O Ineep – Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis lançou a edição de julho de seu boletim mensal trazendo análises sobre a conjuntura do setor de óleo e gás no Brasil e no cenário internacional. O destaque desta edição é o debate sobre a reestatização de ativos estratégicos da cadeia de petróleo e gás, tema que, segundo o instituto, ganha relevância diante das recentes tensões geopolíticas, das preocupações com a segurança energética e das mudanças observadas nas políticas industriais de diversos países.
No editorial, o Ineep destaca a campanha Reestatiza Brasil, lançada em junho pela FUP – Federação Única dos Petroleiros, em parceria com sindicatos e movimentos sociais. Segundo o instituto, a iniciativa busca ampliar o debate sobre a retomada do controle estatal de ativos estratégicos do Sistema Petrobras privatizados ao longo da última década.
De acordo com o boletim, a campanha “coloca no centro do debate público nacional o bem-estar social do povo brasileiro, a luta pela reconstrução do país e a necessidade de fortalecimento de um projeto nacional de desenvolvimento soberano, popular e justo”. O editorial acrescenta que a proposta contempla “a retomada do controle estatal sobre a segurança energética até o abastecimento da população, desde a produção de petróleo, passando pelo refino, pela distribuição até a revenda”, argumentando que essa estratégia acompanha uma tendência internacional de maior convergência entre política econômica, segurança nacional e competição geopolítica, ao mesmo tempo em que responde às necessidades da realidade brasileira.
Venda de ativos
Além da análise conjuntural, o boletim apresenta um levantamento sobre os desinvestimentos realizados pela Petrobras entre 2013 e 2025: segundo os dados do Ineep, mais de 260 ativos foram alienados nesse período, com concentração das operações entre 2019 e 2023, quando foram vendidos 241 ativos. O maior volume financeiro foi registrado em 2019, impulsionado pela venda da Transportadora Associada de Gás (TAG), enquanto 2021 concentrou o maior número de operações. Aproximadamente 85,7% dos desinvestimentos ocorreram no segmento de exploração e produção (upstream), com predominância de ativos localizados na Região Nordeste. O estudo também destaca que, após a revisão da política de desinvestimentos da companhia, houve forte desaceleração das alienações: apenas um ativo foi vendido em 2024, dois em 2025 e, até julho de 2026, nenhum novo desinvestimento havia sido registrado.
Na avaliação do instituto, “a privatização de mais de 260 ativos da Petrobras durante as gestões Temer e Bolsonaro, dentre os quais destacam-se a venda da BR Distribuidora, Liquigás, Gaspetro, refinarias e infraestrutura de transporte e escoamento de gás e derivados, reduziu sua integração operacional e sua presença em segmentos estratégicos da cadeia de abastecimento. Esse processo restringiu a capacidade estatal de coordenar o suprimento interno de derivados com modicidade de preços”.
Segurança energética em foco
O boletim relaciona esse debate ao atual contexto internacional, marcado pelos conflitos no Oriente Médio e pela instabilidade no mercado mundial de petróleo. Segundo o Ineep, a atuação conjunta do governo federal e da Petrobras contribuiu para reduzir os impactos da alta internacional dos combustíveis sobre o mercado brasileiro.
Entre as medidas citadas estão subsídios temporários, desoneração tributária, mecanismos de cashback, reforço na fiscalização de práticas abusivas e tributação extraordinária sobre exportações de petróleo cru. Paralelamente, a Petrobras ampliou a utilização de seu parque de refino, manteve elevados níveis de produção e adotou uma política comercial baseada em parâmetros domésticos.
Com isso, segundo dados apresentados no boletim com base na ANP Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, entre o final de fevereiro e o início de junho de 2026 o diesel registrou aumento médio de 13,6% no Brasil, frente a uma média global de 23,3%. No caso da gasolina, a elevação foi de 4,9% no mercado brasileiro, enquanto a média internacional atingiu 17,5%.
Debate sobre o papel do Estado
O boletim também cita análises internacionais que apontam um movimento de fortalecimento do controle estatal sobre setores considerados estratégicos em diversos países. O Ineep menciona artigo publicado na revista Finance & Development, do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o qual cresce, em diferentes economias, a retomada do controle público sobre empresas, infraestrutura e recursos naturais em resposta às incertezas geopolíticas.
Embora reflita a posição institucional do Ineep e da campanha defendida pela FUP, a publicação contribui para ampliar um debate que vem ganhando espaço no setor energético: o equilíbrio entre abertura de mercado, integração das cadeias produtivas, segurança de abastecimento e soberania energética em um cenário internacional marcado por maior volatilidade e competição estratégica.

