Valve World Asia 2026: válvula como parte do sistema

A edição 2026 do Valve World Asia Expo & Conference, realizada em Shanghai, mostrou uma indústria de válvulas cada vez menos concentrada apenas em materiais, geometria, acionamento e capacidade de pressão. O programa técnico colocou em primeiro plano questões como confiabilidade, severe service, proteção contra sobrepressão, digitalização, inteligência embarcada, manutenção preditiva, rastreabilidade da cadeia de suprimentos, padronização e gerenciamento do ciclo de vida (programa oficial da conferência).

A edição 2026 reuniu mais de 100 expositores e registrou forte presença de profissionais de óleo e gás, petroquímica e automação industrial, com sessões de networking e reuniões um a um entre visitantes e expositores. O Valve World Asia 2026 ocorreu em paralelo, no mesmo Shanghai New International Expo Centre, à 18ª edição da Shanghai International Petrochemical Pump, Valve & Pipeline Expo.

A própria organização definiu a conferência em torno da ideia de que a indústria está atravessando uma ” encruzilhada da transição energética”. A justificativa é bastante objetiva: petróleo e gás continuam demandando equipamentos cada vez mais confiáveis, enquanto LNG, hidrogênio, novas energias e infraestrutura de transição introduzem novas condições de pressão, temperatura, materiais e controle. Nesse cenário, confiabilidade, controlabilidade e segurança das válvulas ganham importância estratégica.

De “válvula” para “sistema”

Um dos sinais mais claros dessa mudança apareceu logo na abertura da conferência com a apresentação que defendia que a confiabilidade estava deixando de ser tratada como propriedade isolada do componente e passando a ser entendida como resultado de projeto, materiais, fabricação, especificação, operação, manutenção e conhecimento acumulado. Esse conceito é particularmente relevante para óleo e gás: uma válvula pode cumprir determinada especificação no momento da compra, mas a disponibilidade e a segurança do ativo dependem de como ela continuará funcionando após anos de ciclos térmicos, corrosão, erosão, alterações de processo, manutenção e intervenções.

Severe service: operar no limite não é apenas suportar pressão

A programação dedicou uma parte substancial à evolução das válvulas para severe service. Entre os trabalhos estava “Valve Design and Optimization Under Severe Operating Conditions”, de Xiaolei Shi, da Wison Engineering, além de sessões técnicas sobre válvulas esfera, válvulas de controle para alta pressão e condições severas, válvulas de emergência projetadas para longa vida útil e soluções resistentes ao desgaste em processos petroquímicos.

Chamou atenção a discussão sobre vazamento em flanges de corpo e castelo de válvulas, com estratégias de projeto e engenharia para aumentar a confiabilidade da vedação. O tema é relevante porque, em plantas de processo, o desempenho de uma válvula não termina na capacidade de abrir ou fechar: estanqueidade e comportamento ao longo do tempo também fazem parte da função do equipamento.

Na sessão plenária “Valve Development III”, dois trabalhos aprofundaram exatamente essa tensão entre padronização e validação real de projeto: “Isolation Valve Standards: Conflicts, Challenges, and the Path to Standardization”, apresentado por Gopii Kannan, da Flowserve Corporation, e “Valve Design Validation Requirements Evolution”, apresentado por Mousa R. Al-Harbi e Adrian Wang, da Aramco. Isso aponta para uma tendência importante: a indústria está tentando deslocar parte da discussão de “atende à especificação” para “como foi demonstrado que o projeto funciona na condição para a qual foi especificado”.

Digitalização entra no ciclo de vida

A digitalização apareceu de maneira ainda mais explícita no segundo dia, na trilha “Smart full-lifecycle management of valves”.

Logo na abertura a PETRONAS discorreu sobre “Capitalizing the use of A.I + JIP33 Specifications + Material Digital Passport for real-time review, monitoring and tracking of valve procurement throughout the entire supply chain”, apresentada por Asrul Hazimin B Mohamad que apresenta uma mudança importante porque desloca a digitalização para além do chão de fábrica. O objetivo passa a ser criar uma cadeia digital do equipamento, conectando especificação, engenharia, aquisição, fabricação, inspeção, documentação e operação.

Na mesma trilha, Ciro Ren da Baker Hughes apresentou “Digital Plant Practice: Online Control Valve Diagnostics for Predictive Maintenance, e Carl Andre Roerdal Olsen da norueguesa ConditionALL apresentou “Digital Valve Monitoring: Modernizing Fugitive Emission Control, Safety, and Predictive Maintenance Through Technology Innovation”, abordando diretamente a relação entre monitoramento digital, controle de emissões fugitivas, segurança e manutenção preditiva.

Esse movimento pode ser resumido como a válvula deixando de ser apenas um dispositivo físico instalado na tubulação e passa a produzir informação sobre seu próprio estado operacional.

O ponto particularmente interessante para petróleo e gás: JIP33 + IA + passaporte digital

A participação da PETRONAS merece atenção especial. A apresentação sobre IA + JIP33 + Material Digital Passport coloca a válvula no contexto de uma cadeia de fornecimento mais padronizada e rastreável. Isso é relevante para projetos de óleo e gás porque grande parte dos problemas de qualidade e prazo não nasce necessariamente no equipamento acabado, mas na especificação, no procurement, na documentação, na inspeção e na comunicação entre EPC, fabricante e usuário.

A trilha também teve apresentação da Aramco sobre validação e da Flowserve sobre conflitos e desafios de normas para válvulas de isolamento. Ou seja, padronização não significa necessariamente simplificação. À medida que projetos tentam reduzir variedade e custo por meio de especificações comuns, aumenta a necessidade de demonstrar que a solução padronizada continua adequada às condições particulares de cada serviço.

Offshore: proteção contra sobrepressão volta ao centro

No fórum de engenharia marítima, moderado por Fei Zhang, vice-gerente-geral da divisão de equipamentos especiais da COOEC, a LESER falou sobre “Overpressure Protection for Offshore Platforms” colocando proteção contra sobrepressão diretamente dentro da agenda de aplicações offshore, na mesma sessão em que a Wison New Energies discutiu seleção e projeto de válvulas manuais para unidades flutuantes de produção de óleo e gás.

Isso é particularmente relevante para o Brasil.

Em FPSOs e outras unidades offshore, sistemas de proteção contra sobrepressão precisam lidar com uma combinação de alta pressão, hidrocarbonetos, gases corrosivos, limitações de espaço, requisitos de segurança, disponibilidade operacional e dificuldade de intervenção. Nesse contexto, a PSV não deve ser tratada apenas como o último dispositivo que abre quando a pressão ultrapassa um determinado valor. Seu desempenho está relacionado ao projeto do sistema de alívio, dimensionamento, contrapressão, descarga, materiais, estanqueidade, inspeção e manutenção.

Cryogenics: LNG leva a válvula para outro regime físico

Na trilha “Cryogenic Applications”, moderada por Neeraj Batra, da McDermott International, destacou-se a apresentação “Engineering Isolation Valves for Extreme Cryogenic LNG Applications: Challenges and Solutions”, de Senthil Kumar Viswanathan e Vignesh Murugan, da Flowserve India Controls que, ao lado de outros trabalhos discutiu a verificação de desempenho de válvulas em baixa temperatura e tecnologia de fabricação de válvulas criogênicas.

Aqui aparece uma consequência direta da transição energética: a engenharia de válvulas precisa lidar com fluidos e condições operacionais que levam os materiais para regimes muito diferentes daqueles encontrados em aplicações convencionais. E o desafio não é simplesmente “a válvula suporta −X °C”; é verificar como materiais, vedação, contração térmica, acionamento, estanqueidade e comportamento mecânico interagem nessa condição.

A transição energética não foi discurso paralelo

Um dos méritos do programa foi não separar completamente “válvulas tradicionais” e “novas energias”. O próprio evento colocou no mesmo universo tecnológico óleo, gás natural, LNG, hidrogênio, offshore, criogenia e aplicações industriais avançadas. A organização destacou explicitamente a necessidade de novas soluções para a cadeia de energia em transformação, incluindo explicitamente hidrogênio entre os setores-alvo do encontro.

Isso aparece também na descrição oficial da conferência, que agrupou proteção contra sobrepressão e gestão de segurança na transição energética, digitalização, monitoramento inteligente, manutenção preditiva, aplicações marítimas e ultra-baixas temperaturas.

A consequência é interessante: a transição energética não reduz necessariamente a importância da engenharia de válvulas. Ela muda as condições nas quais essas válvulas precisam operar.

O que o Valve World Asia 2026 sinaliza para a indústria

A leitura mais interessante da edição 2026 é que a indústria parece estar avançando em cinco direções simultâneas:

1. Da especificação para a validação – Não basta declarar conformidade; aumenta a importância da demonstração de desempenho e da validação do projeto.

2. Do componente para o ciclo de vida – Compra, instalação, operação, diagnóstico, manutenção e documentação passam a ser tratados como partes de uma mesma cadeia.

3. Da válvula mecânica para o equipamento conectado – Diagnóstico, sensores, feedback de posição, dados e manutenção preditiva entram na arquitetura do equipamento.

4. Do petróleo para múltiplas moléculas – LNG, hidrogênio e outras aplicações energéticas impõem novas condições de temperatura, pressão, materiais e vedação.

5. Da documentação estática para a rastreabilidade digital – JIP33, IA e passaportes digitais apontam para uma cadeia de suprimentos em que a informação sobre o equipamento acompanha o ativo.

A própria organização resumiu o escopo do encontro justamente nessa amplitude: design, fabricação, procurement, uso e manutenção, com ênfase em confiabilidade, eficiência, segurança e sustentabilidade.

O Valve World Asia 2026 reforçou a tese de que apróxima geração de válvulas não será definida apenas pela capacidade de suportar pressão, temperatura ou corrosão, mas pela capacidade de entregar desempenho previsível ao longo de todo o ciclo de vida do ativo. E mostrou uma indústria de válvulas que está deixando de tratar o equipamento como um componente isolado. A combinação entre validação de projeto, monitoramento digital, manutenção preditiva, rastreabilidade, padronização e novas exigências de pressão e temperatura aponta para uma abordagem cada vez mais orientada ao ciclo de vida e à confiabilidade do ativo.

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