobre Inteligência Artificial aplicada ao setor energético, com técnicos da ANP e da Petrobras, também merece atenção. Para o setor regulado, a questão central da IA tende a ser menos “o que o algoritmo consegue fazer” e mais quais dados alimentam o algoritmo, como esses dados são governados, como os resultados são validados e quem responde pela decisão tomada a partir deles.
Isso muda a discussão tecnológica. Em aplicações industriais críticas, um modelo de IA pode auxiliar na interpretação sísmica, manutenção preditiva, otimização operacional, detecção de anomalias, inspeção ou análise regulatória. Mas quanto maior o impacto da decisão, maior a necessidade de rastreabilidade do dado, explicabilidade do modelo, controle de versões, monitoramento de desempenho e mecanismos de intervenção humana.
Para uma agência reguladora, existe ainda uma camada adicional: como fiscalizar sistemas que aprendem, são atualizados ou dependem de grandes volumes de dados proprietários?
É nesse ponto que IA, governança de dados e regulação começam a convergir.
Metano, CCS e BECCS ampliam o papel da tecnologia de medição
Embora realizados no dia seguinte, os painéis do bloco Global Energy complementaram diretamente a agenda do TIP. O programa abordou medição, reporte e redução de emissões de metano; CCS; BECCS; transformação digital; eletrificação; IA e descarbonização do petróleo e gás.
O painel sobre metano “Medir, reportar e reduzir” estabeleceu uma cadeia tecnológica na qual a medição passa a ser condição para a gestão da emissão. Sem uma estimativa confiável da emissão, não há base robusta para estabelecer metas, comparar ativos, verificar desempenho ou demonstrar redução.
No CCS ocorre algo semelhante. Capturar CO₂ é apenas uma etapa. É necessário medir o volume capturado, transportar, injetar, monitorar o armazenamento e demonstrar que o carbono permanece confinado. No BECCS, soma-se ainda a necessidade de contabilizar adequadamente a origem biogênica do carbono e o balanço de emissões do sistema.
A tecnologia de descarbonização, portanto, depende tanto de processos físicos quanto de infraestrutura de mensuração e verificação.

O que o TIP ANP 2026 mostrou

O principal resultado do fórum não foi o anúncio de uma tecnologia isolada. Foi a demonstração de que a agenda tecnológica da ANP está se tornando mais transversal: Biometano exige rastreabilidade, SAF exige certificação e escala, HVO exige novas rotas e especificações, Hidrogênio exige critérios de intensidade de carbono, CCS exige monitoramento, Metano exige medição, IA exige governança de dados. E PD&I exige mecanismos para transformar investimento em tecnologia efetivamente incorporada ao setor.
Essa convergência aponta para uma mudança na própria função da regulação. Em um setor energético caracterizado por novas moléculas, novas rotas tecnológicas e novos atributos ambientais, regular não significa apenas estabelecer requisitos para uma tecnologia já consolidada. Significa também construir condições para que tecnologias emergentes possam ser medidas, comparadas, certificadas, fiscalizadas e incorporadas ao mercado.
E esse talvez seja o ponto mais importante deixado pelo TIP ANP 2026: a transição energética brasileira não está criando apenas novos combustíveis e processos. Está criando necessidades de informação. Quanto mais atributos técnicos e ambientais passam a ter valor econômico, mais a confiabilidade do dado se transforma em parte da infraestrutura do próprio mercado.
A ANP parece estar se preparando para esse cenário não apenas pela regulação das novas tecnologias, mas pela construção de um ecossistema que conecta PD&I, academia, startups, indústria, dados, recursos humanos e regulação. O fórum mostrou que essa conexão já deixou de ser uma agenda paralela à atividade regulatória. Ela começa a fazer parte da capacidade do regulador de acompanhar a velocidade da transformação tecnológica do setor energético.

