Realizada entre 3 e 5 de junho, no National Exhibition and Convention Center (NECC), em Shanghai, a 19ª edição da SNEC PV+ 2026 confirmou a transformação do maior evento fotovoltaico do mundo em uma plataforma abrangente dedicada aos sistemas energéticos inteligentes. O encontro reuniu mais de 3 mil expositores e centenas de milhares de visitantes em torno de uma agenda que mostrou como a próxima fase da transição energética será marcada pela convergência entre geração renovável, armazenamento, hidrogênio verde, inteligência artificial e digitalização.
Mais do que apresentar novos módulos solares ou inversores, a SNEC 2026 evidenciou uma mudança estrutural: a indústria já não enxerga mais solar, baterias e hidrogênio como mercados independentes, mas como componentes de um ecossistema integrado capaz de sustentar sistemas elétricos cada vez mais descarbonizados e distribuídos.
Da expansão da capacidade para a estabilidade do sistema
Se nos últimos anos o desafio era ampliar a participação das fontes renováveis, em 2026 a discussão passou a se concentrar em como garantir estabilidade e confiabilidade em sistemas com elevada penetração de energia solar e eólica.
Nesse contexto, tecnologias grid-forming, microgrids, usinas virtuais (VPPs) e soluções avançadas de armazenamento ganharam protagonismo na programação técnica. Diversos painéis discutiram a evolução dos sistemas de armazenamento capazes de fornecer inércia sintética e serviços ancilares para as redes elétricas do futuro.
O armazenamento deixou de ser visto apenas como um complemento das renováveis e passou a ocupar posição central na arquitetura do sistema elétrico.
Inteligência artificial chega ao centro da transição energética
Uma das novidades da edição 2026 foi a consolidação do tema “AI + Energy Digitalization”. A conferência dedicada à digitalização dos sistemas energéticos destacou aplicações de inteligência artificial em previsão meteorológica, gerenciamento de baterias, operação de plantas híbridas, manutenção preditiva e otimização do despacho energético.
A convergência entre IA e energia reflete um movimento mais amplo observado globalmente: à medida que os sistemas elétricos se tornam mais complexos, cresce a necessidade de plataformas digitais capazes de coordenar milhões de ativos distribuídos em tempo real.
Grid-forming emerge como tema dominante
Fabricantes e desenvolvedores concentraram atenção nas tecnologias grid-forming, consideradas essenciais para sustentar redes com participação crescente de fontes intermitentes.
A Huawei Digital Power, por exemplo, enfatizou em sua participação a aplicação de inteligência artificial e de sistemas grid-forming em soluções fotovoltaicas e de armazenamento, destacando que a próxima etapa da transição energética dependerá da capacidade de transformar solar, eólica e baterias em fontes primárias capazes de fornecer estabilidade à rede.
A discussão reflete preocupações crescentes de operadores de sistemas elétricos em diferentes regiões do mundo, diante do avanço acelerado das renováveis e da redução da participação das usinas síncronas convencionais.
Novas arquiteturas fotovoltaicas
No campo tecnológico, a SNEC 2026 mostrou que a corrida pela eficiência continua avançando. Os fóruns técnicos dedicados evidenciaram que a competição deixou de se restringir à redução do custo por watt e passou a buscar ganhos adicionais de eficiência e durabilidade.
As perovskitas – classe de materiais que possuem a mesma estrutura do titanato de cálcio (CaTiO₃) – continuam atraindo grande interesse da indústria e da academia, sendo vistas como uma das principais candidatas para impulsionar a próxima geração de módulos solares de ultra-alta eficiência.
Hidrogênio verde amplia integração setorial
Paralelamente à exposição principal, a SNEC H2+ reforçou o avanço do hidrogênio e dos combustíveis sintéticos na agenda energética internacional.
Sob o tema “Hydrogen Energy, Hydrogen Technology, Hydrogen Society”, especialistas discutiram rotas de produção de hidrogênio verde, metanol verde, infraestrutura e segurança operacional, além da integração entre geração renovável, armazenamento e hidrogênio em sistemas “source-grid-load-storage-hydrogen”.
A abordagem evidencia a crescente percepção de que o hidrogênio deve desempenhar papel estratégico na descarbonização da indústria pesada, do transporte marítimo e da produção de combustíveis sustentáveis.
Internacionalização e expansão dos mercados
Outro tema recorrente foi a internacionalização das empresas chinesas e as estratégias para expansão em mercados externos. Workshops específicos abordaram perspectivas para os segmentos de solar, armazenamento e hidrogênio, além dos desafios geopolíticos e regulatórios enfrentados pelos fabricantes em um ambiente marcado por tarifas, disputas comerciais e novas exigências de conteúdo local.
Quem está liderando a próxima fase da energia – e o que isso significa para o Brasil
A SNEC 2026 mostrou que a próxima etapa da transição energética será menos determinada pela fabricação de módulos fotovoltaicos e mais pela capacidade de integrar geração, armazenamento, inteligência artificial, software e novas demandas elétricas. A mensagem predominante, captada pela Momenta Media e reforçada por publicações como PV Magazine e PV Tech, é que os vencedores da próxima década tendem a ser plataformas energéticas e não fabricantes isolados.
| Vetor de crescimento | Quem lidera | Por quê | Oportunidades para o Brasil |
| Armazenamento de energia | Sungrow, CATL, Longi, JinkoSolar, JA Solar | O armazenamento deixou de ser acessório e tornou-se elemento central para flexibilidade e estabilidade dos sistemas elétricos. A Longi apresentou a plataforma Longi ONE, enquanto a JinkoSolar destacou o SunTera G5. | A expansão da geração solar e eólica no Nordeste aumenta a necessidade de baterias. Há espaço para sistemas BESS, serviços ancilares, redução de curtailment e desenvolvimento de uma cadeia nacional de integração e operação. |
| Infraestrutura energética para IA e data centers | Huawei Digital Power, Sungrow, Trina Solar e JinkoSolar | O crescimento da inteligência artificial está criando uma nova categoria de demanda elétrica. Fabricantes passaram a se posicionar como fornecedores de infraestrutura para AI Data Centers, integrando geração, armazenamento e gerenciamento inteligente. | O Brasil pode atrair data centers aproveitando a matriz renovável e a disponibilidade de energia. Projetos no Nordeste e Sudeste podem combinar solar, eólica e armazenamento para atender cargas críticas de IA. |
| Plataformas energéticas integradas | Longi, Trina Solar, Envision, GCL e Huawei | O setor está migrando da competição baseada em preço para competição baseada em valor, com integração entre módulos, armazenamento, software e serviços energéticos. | Empresas brasileiras podem capturar valor em EPC, operação e manutenção, agregação de recursos distribuídos e usinas virtuais, em vez de competir na fabricação de módulos. |
| Inteligência artificial aplicada à energia | Huawei Digital Power, Sungrow e fornecedores de software energético | IA está sendo incorporada à previsão de geração, manutenção preditiva, despacho, trading e gestão do ciclo de vida dos ativos. O FusionSolar Agent, da Huawei, é um exemplo. | O Brasil possui oportunidades para empresas de software, automação, digital twins e analytics voltados ao setor elétrico, especialmente em integração de renováveis. |
| Módulos especializados e aplicações específicas | JinkoSolar, Tongwei, Longi e fabricantes BC | A diferenciação deixou de ser apenas potência e passou a incluir aplicações específicas: desertos, data centers, ambientes offshore e estruturas leves. | Soluções customizadas podem beneficiar agrivoltaicos, mineração, saneamento, telecomunicações e sistemas isolados da Amazônia. |
| Tecnologia Back Contact (BC) | Longi, Aiko, TCL Zhonghuan, Skyworth PV | A tecnologia BC surge como plataforma premium para aplicações distribuídas e comerciais, complementando a dominância da TOPCon. | Segmentos comercial, industrial e geração distribuída premium podem se beneficiar de ganhos de eficiência e melhor desempenho em áreas limitadas. |
| Solar espacial e aplicações aeroespaciais | GCL, JA Solar, JinkoSolar e Risen Energy | A redução dos custos de lançamento e os avanços em perovskitas e células tandem estão transformando um tema futurista em um campo de validação tecnológica. | Embora ainda distante comercialmente, o Brasil possui competências em satélites, INPE, setor aeroespacial e materiais avançados que podem gerar cooperação tecnológica e nichos de pesquisa. |
| Infraestrutura digital e gestão de ativos energéticos | Envision, Huawei, Sungrow e GCL | A indústria está migrando para modelos de plataformas digitais capazes de gerenciar ativos distribuídos, armazenamento e fluxos energéticos complexos. | A digitalização da rede brasileira, expansão dos recursos energéticos distribuídos e futuras usinas virtuais criam espaço para novos modelos de negócios e serviços digitais. |
Uma nova fase da transição energética
O centro de gravidade da indústria está se deslocando da fabricação de módulos para a construção de sistemas energéticos integrados. Empresas de energia, fabricantes de equipamentos, fornecedores de software e operadores de infraestrutura estão convergindo para um novo modelo de negócios baseado em plataformas energéticas digitais.
Para o Brasil, isso significa que a maior oportunidade talvez não esteja em competir com a China na produção de módulos fotovoltaicos, mas em desenvolver competências em armazenamento, integração de sistemas, inteligência artificial, digitalização, serviços energéticos e infraestrutura para data centers. Em outras palavras, a próxima fase da transição energética poderá gerar mais valor na inteligência dos sistemas do que na fabricação dos equipamentos.
A edição de 2026 mostrou que a transição energética está entrando em uma fase mais sofisticada. Se a primeira etapa foi caracterizada pela expansão da capacidade renovável, a segunda será definida pela integração entre geração, armazenamento, hidrogênio, digitalização e inteligência artificial.
Nesse cenário, a energia deixa de ser apenas uma questão de megawatts instalados e passa a depender cada vez mais da inteligência dos sistemas, da flexibilidade das redes e da capacidade de coordenar ativos energéticos em escala. A SNEC 2026 deixou clara essa mudança de paradigma: o futuro da energia não será apenas renovável. Será também digital, distribuído e orientado por dados.

