Simpósio ISA São Paulo debate os desafios da automação no Óleo & Gás


Cláudio Makarovsky (InvestSP) e Erik Maran (Westcom e ISA São Paulo Section) abriram o Simpósio ISA São Paulo section Automação em Óleo e Gás e chamaram as primeiras discussões que focaram os Desafios de Desenvolvimento e Retenção de Profissionais no Setor, com a participação de Rodrigo Vieira dos Santos (Senai), Paula Marques (Nacional Gás) e Barbara Sá (Braskem).

O professor Dr Rodrigo Vieira dos Santos, coordenador de tecnologia do Senai-SP, contextualizou a saída de mão de obra especializada do mercado de trabalho em todo o mundo e a necessidade de renovar o capital humano nos setores de tecnologia. O professor sustenta que o principal desafio brasileiro aí seria preparar trabalhadores, gestores, educadores e estudantes para um mercado em rápida transformação. Para ele, a adaptação da força de trabalho dependerá da capacidade de desenvolver novas competências compatíveis com ambientes produtivos digitalizados. Em vez de focar apenas no risco de substituição de empregos, é preciso manter programas permanentes de qualificação, requalificação e atualização profissional para permitir a migração dos trabalhadores para funções de maior valor agregado. E aí um dos conceitos centrais é o letramento digital e algorítmico, mas a formação não deve ser apenas técnica, mas também crítica, preparando cidadãos capazes de compreender os impactos econômicos, sociais e éticos das decisões automatizadas. Paula Marques e  Barbara Sá  contaram sobre as expectativas e o dia a dia das equipes de suas empresas. E as discussões levantaram uma dúvida: estão formando profissionais para o futuro ou apenas reagindo à necessidade de mão obra? Houve consenso sobre a necessidade de mudar a forma como se ensina porque tem muita universidade formando ‘o engenheiro do século XX’ ainda! E é urgente pensar em como esse novo profissional chega ao mercado. Porque os especialistas estão se aposentando e é preciso olhar para duas vertentes: formar gente nova e reter os bons profissionais – não é apenas salário, mas os jovens precisam entender seu papel nos desafios e assim encontrar um propósito para seu trabalho. As executivas pontuaram o que faz diferença na escolha de um jovem profissional: aquele que não desiste e que tem potencial para crescimento.

Gestão de Dados Industriais com DataHubs foi tema da mesa redonda formada por Caique Santos (Acelen), Márcio de Freitas Minicz (Petrobras) e Paulo Vitor Magacho (Petrobras), moderada por Carlos Paiola (Aquarius e ISA São Paulo Section). A conversa girou em torno da governança e contextualização de dados, como transformá-los em valor, centralizando os dados com segurança em tempo real. Foi consenso que as empresas querem fazer muita coisa e têm muitos dados, mas sem uma boa estrutura de gestão e contextualização nada vai acontecer; um datahub estruturado é básico para trabalhar em escala. Mas a tecnologia disponível hoje permite que se apliquem as ideias, mas é necessário organizar os dados. Para projetos greenfield não há muito segredo de como fazer, mas e o brownfield? Petrobras e Acelem têm bons exemplos de como desenvolveram o uso de dados de estruturas legadas; datahub, contextualização e latência – para determinar o que é tempo real nos diversos pontos em que a informação é solicitada. Porque “eu quero o dado de tal jeito” deve ser pensado antes e debatido com um time multidisciplinar. Aí surge uma postura importante: ou se insere o dado como produto (que vai ser usado por alguém) ou não se insere. E o viés da segurança deve estar sempre presente porque quando se expõe um dado, se aumenta a superfície de ataque cibernético.

Ana Rodrigues (HMS e ISA SãoPaulo Section) e Erik Maran falaram sobre Certificação de Profissionais em Segurança Funcional e Cibernética. Eles contaram que no Brasil só existem 22 pessoas com nível expert na norma ISA/IEC 62443, para cybersegurança. A boa notícia é que a ABNT reabriu o GT para o assunto porque, apesar dos treinamentos oferecidos pela ISA no Brasil serem em português, as provas de certificação são em inglês e apenas 50% dos aplicantes consegue ser aprovado. Para fazer a prova de expert é preciso ter passado nos quatro níveis anteriores.

CursoCarga horária2º semestre 2026Preço listaPreço membro ISA
IC32V16h24 e 25/08/2026
Das 9h às 17h
Horário de Brasília
US$ 1.750US$ 1.400
IC33V24h28 a 30/09/2026
Das 9h às 17h
Horário de Brasília
US$ 2.550US$ 2.040
IC34V24h26 a 28/10/2026
Das 9h às 17h
Horário de Brasília
US$ 2.550US$ 2.040
IC37V24h23 a 25/11/2026
Das 9h às 17h
Horário de Brasília
US$ 2.550US$ 2.040
IC48V40h27 a 31/07/2026
Das 9h às 17h
Horário de Brasília
US$ 7.600US$ 5.990

Ana Rodrigues e Erik Maran reforçaram a necessidade crescente de mais profissionais capacitados nos diversos níveis e destacaram a possibilidade de participar de um processo acelerado de certificação (IC37V).

Fechando o assunto da segurança cibernética, David Alves, especialista em cybersegurança para TOda Kaspersky, palestrou sobreQuando o Ataque não para a TI — Ele para a Produção: Os Novos Riscos de Cibersegurança em OT no Setor de Oléo & Gás. A mensagem é que é preciso acabar com os mitos que ainda podem existir nas plantas: segurança de TI é suficiente; OT não é alvo; segmentação não é necessária; se funciona não mexe; air gap garante a segurança e outros mitos devem ser erradicados. É preciso um bom parceiro, muito conhecimento, ter um plano de resposta a incidente e estar sempre atento.

José Mauro Ferreira doBrazilian Energy Council (BRENC) fez um Panorama Atual do Setor de Óleo e Gás, e focou nas oportunidades de criar um Pólo Logístico no litoral de São Paulo para atender a Bacia de Santos, responsável por 75% das reservas do Pré-Sal.

Antonio Carvalho, da ABB, falou sobreSistemas de Automação Rumo à Autonomia. O executivo destacou que prefere o termo autonomização a hiperautomação.

Da Automação Clássica à IA Industrial: Fechando a Malha na Refinaria de Mataripe foi o tema da apresentação de Rafael Sencio, da Acelen. O engenheiro discorreu sobre vários casos em que ‘pequenas’ intervenções geraram bons retornos. Segundo ele, a equipe da Acelen analisa diversas soluções – de IA e gêmeo digital até simples regressão linear – para gerar os melhores resultados.

Victor Venâncio (Diretor de Transformação Digital LatAm do Samson Group) moderou a mesa redonda sobre Convergência IT/OT no Setor de O&G é Realidade que reuniu Dardson Cassiano (Petrobras), Guilherme Abreu (Yara) e Magda Rocha (Braskem). Fechou-se consenso que essa integração se tornou obrigatória com o advento da Indústria 4.0 e que é preciso que a alta administração se comprometa com o sucesso dessa integração – o que pode ser alcançado colocando TI e TO sob uma mesma vice-presidência de tecnologia que trate ambas as áreas com igualdade, sem favoritismos. Também foi discutido que apesar dessa união, as equipes de IA devem ser separadas já que TO ainda não está pronta para liberar IAs no campo. Os desafios para a integração parecem os mesmos até mesmo para uma planta da Yara, de 1948, ainda pneumática – mas que apresenta a melhor taxa de disponibilidade da empresa.

A mesa redonda sobre Operações Autônomas, Gêmeos Digitais e IA no Óleo & Gás, moderada por Cláudio Makarovsky reuniu Anderson Oliveira da Rocha (Petrobras), Antonio Carvalho (ABB) e Gustavo Neumann (Braskem). Gustavo contou como a Braskem está implementando soluções avançadas e governança de dados para apoiar as operações industriais. Integração de tudo o que se tem é um dos desafios, mas a autonomia das operações passa por ela. Foi consenso que nomear de plantas interativas é melhor que plantas autônomas porque deve sempre haver um operador para tomar a decisão, para se responsabilizar.

Márcio de Freitas Minicz, engenheiro sênior de telecomunicações da Petrobras, deu uma aula sobre Monitoramento Operacional Confiável com LoRaWAN que começou lembrando que monitoração não é automação e que o segundo I em IIoT (internet industrial das coisas) é muito importante. Ele contou que não se instrumenta nem 50% das válvulas de uma refinaria porque o custo é proibitivo. Minicz detalhou a diferença entre LoRa e LoRaWan e deu vários exemplos de aplicação que provam que é possível fazer monitoramento de operação confiável com baixo custo.

Eduardo Brízida, da Vorte, discorreu sobre O Preço da Convergência IT/OT – Anatomia de Ataques Industriais e Estratégias de Defesa para o Setor de O&G, analisando o histórico de ataques a plantas industriais e o custo de ataques à Aramco pelo Shamoon, em 2012, o Triton que atacou sistemas SIS em 2017, o emblemático caso da Colonial Pipeline (2021) e o BlackCat Ramsonware (2022) que atacou sistemas de enchimento de tanques.

A mesa redonda Transformando o Mercado de Óleo & Gás com Inovação e Digitalização foi moderada por Dardson Cassiano e contou com Ana Carolina Alcântara (Ipiranga), André Dedding (Braskem) e Marcus Abreu (Acelen). Foi uma conversa sobre como inovação, digitalização, IA, dados e automação deixaram de ser apenas temas tecnológicos e passaram a ser instrumentos de competitividade, eficiência, segurança e sustentabilidade para o setor de Óleo & Gás. Consenso que as tecnologias não são um fim em si mesmas; elas só fazem sentido se são soluções para as dores reais do negócio, se geram valor, se reduzem riscos e se transformam para melhor processos e pessoas. Recorrente a questão levantada por Dedding: existem muitas solicitações de implantar esta ou aquela tecnologia que não estão ligadas a um problema específico. Consenso também a necessidade de tecnologias serem de conhecimento das equipes, não de apenas um indivíduo.

Marcus trouxe a necessidade de mais que apoio das lideranças, o reconhecimento de que elas também são corresponsáveis pelos resultados das inovações, o que as transforma em projetos da companhia, não apenas de uma equipe.

As discussões sobre o acesso às tecnologias pareceram indicar que as empresas mantêm um self servisse digital, onde ficam disponibilizadas as soluções e ferramentas que os diversos times podem fazer uso. Incluindo IAs – ferramenta que deu à Acelem um prêmio Gartner de inovação (2025) e que já foi incorporada porque se provou estratégica e de resultados. Uma boa indicação foi manter uma equipe de engenharia para internalizar e acompanhar tecnologias e soluções.

Ana Carolina introduziu a necessidade de se pensar tecnologia no longo prazo: a Ipiranga está em reta final de um importante projeto de gestão de terminal e a equipe se pergunta como preparar uma empresa de 90 anos para mais 90?

Do Sensor ao Data Lake – Como a Digitalização será a Base da Transição de Carbono foi o tema trabalhado por Guilherme Pereira Martins, da AUTPRO. A partir do princípio de que existem muitos dados industriais, mas eles não estão estruturados, estão sem contexto e sem rastreabilidade, Guilherme discutiu o que deveria ou não estar no Data Lake e por quê.

Kelvin Kamimura, da Westcon, deu uma aula sobre Cibersegurança OT em Indústrias e Processos de Óleo e Gás. Ele comentou relatórios de segurança cibernética que apontaram que os indicadores de operações seguras vindos de respostas a incidentes mostram que a média de duração de um incidente é de 19 dias e que as equipes levam cerca de 50 horas para responder – em média – e 33% dos ataques duram 108 dias e as equipes levam cerca de 100horas para responder. A partir de uma fotografia dessas, Kamimura mostrou como analisar reportes de vulnerabilidade e montar a arquitetura sob uma abordagem baseada em gerenciamento de riscos. Kamimura comentou o documento “Secure Deployment of Industrial Communication Protocols: A Risk Management Based Approach”, publicado em abril de 2026 por um grupo de trabalho conjunto formado pela FieldComm Group, ODVA, OPC Foundation e PROFIBUS & PROFINET International, que estabelece diretrizes para a implantação segura de protocolos de comunicação industrial em ambientes de automação. O foco foi demonstrar que a segurança cibernética dos protocolos deve ser tratada por meio de uma abordagem baseada em risco, alinhada às normas EN 40000-1-2 e IEC 62443. Isso porque muitos protocolos industriais amplamente utilizados foram concebidos antes que a cibersegurança se tornasse uma preocupação central. Por isso, diversos protocolos ainda não possuem mecanismos nativos robustos de autenticação, autorização, integridade e confidencialidade dos dados. Embora as organizações de padronização tenham incorporado recursos de segurança ao longo dos anos, grande parte da base instalada continua dependente de controles compensatórios implementados na arquitetura operacional da planta.

Como os autores, Kamimura também defende que a proteção efetiva dos sistemas industriais não depende apenas do protocolo em si, mas da combinação entre recursos de segurança incorporados aos protocolos;  segmentação de redes industriais; isolamento físico e lógico; gateways seguros; controles organizacionais; monitoramento contínuo; e gestão de riscos baseada em normas internacionais.

Ele analisou três cenários de implantação segura: Isolamento completo – configuração que reduz significativamente os riscos de comprometimento da comunicação -; Proteção por gateway seguro – onde os dispositivos permanecem em redes industriais isoladas, mas seus dados são disponibilizados para redes maiores através de gateways com funções de segurança devendo utilizar TLS, certificados digitais, autenticação, criptografia e proteção da integridade dos dados -; e Protocolos Ethernet com segurança nativa – considerado o cenário mais avançado, que utiliza OPC UA Security, CIP Security (EtherNet/IP), PROFINET Security, HART-IP Security. Nessa arquitetura, autenticação, criptografia e integridade dos dados são implementadas diretamente pelos dispositivos, permitindo inclusive modelos de confiança zero (Zero Trust). A conclusão mais importante é que todos os protocolos industriais não Ethernet carecem de recursos nativos de autenticação, autorização, integridade e confidencialidade. Por isso, dependem fortemente de isolamento de rede, segurança física e controles compensatórios externos.

Daí para a constatação de que as redes planas são muito perigosas – a partir de um ponto de acesso pode-se comprometer a rede toda – é um pulo; some-se o fato de que os instrumentos e equipamentos são inseguros por design: são feitos para trabalhar por muito tempo e não foram/são projetados para problemas cibernéticos mais recentes.

Então a mesa redonda sobre Desafios e Oportunidades na Integração de SOCs IT e OT teve muito o que falar. Moderada por Vagner Aguiar (Vortex) e com participação de Carlos Nascimento (Kaspersky), Renata Araújo (Braskem) e Daniel Castanha (Equinor Brasil) ponderaram sobre as particularidades de TO que não indicam uma segurança convergente – apesar de algumas empresas seguirem esse caminho, muitas vezes por pressões econômicas. O acesso remoto, cada vez mais comum, pede sempre ferramentas que passem pelo crivo da gestão de risco. Porque o volume de vulnerabilidades é muito grande e é preciso implantar controles compensatórios. Renata contou que com a gestão de risco pode-se fazer um balanço melhor entre as diversas variáveis. Mas decidir os KPIs e comprovar o ROI é sempre uma longa discussão. Carlos contou que pelo relatório da Kaspersky, o número de máquinas infectadas vem diminuindo, mas o acesso remoto continua o principal ponto de ataque. A Kaspersky também mantém uma lista de IPs sabidamente maliciosos que são bloqueados assim que detectados.

A mesa redonda sobre o Impacto do Fator Humano nas Operações de Cibersegurança, moderada por Eduardo Marsola do Nascimento teve a participação de Juliana Leão (Bayer), Daniel Castanha (Equinor Brasil) e Iode Cruz (Acelen) – que lembrou que um relatório da IBM mostrava que 70% dos executivos apontam o comportamento humano como a variável mais importante em segurança cibernética. As conversas convergiram para o fato de que, apesar da necessidade de tecnologias de proteção, nada substituiu o fator humano.

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