Impactos da IA no trabalho

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Roseli Figaro, Professora titular da Universidade de São Paulo e coordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho (CPCT), faz uma reflexão importante no contexto do G20: “ (…) O Brasil é um dos países com maior mercado de anotação de dados para IA do mundo.

Esse trabalho pode ser realizado tanto por plataformas como a Amazon Mechanical Turk ou por empresas locais terceirizadas – as chamadas BPOs (na sigla em inglês) ou Terceirização de Processos de Negócios. Há, ao menos, 50 plataformas de anotação de dados para IA no Brasil. Esses trabalhadores são a inteligência humana que abastece de informação e treina os algoritmos.

Há, portanto, uma cadeia de produção de infraestrutura e há uma cadeia de produção para a extração de dados – dessa cadeia de dados todos nós fazemos parte, sobretudo, aqueles que precisam trabalhar por meio de plataformas de aplicativos. Um entregador por aplicativo, por exemplo, não entrega apenas comida, entrega dados da cidade, dos consumidores, do comércio, do clima, do trânsito. Esses trabalhadores são como antenas que coletam dados gratuitamente para que o algoritmo da plataforma possa operar. 

Temos então um novo mundo do trabalho. Aquele chão de fábrica da esteira móvel e de posições fixas de trabalho que passou pela polivalência e a flexibilidade, hoje transformou-se com a explosão dessas duas ordens de organização do processo produtivo. Mesmo em indústrias tradicionais, o ritmo e as condições de trabalho passam a ser determinados pelos algoritmos que são muito menos complacentes que os antigos mestres, contramestres e supervisores, pois não têm nenhuma empatia. A concentração e o controle são brutais, a gestão algorítmica do trabalho simula a autonomia e a vontade própria. Daí a falsa sensação de liberdade e a total desregulamentação. 

As empresas globais de plataformas não se submetem às legislações locais. É evidente a intensificação da dependência dos países de América Latina e África. Elas dão de ombros aos direitos constitucionais e à soberania de dados ou soberania informacional. Essa é a verdadeira questão da fronteira das disputas geopolíticas. Mas, essa bandeira só pode prosperar a partir de esforços globais de regulação e controle desses modelos de negócios. 

Os organismos internacionais, como a ONU por exemplo, que criou uma comissão especial sobre a governança para IA, não tratou do tema do mundo do trabalho (3); e o relatório da OIT de 2023 não trouxe indicações concretas para tratar da questão (4). 

Há deliberada miopia sobre o eixo central do problema: enquanto as patentes, os dados e os lucros são hiper concentrados, com sede e endereço bem certo e físico, os países do Sul Global servem de território de extrativismo, força de trabalho mal paga, precária e sem direitos. Um espaço desregulado. 

O discurso persuasivo sobre o novo e o deslumbramento tecnológico nos impedem de ver claramente como operam essas cadeias de produção e que a única forma de as regular, é regulando o trabalho. As cadeias produtivas globais das tecnologias contemporâneas precisam de governança global, mas com participação e determinação dos países do Sul Global, os quais fornecem grande parte dos insumos fundamentais para a existência delas – recursos naturais, dados e trabalho humano vivo, muito vivo, mas muito maltratado. Mas pode ser diferente!”

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