Tarifaço


Na avaliação da Abinee, a lista de exceção divulgada pelo governo dos EUA não inclui alguns dos principais equipamentos elétricos vendidos ao mercado norte-americano, que permanecem sujeitos às tarifas de 50% impostas pelos EUA sobre exportações industriais brasileiras.

Entre os equipamentos elétricos afetados estão os transformadores para rede elétrica, embora a lista de exceção traga alguns desses itens, mas com especificações e aplicações diferentes dos produtos exportados pelo Brasil.

“A continuidade das negociações pelo governo brasileiro é essencial para que possamos incluir esses produtos na lista”, afirma o presidente da Abinee, Humberto Barbato.

Ao mesmo tempo, ele reforça a necessidade de adoção de medidas para compensar os impactos do tarifaço.

José Veloso, presidente executivo da Abimaq Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, afirma que a situação não ficou boa para o setor. Segundo ele, o setor de máquinas e equipamentos estava em segundo lugar entre os mais afetados, atrás apenas de petróleo e derivados, que registraram cerca de US$7 bilhões em exportações no ano passado. O setor de máquinas exportou US$ 3,6 bilhões, enquanto aeronaves chegaram perto de US$2,5 bilhões. Com a melhoria na posição de petróleo, derivados e aeronaves, o setor de máquinas e equipamentos passou a ser o mais afetado em termos de faturamento. Veloso explicou que o setor não entrou na lista de exceções porque seus produtos concorrem diretamente com os fabricados pelos Estados Unidos, que é um dos maiores produtores mundiais de máquinas, ao lado de China e Alemanha. Ele destacou que os EUA exportam mais para o Brasil do que o Brasil para lá. “Os EUA exportaram para o Brasil US$4,7 bilhões no ano passado. Só em máquinas, tivemos uma balança negativa de US$1,1 bilhão. Acredito que, por não ser um produto do qual os americanos dependam do Brasil, nós não entramos na lista de exceção”, afirmou.

Veloso disse que não é fácil redirecionar exportações de setores de alta e alta média tecnologia como o de máquinas e equipamentos – os EUA representam 50% das exportações brasileiras desses setores. “Nós não temos como direcionar nossas exportações facilmente para outros mercados. Quando vendo para os Estados Unidos, vendo sob norma americana. Lá, a medida não é em milímetros, é em polegadas; o peso não é em quilos, é em libras. São normas americanas. Os produtos desenvolvidos para clientes norte-americanos de alta tecnologia não podem ser vendidos para outros mercados. Os EUA fizeram uma redução. A tarifa ainda é alta, a tarifa média é de 31%, mas eles reduziram 40% da lista de produtos, o que é uma redução significativa. E também deram um prazo para aqueles produtos que estão em trânsito chegarem aos Estados Unidos antes da aplicação da tarifa.” Para ele, “o Brasil precisa sentar à mesa e negociar. Temos todas as condições de negociar. O que não podemos agora, nem pensar, é em retaliação. Se os Estados Unidos fizeram um movimento para diminuir a carga sobre o Brasil — a tarifa média caiu de 50% para 31% — nós não devemos escalar esse problema. É um problema importante para os dois países, mas mais importante para o Brasil.”

“Não existe qualquer fato econômico que justifique uma medida desse tamanho, elevando as tarifas sobre o Brasil do piso ao teto. Os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano.” disse Ricardo Alban, presidente da CNI – Confederação Nacional da Indústria

“Seguimos defendendo a negociação como forma de convencer o governo americano que essa medida é uma relação de perde‑perde para os dois países, não apenas para o Brasil. Embora as tarifas sejam frequentemente vistas como uma ferramenta de alavancagem, estas tarifas específicas de 50 % sobre produtos brasileiros são uma ferida auto infligida, prejudicando diretamente empresas americanas e brasileiras, consumidores americanos e brasileiros, e cadeias de suprimentos de ambas as nações.”

US Chamber of Commerce, maior entidade empresarial dos Estados Unidos, enviou uma carta à cúpula do governo Donald Trump pedindo a suspensão do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. A dois dias do início da aplicação das tarifas, o ofício foi encaminhado ao secretário americano de Comércio, Howard Lutnick, e ao chefe do USTR (Representação Comercial da Casa Branca), Jamieson Greer.

“Escrevo para transmitir as preocupações significativas de nossos membros sobre as possíveis repercussões da imposição de uma tarifa de 50% sobre as importações do Brasil”, começa a carta, assinada pelo vice-presidente sênior da US Chamber, John Murphy.

“A imposição dessa tarifa elevada, em resposta a processos judiciais internos, corre o risco de desencadear uma reação negativa no Brasil — e medidas retaliatórias potencialmente significativas — que imporão altos custos a empresas, trabalhadores e agricultores americanos”, continua o texto.

“Instamos que a ameaça de impor tarifas em 1º de agosto seja deixada de lado e que seja adotada abordagem mais deliberada para lidar com as barreiras comerciais injustas do Brasil, que permita análises baseadas em evidências, consulta às partes interessadas e engajamento bilateral”.

Segundo relatos feitos à CNN, a elaboração da carta foi costurada em conjunto com a Amcham Brasil (Câmara de Comércio Americana). A comitiva de senadores brasileiros em Washington visitou a sede da US Chamber nesta semana.

Apesar do apelo feito a Lutnick e a Greer, a entidade empresarial manifesta apoio às investigações comerciais no âmbito da Seção 301.

“O Brasil é um mercado dinâmico e repleto de potencial para empresas americanas, e os próprios brasileiros se beneficiariam de uma maior abertura às importações americanas, incluindo tecnologias de ponta, produtos aeroespaciais essenciais e igualdade de condições para o comércio de etanol, para citar apenas alguns exemplos. A eliminação dessas barreiras comerciais e a eliminação de casos de discriminação contra empresas americanas promoverão os interesses dos Estados Unidos, bem como os do Brasil”. (CNN)

Impactos diferentes

O aumento das tarifas de importação pelos EUA, previstas para 7 de agosto, deve ter impactos econômicos relevantes e desiguais entre os estados brasileiros: o Ceará e o Espírito Santo têm alta dependência do mercado americano, representando quase metade das exportações cearenses e um terço das capixabas; em outros 11 estados, os EUA têm participação entre 10 e 20% nas vendas externas. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2024, os Estados Unidos representaram 44,9% das exportações do Ceará, seguido pelo Espírito Santo (28,6%), Paraíba (21,6%), São Paulo (19,0%) e Sergipe (17,1%). A indústria responde pela maior parte das vendas. A forte presença americana na pauta dá a dimensão da importância e dependência de mercados como os EUA para o comércio exterior regional.  

Depois de São Paulo, que acumula maior perda financeira, Rio Grande do Sul e Paraná são os estados mais afetados, com base em dados da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  

Ocupando o segundo lugar de estado com maior impacto com o tarifaço, com potencial de retração de R$ 1,917 bilhão no PIB, o Rio Grande do Sul, teve os Estados Unidos como 3º maior destino de exportações, que totalizaram US$ 1,8 bilhão, representando 8,4% do total exportado. Os principais setores exportadores do estado são produtos de metal (US$ 322 mi, 17,4%), fumo (US$ 237 mi, 12,8%), couro e calçados (US$ 188 mi, 10,1%).  

No caso do Paraná, os EUA também aparecem como o 3º principal destino comercial. Em 2024, o estado exportou US$ 1,5 bilhão ao mercado americano, o que corresponde a 6,8% do total exportado no ano, sendo 97,5% provenientes da indústria de transformação. Madeira (US$ 614 mi, 38,7%), alimentos (US$277, 14,3%) e máquinas e equipamentos (US$ 217 mi, 13,7%) estão entre os principais setores exportados. O PIB estadual pode perder R$ 1,914 bilhão com o tarifaço de Donald Trump.  

Santa Catarina aparece em quarto lugar na lista de maior prejuízo financeiro (R$ 1,7 bi), mas é o estado com a segunda maior queda no PIB prevista: -0,31%. Quase tudo que o estado vende aos EUA vêm da indústria (99%): madeira (US$ 650,7 milhões, 37,2%), automóveis (US$ 258,6 mi, 14,8%) e máquinas e materiais elétricos (US$ 232,5 mi, 13,3%).  

Em 5º lugar, Minas Gerais pode amargar perdas de R$ 1,6 bilhão (-0,15% no PIB). A participação da indústria nas exportações aos EUA foi de 66,1% em 2024. No total, Minas exportou US$ 4,6 bi aos americanos no ano passado, com destaque para metalurgia (US$ 1,7 bi, 37,6%); produção vegetal, animal e caça (US$ 1,5 bi, 33,6%) e alimentos (US$ 276 mi, 6%). OS EUA são o 3º maior destino das vendas externas do estado.

No Centro-Oeste, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul acumulam prejuízos superiores a R$ 1,9 bilhão. Já no Nordeste, as perdas são menores, mas ainda relevantes: Bahia (R$ 404 mi), Pernambuco (R$ 377 mi) e Ceará (R$ 190 mi) lideram na região.    

Já os cinco estados menos impactados financeiramente são: Roraima (R$ 13 milhões), Sergipe (R$ 30 mi), Acre (R$ 31 mi), Piauí (R$32 mi) e Amapá (R$ 36 mi).  

Em relação à dependência das exportações americanas, os estados brasileiros Roraima, com apenas 0,3%, seguido por Mato Grosso (1,5%), Distrito Federal (2,6%), Piauí e Tocantins (ambos com 3%), Goiás (3,3%) e Rondônia (4,7%), somam perdas financeiras de R$ 1,87 bilhão.

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