A Shell concluiu a aquisição da ARC Resources, companhia canadense com operações concentradas nas formações Montney, na Colúmbia Britânica e em Alberta. A transação foi estruturada por meio de pagamento em dinheiro e ações e alcançou valor de empresa de aproximadamente US$ 16,5 bilhões, considerando o valor patrimonial atualizado de cerca de US$ 13,9 bilhões e aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívida líquida e arrendamentos assumidos pela Shell. A operação recebeu as aprovações acionárias, judiciais e regulatórias necessárias.
O movimento amplia a produção da Shell em aproximadamente 370 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d), entre líquidos e gás, e eleva de cerca de 1% para aproximadamente 4% ao ano o crescimento composto da produção até 2030, tomando 2025 como base. A companhia afirma que a aquisição também contribui para sustentar uma produção de líquidos próxima de 1,4 milhão de barris/dia no horizonte de 2030 e além.
O ativo estratégico está no Montney, uma das principais regiões produtoras de petróleo e gás do Canadá. Antes da aquisição, a ARC possuía mais de 1,5 milhão de acres líquidos na formação, enquanto a Shell detinha aproximadamente 440 mil acres. A combinação das posições acrescenta cerca de 2 bilhões de barris de óleo equivalente em reservas provadas e prováveis, segundo os dados divulgados pela Shell com base no final de 2025.
A composição da produção da ARC ajuda a explicar a lógica econômica da operação. Em 2025, aproximadamente 40% da produção da empresa era formada por líquidos, responsáveis por cerca de 70% das receitas. Para a Shell, portanto, a aquisição aumenta a exposição a uma produção de menor custo e de longa duração, ao mesmo tempo em que adiciona recursos de gás natural com potencial de integração à infraestrutura de LNG canadense.
Esse segundo componente é particularmente importante. A Shell já possui 40% de participação no LNG Canada Phase 1, empreendimento conectado às áreas produtoras da região, e identifica potencial de criação de valor adicional com os recursos de gás não desenvolvidos da ARC. A própria ARC destacou que suas áreas de gás estão próximas às operações da Shell e conectadas ao LNG Canada, criando uma possibilidade de integração entre produção upstream, processamento, transporte e exportação de LNG.
A operação, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma aquisição de reservas. Ela amplia a integração vertical da Shell em uma região onde a empresa já possui infraestrutura e participação em LNG. O ganho estratégico está na possibilidade de combinar escala de recursos, produção de líquidos, gás natural, infraestrutura existente e acesso ao mercado internacional de LNG. A aquisição também reduz a exposição da ARC a preços exclusivamente determinados dentro da bacia, ao incorporá-la a uma companhia com presença global em gás, LNG, refino, produtos químicos, combustíveis e trading.
A estrutura financeira também merece atenção. Os antigos acionistas da ARC receberam CAD 8,20 em dinheiro e 0,40247 ação ordinária da Shell por ação da ARC. No fechamento, em 2 de setembro, o preço da ação da Shell utilizado no cálculo resultou em valor patrimonial de aproximadamente US$ 13,9 bilhões. A Shell financiou essa parcela com cerca de US$ 3,3 bilhões em caixa e US$ 10,6 bilhões em novas ações.
Para a Shell, a expectativa é de que a aquisição gere retornos de dois dígitos, fortaleça os fluxos de caixa de longo prazo e seja positiva para o fluxo de caixa livre por ação a partir de 2027. Esses números são projeções da companhia, e não resultados realizados; sua concretização dependerá, entre outros fatores, de preços de petróleo e gás, desempenho operacional, resultados de perfuração, reservas, demanda e condições de mercado.
Do ponto de vista da indústria de petróleo e gás, o caso evidencia uma estratégia que vem ganhando peso entre as majors: concentrar capital em ativos de baixo custo, longa vida produtiva e possibilidade de integração com infraestrutura existente, em vez de ampliar indiscriminadamente o portfólio. No caso da ARC, a aquisição reúne produção de líquidos e gás em uma mesma base de recursos e acrescenta uma conexão direta com uma cadeia de LNG já em operação. A escala também é significativa para o Canadá: ao incorporar a ARC, a Shell aumenta sua posição em uma das principais áreas produtoras do país e passa a controlar uma base de recursos que pode sustentar simultaneamente produção de petróleo, gás e expansão da cadeia de LNG. O movimento reforça a importância da infraestrutura como elemento de valorização das reservas: recurso geológico, produção e acesso ao mercado precisam estar conectados para que o valor econômico seja efetivamente capturado.

